O “efeito Lívia”

Tenho postado muitas fotos relativas aos lugares sobre os quais tenho comentado. Isto me trouxe a preocupação de causar o que chamo de “efeito Lívia” em quem está lendo.

Explico.

Lívia é uma amiga que há uns dois anos atrás largou seu emprego aqui em São Paulo, juntou o dinheiro e foi para a Ásia ficar lá até que o dinheiro acabasse. Esta aventura sensacional demorou, acho, um ano e meio por aí. Antes disto, porém, Lívia fez uma viagem com roteiro bem interessante começando em Santiago e terminando em Lima, passando pelo Deserto do Atacama, Bolívia, Arequipa no Peru e, claro, Cusco e Machu Picchu.

Machu Picchu deveria ser o ponto alto da viagem – todos os elogios a M.P. na minha opinião nunca são exagerados – mas, chegando lá, Lívia se entediou… e disse que ela havia visto tantas fotos, de todos os ângulos e todos os detalhes que, ao se deparar com Machu Picchu ela tinha a impressão de já ter ido, de tanto que já havia visto em fotos.

Este risco é real e todo viajante deve tomar cuidado para não se empanturrar de ver fotos do local para onde se vai, de modo a perder a graça, a surpresa, o encantamento de ser pôr os olhos em algum lugar de interesse turístico pela primeira vez.

Isto vale especialmente para monumentos e obras de arte, mas pode acontecer com qualquer lugar, exceto, talvez, o turismo de aventura porque aí o divertimento está não em apenas ver, mas em participar do evento.

A este sentimento de “já vi” mesmo sem nunca ter ido eu batizei de “efeito Lívia”.

Alguns cuidados devem ser tomados para evitá-lo. Assim, pode-se (deve-se)ler e estudar muito a respeito do destino, mas evitem ver muitas fotos do lugar antes de ir. Por isto eu gosto tanto dos guias do Lonely Planet, que têm muita informação e poucas fotos. Também é bom evitar ficar vendo reportagens televisivas que, claro, vão dar destaque às imagens dos pontos mais interessantes do lugar.

Então, se alguém estiver planejando ir a algum dos lugares sobre os quais tenho comentado, pode olhar as fotos, mas só de relance, para evitar o “efeito Lívia”.

Mergulhador Credenciado

Ontem, domingo, concluí o curso básico de mergulho autônomo, o que me conferiu um credenciamento – válido internacionalmente – para mergulhos com cilindro até 18 m de profundidade. Para maiores profundidades, é necessário o curso avançado.

Pela manhã realizei os três mergulhos-teste, para comprovação do aprendizado das técnicas ensinadas na piscina. Basicamente são procedimentos de emergência, já que o mergulho, em si, não apresenta dificuldade, é só deslizar na água e ir regulando as subidas e descidas com a respiração.

Fui muito bem nos testes. Em apenas um cometi um erro que gerou uma situação curiosa: em um dos testes, simula-se a perda total de oxigênio do seu cilindro, seja por descuido em verificar a quantidade de oxigênio restante, seja porque tanto o respirador (ou regulador) principal quanto o reserva deixaram de funcionar. É uma situação-limite, especialmente quando se está muito fundo, mas acontece muito raramente. A solução é procurar outro mergulhador e pedir-lhe, com gestos estabelecidos, que lhe forneça o respirador reserva para que se possa subir à superfície e pedir ajuda.

Pois bem, eu retirei o meu respirador da boca, a 6 metros de profundidade, e pedi ao outro mergulhador que me desse o respirador reserva dele. Ele me passou e eu, em razão do estresse do momento, acabei colocando invertido na boca e ao puxar o oxigênio…. nada.

O procedimento seria, então, pedir ao outro mergulhador que me fornecesse o respirador principal dele, para que fizéssemos o que se chama de “cachimbo”, um respirando de cada vez.

Mas eu entrei em pânico. Esqueci que poderia pegar o meu próprio respirador (que afinal estava funcionando, era apenas um teste), esqueci de tudo e agi instintivamente lançando-me em uma espiral vertical em busca do ar na superfície.

Em situações assim há um sério risco de ter um mal descompressivo se prender o ar, mas ao menos disto eu me lembrei, então mantive-me soltando o ar normalmente.

Foi tenso o negócio. Chegando em cima, também me esqueci de inflar o colete, mas o instrutor, que foi atrás de mim, se encarregou de fazê-lo e, no final, demos boas risadas.

Deu tudo certo, fiz a prova teórica, passei com 9 e voltei para São Paulo.

Esta semana toda ainda trabalho em Jaguariúna. Depois do carnaval, fico em Águas de Lindóia até o final de março.

Vamos que vamos.

Mergulho em Ilhabela/SP

Estou em Ilhabela, a maior ilha do Estado de São Paulo, que fica no Litoral Norte, justo em frente de São Sebastião. Apenas se alcança a ilha com a balsa e a travessia dura uns 15 minutos. Não é difícil chegar aqui. Desde quando eu morava em Ribeirão Preto eu ouvia falar bem de Ilhabela, mas, ao mesmo tempo, todos os que se maravilhavam com as belezas do local eram unânimes em apontar um grande problema: os “borrachudos”, pernilongos pequenos que infestam o local. Acho que por causa disto eu nunca planejei vir a Ilhabela e hoje vejo que perdi por um bom tempo as belezas daqui até porque repelentes existem e estão aí para serem usados.

Há algum tempo já vinha pensando em fazer o curso de mergulho autônomo (com cilindro e não apenas com o snorkel) e quando estive em Los Roques (Venezuela) e San Andrés (Colômbia) fiquei com pena de não ter o certificado para mergulhar lá. Para resolver isto, decidi fazer um curso de fim-de-semana de mergulho aqui em Ilhabela.

Há cursos em São Paulo e até em Campinas, onde são ministradas as aulas e há as práticas em piscinas, mas, como é óbvio, fica faltando o mergulho no mar e com isto acaba que a pessoa perde mais tempo para obter o certificado.

Aqui em Ilhabela é possível fazer tudo de uma vez, e em um fim-de-semana. O ritmo é alucinante. Começa às 8 horas da manhã do sábado e vai até as 20 horas. Depois, no domingo, recomeça às 9 e termina às 18. Mas resolve-se tudo de uma vez.

O meu curso hoje foi assim: primeiro na piscina, para acostumar-se à idéia de respirar debaixo d’água puxando o ar do cilindro, que é preso às costas em um colete e onde também há também há um respirador de emergência, um aparelhinho que informa a quantidade de ar restante e um profundímetro. O colete pode ser inflado e desinflado com um outro dispositivo. Usam-se, ainda, as nadadeiras nos pés e a máscara no rosto.

Na piscina aprendem-se as providências que devem ser tomadas no caso de emergência como quando o ar ameaça acabar, ou o respirador dá problema, etc.

O mais chato de tudo é a montagem do equipamento, que é pesado e cheio de detalhes e não se pode errar pois isto pode provocar um problema grave dentro d’água.

Depois, vai-se ao mar. O primeiro mergulho se deu ao redor de uma ilhota chamada Ilha das Cabras. Eu notei o seguinte: quem tem prática com o snorkel sente pouca diferença quando está imerso pois o mecanismo de respiração é o mesmo (a diferença é que com o cilindro eu não preciso subir para respirar, ou seja, contraria-se a lógica dos mamíferos), lidar com a máscara é praticamente a mesma coisa e é com os pulmões que se controla a subida e descida n’ água. Enchendo o tórax, sobe-se. Esvaziando, desce-se.

A descida foi de 5,9 metros. A água não estava muito boa mas deu pra ver vários tipos de peixes, alguns azuis, outros amarelos, ouriços e alguns corais.

A regra de ouro é: respirar sempre. Não se pode, especialmente quando se está subindo de volta, prender o ar porque isto pode provocar sérios problemas pulmonares. Também é importantíssimo “equalizar” a pressão do ar dentro da cabeça quando se está no fundo, tampando o nariz e respirando de modo a “inflar” o ouvido.

De noite, mesmo cansado, tive as aulas teóricas que foram bem interessantes. Alguns tópicos são engraçados, por exemplo, o que fazer quando se depara com um tubarão, hahaha. Para matar a curiosidade de vocês vou falar: o tubarão normalmente vai fugir, então sem problemas. Mas se ele ficar por ali, é possível afugentá-lo de duas formas: ou fazendo ruído (que o incomoda) ou metendo a mão no fucinho dele, que é bem sensível. Na teoria tudo é tão fácil né.

Amanhã pela manhã serão nada menos que três mergulhos. À tarde, o resto da teoria e, no fim, a prova para verificar o conhecimento adquirido. Com isto, obtém-se o certificado e os mares do mundo de abrem para mergulhos incríveis.

Curtindo Huanchaco

Huanchaco acabou sendo uma agradável surpresa nesta viagem. Dormi uma noite maravilhosa nesta pousada Las Palmeras, o único ruído vinha das ondas e bastou o vento do mar para refrescar o quarto. Uma delícia.

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Acordei e fui curtir o sol (que brilha aqui os 365 dias do ano…) andando pela orla da praia nesta segunda-feira tranquila depois que os veranistas de fim-de-semana foram embora. Huanchaco estava com aquela sonolência conceição-da-barriana fora de temporada. Fiz algumas fotos, inclusive dos caballitos de totora e subi até a igreja da cidadezinha, que dizem ser a segunda mais antiga de todo o Peru. De lá, uma bela vista e um vento que me segurou por quase uma hora, apenas apreciando o contraste do mar com os barrancos desérticos.

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Desci e fui desenvolver um talento oculto meu – o surf.

Procurei o Juan Carlos, mencionado no Lonely Planet (um dos meus livro-guias) como professor de surf e alguém que desenvolve um projeto social com crianças carentes ensinando-lhes a surfar. Quando cheguei no endereço mencionado estava lá uma confusão de meninos e surfistas gringos em um ambiente hipponga, com araras enjauladas gritando e Juan Carlos imerso nisto tudo aí.

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Após conter meu impulso de sair correndo do lugar, combinei com ele duas horas de aula particular de surf por 50 soles (R$ 31,25). De início, meia hora de aula teórica, na qual Juan Carlos brilhou pois notava-se que para ele o surf representava a razão de viver. Todos os movimentos e práticas do surf eram justificadas com apelo à física, demonstrando porque era necessário fazer desta ou daquela forma.

Aí fiquei treinando, deitado de bruços na prancha, ainda no seco, os 3 movimentos básicos que são: 1 – suspender-se até a barriga com as mãos espalmadas na altura das costelas; 2 – começar a levantar puxando a perna esquerda apoiando o corpo para que 3 – a perna direita se ponha à frente e assim, se surfe.

Fomos para a praia, num ponto da cidade com boa balneabilidade, ao contrário da praia em frente ao Las Palmeras. Não imaginava que a prancha pesasse tanto.  Um pessoal de Lima – que inclusive aparece na foto acima – ficou encarregado de fazer minhas fotos e vídeos.

Juan Carlos era extremamente exigente, ríspido às vezes. Claro que minha evolução foi lenta e eu disse a ele que eu aprendo uma coisa de cada vez – para justificar o fato de que somente após várias tentativas eu consegui ficar de pé na prancha. E, depois de ficar em pé, muitas foram as vezes para que eu conseguisse deitar novamente na prancha sem me lançar desajeitadamente à água.

Eis el profesor:

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Foi muito divertido. Meu nível pré-primário contrastava com os meninos do projeto social que surfavam como se tivessem nascido fazendo aquilo.

Saí da aula, digamos, na segunda série do primário com arranhões no pé e no braço e com o lábio inchado porque em dado momento a prancha bateu na minha boca.

Agora estou aqui na beira da piscina, um sossego valiosíssimo, tomando uma Inca Cola esperando o sol baixar para ir tomar mais um banhinho no Pacífico.

Tentei postar os vídeos, mas não consegui, acho porque a conexão aqui do Las Palmeras não é das melhores. Mas chegando em São Paulo eu posto os vídeos, para vosso deleite.

Bem-vindos!

Este é o primeiro post do Blog do Aender, um lugar onde pretendo escrever sobre minhas andanças pelo mundo, especialmente visitando os Patrimônios Mundiais da Humanidade declarados pela UNESCO. Farei um post específico para explicar como funciona esta importante iniciativa tomada pela UNESCO e aderida por mais de 180 países, cujo objetivo é proteger os lugares mais significativos para a Humanidade, tanto no aspecto natural quanto no aspecto cultural. O espaço será aberto também para discussões e reflexões sobre o Direito e a Magistratura, mas em menor escala.  Vamos começar, então!