Lista de Tentativas do Brasil

O governo brasileiro tem a pretensão de inscrever os lugares abaixo. De acordo com o que eu estudei, estabeleci uma escala de dificuldade para visitação, indo de 1 (muito fácil) a 5 (muito difícil) considerando São Paulo como o ponto de partida.

Arrolo as tentativas de inscrição de PH do Brasil (TPH-Br). As que ainda não visitei vão em itálico:

1 – Estação Ecológica de Anavilhanas, AM.

É um arquipélago de 400 ilhas no Rio Negro, braço norte do rio que, depois, ao se juntar ao Solimões, torna-se o colossal Rio Amazonas. A rigor, a Estação Ecológica de Anavilhanas já é Patrimônio da Humanidade, juntamente com o Parque Nacional do Jaú e as Reservas de Desenvolvimento Sustentável de Amana e de Mamirauá, inscritos em conjunto sob o nome Complexo de Conservação da Amazônia Central. Assim, ou bem o Brasil não atualizou sua lista ou pretende a inscrição da EE de Anavilhanas separadamente, o que não tem sentido. Independente disto, a EE de Anavilhanas fica a uns 200 quilômetros de Manaus, próxima da cidade de Novo Airão e é menos complicada para visitar que o Parque Nacional do Jaú.

Escala: 4

2 – Cânion do Rio Peruaçu e Cavernas do Peruaçu Federal MG.

Ficam num parque nacional próximo do município de Januária, extremo-norte de MG, com belas formações rochosas e, em especial, grandes e longas cavernas com restos de animais extintos como a preguiça-gigante. Lembra o Parque Naracoorte que visitei no Estado da Austrália do Sul.

Escala: 4

3 – Igreja e Monastério de São Bento, RJ.

Fica no centro do Rio de Janeiro e são realizadas missas cantadas em canto gregoriano. Nunca visitei, embora a visita seja fácil. A igreja é do séc. XVII e sem dúvida é um símbolo da marca deixada no Brasil pela ordem beneditina. A rigor, com a inscrição da Paisagem Cultural do Rio de Janeiro, em 2012, esta Igreja já encontra-se englobada na Lista de Patrimônios da Humanidade. Falta o Brasil atualizar sua Lista de Tentativas.

Rio-SaoBentoMonastery1.JPG

Escala: 1

4 – Conjunto arquitetônico de turismo e lazer às margens do Lago da Pampulha, MG.

Já visitei, mas faz tempo. O lugar tem a igrejinha da Pampulha, projeto de Niemeyer, é bem bonito, mas sinceramente não acho que tenha estatura para ser um patrimônio da humanidade.

igreja-da-pampulha

Escala: 1

5 – A Rota do Ouro em Paraty e suas paisagens, RJ.

Já fui a Paraty, um lugar muito bonito, tanto pelo patrimônio cultural quanto pelas belezas naturais. Há boa chance deste aqui ser inscrito nos próximos anos. A Rota do Ouro (cujo ponto de partida é Diamantina e passa por Ouro Preto) foi fundamental para a própria constituição do Brasil. Paraty busca há tempos inscrever-se na Lista da UNESCO, mas pelo critério cultural a UNESCO considera que seu acervo não apresenta excepcionalidade. O Brasil decidiu então tentar inscrever como um patrimônio misto, tentando englobar o acervo arquitetônico da cidade, o entorno natural e o fato de ter sido um dos portos da rota do ouro. Há chance de dar certo.

Escala: 2

6 – Palácio da Cultura, antiga sede do Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro, RJ.

A idéia aqui é valorizar o estilo arquitetônico deste imóvel, localizado no centro da cidade do Rio de Janeiro e que acabou influenciando projetos de muitos outros imóveis no Brasil durante muito tempo. Sem ter em mente esta circunstância histórico-arquitetônica, o lugar sequer chega a ter interesse turístico. Vale também o comentário de que toda a paisagem cultural do Rio de Janeiro foi inscrita como PH, de forma que esta tentativa não faz mais sentido, exceto se o Brasil pretender sua inscrição em separado, o que não faz sentido.

Escala: 1

7 – Parque Nacional da Serra da Bocaina, SP e RJ.

Fica na divisa entre os estados do RJ e de SP e uma de suas melhores bases para visitação é justamente Paraty. É uma parte relativamente bem conservada da Mata Atlântica, com a esperada floresta tropical e tropical de altitude e suas cachoeiras, trilhas, etc. Improvável sua inscrição, porque a UNESCO já reconheceu duas outras áreas da Mata Atlântica (na Bahia e entre SP e PR), exceto se no contexto do reconhecimento de Paraty como um patrimônio da humanidade misto.

Escala: 2,5

8 – Parque Nacional do Pico da Neblina, AM.

É o parque onde está o ponto culminante do Brasil, com seus 2.993 metros de altura (e não 3.014 como até pouco tempo se dizia). Não vejo motivo para a inscrição como PH, o interesse é puramente nacional. De qualquer forma, a visitação é possível com alguma agência de turismo, mas o acesso é bem difícil, caro e a escalada é extenuante.

Pico da Neblina

Escala: 5

9 – Reserva Biológica do Atol das Rocas, RN.

O Atol das Rocas já é PH, junto com Fernando de Noronha, chamado pela UNESCO de Ilhas Atlânticas Brasileiras. O governo brasileiro quer, por motivos que me parecem incompreensíveis, inscrever a Reserva Biológica do Atol das Rocas separado de FN, o que é bem improvável. O acesso ao Atol das Rocas é praticamente impossível para quem não dispõe de um barco com capacidade para alto-mar ou não seja pesquisador da vida marinha.

Escala: 5

Paisagem Cultural do Rio de Janeiro, RJ – INSCRITO COMO PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE EM 2012, consequentemente, está fora da Lista de Tentativas passando a integrar a Lista de PH.

10 – Parque Nacional da Serra da Canastra, MG.

Sabe-se que aqui está a nascente do Rio São Francisco. A paisagem é típica de cerrado e este é o ponto fraco desta candidatura, já que a UNESCO já inscreveu outras áreas sob este fundamento.

Escala: 2,5

12 – Parque Nacional da Serra da Capivara e as Áreas Permanentes de Preservação, PI.

Aqui é uma questão de extensão do PH do PN da Serra da Capivara, já inscrito, para abranger também as áreas permanentes de preservação, transformando um PH cultural em PH misto. Tenho muitíssimo interesse em visitar o Parque Nacional da Serra da Capivara, no interior do Piauí. A melhor forma de lá chegar é pelo Aeroporto de Petrolina, em Pernambuco e de lá, por uma estrada federal em terrível estado passando pela Bahia, um trajeto de 350 km.

Sobre isto, ver o seguinte link: http://www.aender.com.br/?p=3042

Escala: 4

13 – Parque Nacional da Serra do Divisor, AC.

Muito remoto este PN, na fronteira do Acre com o Peru, o ponto mais ocidental do Brasil e talvez o lugar onde o Brasil mais próximo chega do Oceano Pacífico. Não há estrutura de visitação e o acesso é pela cidade de Cruzeiro do Sul, no oeste do Acre (para onde há vôos regulares da GOL).

Escala: 5

14 – Estação Ecológica do Taim, RS.

Um ambiente natural com áreas alagadas no sul do RS, com ecossistema peculiar, fortemente afetado pelos avanços e recuos do mar.

Escala: 3

15 – Estação Ecológica do Raso da Catarina, BA.

Fica na região mais seca da Bahia, próxima à Usina de Paulo Afonso e ao lugar onde se desenrolou o conflito de Canudos. O clima oscila entre o semi-árido e o árido e é habitat da ameaçada arara-azul-de-lear. Apenas visitas de pesquisadores são admitidas.

Escala: 5

Tentativas de Patrimônios da Humanidade

Vale a pena aproveitar o gancho da ida a Montevidéu para falar deste tema, porque lá estão nada menos que 3 lugares que o Governo do Uruguai pretende inscrever na Lista da UNESCO.

São os países que primeiro identificam seus tesouros culturais e/ou naturais e os indicam à UNESCO para inscrição. A UNESCO avalia os lugares a partir de 10 critérios que fixam e orientam toda a apreciação sobre se um determinado ponto do globo merece ser etiquetado como Patrimônio da Humanidade.

São 10 os critérios (6 culturais e 4 naturais) que se adotam para a avaliação. Para que o post não fique longo demais, vou expor e analisar estes 10 critérios em separado.

Em tese, ao menos um dos critérios precisa ser satisfatoriamente preenchido para que o lugar reconhecido como PH. A UNESCO pode exigir medidas de proteção, de conservação, de restauração ou quaisquer outras providências para que o lugar esteja apto ao reconhecimento mundial. Também pesa a mobilização de governos e populações em prol da inscrição porque, embora os critérios técnicos sejam preponderantes, uma pitada de política – infelizmente – também conta.

Não fosse assim, o número de PH hoje inscritos seria substancialmente menor, já que o Comitê da UNESCO – com representantes dos países signatários da Convenção de 1972 e que é quem bate o martelo – não raro inscreve lugares mesmo com parecer contrário das comissões técnicas (ICOMOS).

Foi o que, na minha visão, aconteceu em 2010 quando na Reunião Anual da UNESCO – que estava ocorrendo em Brasília –, acabou-se por inscrever a Praça São Francisco em São Cristóvão-SE, mesmo contrariando o parecer técnico no sentido de que este lugar não preenchia minimamente os critérios para inscrição.

Enfim, independente de tudo isto, quem curte os Patrimônios da Humanidade deve sempre dar uma olhada na Lista de Tentativas, já que o que hoje é apenas o desejo de um país, amanhã pode ser um PH – e a cada ano esta chance se renova.

Em Montevidéu há 3 tentativas uruguaias de inscrição:

– O Palácio Legislativo;

– A Rambla;

– Os prédios representativos da arquitetura modernista do início do séc. XX, como o Edifício Salvo.

Todos eles foram abordados nos dois posts relativos a Montevidéu. Para acessá-los, ver a barra lateral ou clique aqui e depois aqui.

Eu já disse isto no blog e repito: é sempre bom ir conhecendo as tentativas, muitas delas são interessantíssimas – algumas até mais que alguns lugares já inscritos. Especialmente quando se vai a algum lugar cujo retorno não será simples, vale a pena, depois de ir aos PH, dar uma olhada nas tentativas, até para evitar, no futuro, o “ah, se eu soubesse…”.

O problema é que as tentativas, num primeiro momento, são reputadas de valor universal apenas pelo país que as indica, sem que isto tenha ainda sido confirmado pela UNESCO. Atualmente, há 1.496 lugares na Lista de Tentativas (uma vez e meia o número de Patrimônios da Humanidade já inscritos).

Vejam o caso do Uruguai. Não há dúvida de que Colônia do Sacramento foi com justiça inscrita na Lista de PH. Mas o que dizer da Rambla? É um calçadão muito bonito, interessante, mas isto tem valor puramente para o Uruguai – na minha avaliação. Quantos outros calçadões de orla há no mundo, como o de Copacabana ou o de Havana, igualmente importantes para a cidade onde ficam mas sem repercussão mundial? O mesmo vale para o Palacio Legislativo…

De qualquer forma, as coisas funcionam assim: se o país não as indicar, elas nem sequer chegam à apreciação da UNESCO. Por isto que o nome que lhes é dado é adequado: tentativas. Pode ser que um dia sejam inscritos, pode ser que nunca o sejam.

Alguém ficou curioso para saber quais são as tentativas do Brasil? Esperem até o próximo post.