Carriacou, Granada

Carriacou é a segunda ilha que compõe o país Granada (para lembrar: Granada = Granada + Carriacou + Petite Martinique). Ferries conectam as três ilhas ao menos uma vez por dia e a viagem entre St. George’s e Hillsborough (capital de Carriacou) leva uma hora e meia mais ou menos. Durante a viagem é possível ver toda a costa oeste da ilha de Granada.

Sair de Granada e ir para Carriacou significa deixar o Caribe dos cruzeiros, dos resorts, dos restaurantes de comida internacional e desbravar o Caribe como ele era há algumas décadas: sem cruzeiros (isto é, poucos e aventureiros turistas), sem resorts (isto é, acomodações simples ou muito simples) e comida caribenha. O que não falta em Carriacou, porém, são as vans (que eles chamam de “ônibus”) que levam os habitantes locais para todos os lados em velocidade suicida e onde sempre cabe mais um. Surpreendentemente, Carriacou não é mais barata que Granada, porém.

Carriacou tem 9 mil habitantes, é mais seca que Granada e tem praias praticamente desertas. Algo imperdível a se fazer em Carriacou é ir fazer a trilha de 45 minutos até a praia (esta é deserta mesmo!) de Anse La Roche, de onde já se avista a Ilha de União no país vizinho de São Vicente e Granadinas. Lembrou-me um pouco Fernando de Noronha, é tão paradisíaco quanto.

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Bem mais conhecida é a Paradise Beach onde há bares de praia e algum morador local aproveitando a praia no domingo.

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Hillsborough é a base para tudo isto (os deslocamentos aos quatro cantos da ilha não levam mais que alguns minutos). É uma cidade esquecida no tempo, sossegada demais até para quem gosta de sossego.  Dali eu parti para a Ilha da União, em São Vicente e Granadinas, numa travessia internacional que durou menos de 1 hora mas que envolveu vários contratempos.

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Por fim, cabe ressaltar que Carriacou e Petite Martinique são a porção das Granadinas que ficaram para Granada (o resto foi para São Vicente e Granadinas). Os dois países apresentaram à UNESCO estas ilhas como tentativa conjunta de inscrição na Lista da UNESCO.

Distrito Histórico e Sistema de Fortificações de St. George’s–Granada

Granada foi um destino encantador para mim nesta viagem ao Caribe em abr/2016. Pareceu-me o meio-termo ideal entre o desenvolvimento de Barbados e a rusticidade de São Vicente e Granadinas, com ótimas praias, uma bela capital (St. George’s) e opções de ecoturismo (Parque Nacional Grand’ Étang). Eu sempre quis ir a Granada e o país não me decepcionou, pelo contrário!

Granada não possui Patrimônios da Humanidade, mas apresentou à UNESCO três Tentativas e eu as visitei todas. Aqui trato de 2: o Distrito Histórico de St. George’s e o Sistema de Fortificações de St. George’s. A terceira tentativa é compartilhada com São Vicente e Granadinas: o próprio arquipélago das Granadinas.

DISTRITO HISTÓRICO DE SAINT GEORGE’S

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Saint George’s é tida como uma das mais bonitas capitais caribenhas em especial porque cresceu ao redor de uma pequena baía (Carenage) onde estão muitos prédios históricos (inconfundível estilo inglês georgiano), restaurantes, além claro do porto.

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Também ali se podem ver as consequências do devastador furacão Ivan, que em 2004 arrasou Granada, dizimando as plantações de noz-moscada e condenando boa parte dos imóveis da capital. Doze anos depois, St. George’s ainda não se recuperou totalmente e as igrejas são prova disto: a Igreja Presbiteriana de Saint Andrew está em ruínas (foto 1 abaixo), a Igreja Anglicana de São Jorge ainda está em reformas (foto 2 abaixo) e apenas a Catedral Católica da Imaculada Conceição foi inteiramente recuperada (foto 4 abaixo). O antigo parlamento (foto 3 abaixo) do país aparentemente está abandonado e me disseram que hoje os congressistas reúnem-se na região de Grand Anse.

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Perambular pelo Carenage é agradável, mas desbravar St. George’s envolve íngremes subidas e descidas. A cidade é bem pitoresca e, no geral, embora mais bonita que a média, tem a mesma atmosfera relaxada das capitais de micropaíses.

SISTEMA DE FORTIFICAÇÕES DE ST. GEORGE’S

Na foto logo abaixo, no alto, vê-se o Forte George, construído pelos franceses em 1705 e utilizado pelos ingleses para a defesa da cidade posteriormente. Eu não subi ao Forte George (na verdade, com o passar dos anos, o passeio a fortificações me interessa cada vez menos, exceto quando há uma vista incrível a partir deles). É o caso do Forte Frederik (nas duas fotos abaixo), que é o mais bem preservado da ilha e a partir de onde vê-se toda a capital St. George e até mesmo a praia de Grand Anse.

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A herança industrial de Barbados: a história do açúcar e do rum

A história de Barbados tem em comum com a história brasileira seu passado colonial açucareiro com emprego de mão-de-obra escrava vinda da África. A cana foi introduzida em Barbados por judeus que viviam no Brasil Holandês e que, com a retomada do território pelos portugueses, fugiram para outras partes da América como o Caribe e a Nova Inglaterra. Logo Barbados se tornaria uma potência na produção de açúcar.

Em razão disto, Barbados apresentou à UNESCO uma tentativa de Patrimônio da Humanidade na qual pretende inscrever na Lista dos PH lugares representativos do cultivo e manufatura do açúcar e outros produtos da cana-de-açúcar, em especial, o rum.

Fui a dois destes lugares: à Abadia de St. Nicholas e à sede da fábrica de rum Mount Gay.

A Abadia de St. Nicholas fica na Paróquia de St. Andrew e é, a despeito do nome, uma antiga sede de uma fazenda de cana-de-açúcar onde há o cultivo da planta e onde até hoje se fabrica rum. O lugar é lindo com uma bela casa colonial preservada, jardins tropicais, barris de rum e o alambique nas proximidades. É a versão britânico-caribenha da Casa Grande tão familiar a nós brasileiros. A maioria dos turistas vai com excursões à St. Nicholas’s Abbey, mas é perfeitamente possível chegar lá com os ZRs (táxis coletivos). De Bridgetown vai-se até Speightstown (sede da Paróquia de St. Peter) e, dali, um outro ZR em direção a Bathsheba, pedindo ao motorista para parar o mais próximo possível da Abadia (uma caminhada ainda será necessária). Cobra-se a pesada entrada de 20 dólares americanos (ou 40 dólares barbadianos), o que dá direito ao tour e a doses de rum e de rum punch.

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Nos arredores da capital Bridgetown está o Centro de Visitantes da Fábrica de Rum Mount Gay, lugar ideal para conhecer e provar esta bebida que é um dos símbolos de todo o Caribe e ainda hoje largamente consumida nestas ilhas e exportada. Na Mount Gay – fundada em 1703 – pode-se fazer degustação dos vários tipos de rum que são produzidos: desde o rum branco (perfeito para um mojito) até runs envelhecidos em barris de carvalho apreciados puros.

O rum é uma bebida alcoólica destilada produzida a partir da cana-de-açúcar (graduação média de 40º) assim como a cachaça. A diferença básica entre elas reside no fato de que a cachaça é feita a partir da fermentação do suco frio da cana (aquilo que chamamos de garapa), ao passo que o rum provém do melaço da cana (em inglês: molass), isto é, o caldo cozido da cana-de-açúcar.

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O Mount Gay é tido como um dos melhores runs do mundo e em Barbados pode ser adquirido a bom preço. Eu não gosto de rum puro, mas trouxe uma garrafa para tentar fazer alguns drinks à base de rum.

A Tentativa de Patrimônio da Humanidade d’A Herança Cultural de Barbados me pareceu mais interessante e com lugares mais divertidos que o próprio Patrimônio da Humanidade da parte histórica de Bridgetown.

Patrimônios da Humanidade e Tentativas de PH no Rio de Janeiro/RJ

A Paisagem Cultural do Rio de Janeiro é Patrimônio da Humanidade desde 2012. O que foi inscrito na Lista da UNESCO na cidade do Rio de Janeiro, ao contrário do que se pode imaginar, não é a cidade inteira, mas os pontos mais significativos de sua “paisagem cultural”, em especial, a adaptação urbana ao espaço natural do Rio de Janeiro, sua costa atlântica, suas montanhas e matas. Tanto que o nome oficial do PH é “Rio de Janeiro: Paisagens Cariocas entre as Montanhas e o Mar” .

O que está incluído como Patrimônio da Humanidade no Rio de Janeiro (também há componentes na cidade de Niterói) é:

1) A Floresta da Tijuca, a Serra dos Pretos-Forros e o Morro da Covanca, situados no Parque Nacional da Tijuca;

2) A Pedra Bonita e a Pedra da Gávea (Parque Nacional da Tijuca);

3) A Serra da Carioca (P. N. da Tijuca) e o Jardim Botânico;

4) Na chamada “Entrada da Baía da Guanabara”: o Aterro (Parque) do Flamengo; a Praia de Copacabana; o Pão-de-Açúcar e os Fortes Históricos de Niterói.

Para turismo, fui ao Rio em três ocasiões: em 1993, numa viagem com a família, quando pela primeira vez voei de avião; em 2004 e neste verão. Fui mais de uma vez ao Jardim Botânico, à Praia de Copacabana e ao Pão-de-Açúcar. Quanto ao Parque Nacional da Tijuca, desta vez fui até a chamada Vista Chinesa, mas não está claro se este ponto está incluído no PH. De qualquer forma, é uma delícia de passeio, em especial num dia claro.

Ocorre que, a despeito disto, o Brasil indicou 4 outros pontos na cidade visando sua inscrição, em separado, na Lista da UNESCO: estes 4 outros locais não se encontram abrangidos nos limites já inscritos e representam aspectos diferentes dos que pesaram em favor da inscrição do PH já existente.

As Tentativas de Inscrição existentes no Rio são, por ordem de indicação:

a) Igreja e Mosteiro de São Bento;

b) Palácio da Cultura, antiga sede do Ministério da Educação e Saúde;

c) Sítio Arqueológico do Cais do Valongo;

d) Sítio Roberto Burle Marx.

Estive nos dois primeiros em janeiro/2016.

O Mosteiro de São Bento, pelo que apurar, não é aberto à visitação, mas é possível ver a Igreja anexa ao mosteiro (dedicada a Nossa Senhora de Montserrat), que, embora não seja a mais impressionante do Rio – este título provavelmente deve ficar com a igreja de São Francisco da Penitência –, situa-se em um local aparentemente tranquilo da cidade e a partir do qual há uma vista muito boa da mais nova atração da cidade – o Museu do Amanhã.

Na proposta de inscrição, informa-se que no final do séc. XVI aqui neste local (Morro de São Bento) foi fundado o primeiro mosteiro beneditino, referência desta ordem eclesiástica no Brasil, com destacado papel na educação nos tempos do Brasil Colônia. A igreja atual é do séc. XVII, mas sofreu reformas e acréscimos no decorrer dos séculos.

Eu acredito que, embora seja inegável a importância dos beneditinos na história do Brasil, simbolizada pelo Mosteiro e Igreja de São Bento, esta tentativa de inscrição na Lista dos Patrimônios da Humanidade tem pouca chance de êxito.Falta-lhe, na minha opinião, o outstanding universal value que é o requisito primeiro para ser Patrimônio da Humanidade.

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O Palácio da Cultura, antiga sede do Ministério da Educação e Saúde é mais conhecido como o Edifício Capanema, situado bem no centro do Rio e é considerado por muitos como o marco da arquitetura moderna brasileira, pois na sua construção intervieram, ainda na década de 1940, nomes chaves da arquitetura brasileira do séc. XX, que depois expandiriam os seus projetos de arquitetura moderna por todo o país, culminando-se na cidade de Brasília.

Sob a supervisão de um dos mais importantes arquitetos dos tempos contemporâneos – Le Corbusier –, a equipe de por Lucio Costa, Carlos Leão, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcellos e Jorge Machado Moreira ergueu este edifício entre 1936 e 1945 – o prédio foi inagurado em 1947 –, para servir de Ministério na então capital do país.

A fachada hoje está em reforma (a foto abaixo é da wikipedia) e o prédio pode seguramente passar despercebido por quem anda pelo centro do Rio, mas deve-se compreender que, quando de sua construção causou enorme impacto em uma cidade habituada a prédios construídos até então apenas em estilo clássico, art déco ou art nouveau. Se hoje ele parece irrelevante, isto se deve exatamente pelo fato de que a sua proposta funcionalista se alastrou pelo Brasil ao ponto de serem incontáveis os imóveis construídos com base nos princípios corbuseanos que o inspiraram.

Vista norte do Edifício Gustavo Capanema.

No primeiro andar do edifício – que funciona hoje como a sede do Ministério da Cultura no Rio de Janeiro – há diversos trabalhos que remetem imediatamente a Brasília e a Belo Horizonte (Pampulha), que foram projetados com base nos mesmos princípios arquitetônicos e com a marca de Oscar Niemeyer.

Achei muito interessante a visita ao Edifício Capanema – que, de certa forma, é o embrião de um Patrimônio da Humanidade (Brasília) e de outra Tentativa de Patrimônio da Humanidade (Pampulha, Belo Horizonte). As chances de inscrição, porém, da mesma forma, me parecem remotas.

Na minha próxima ida ao Rio de Janeiro, quero ir ao Sítio Burle Marx e ao Cais do Valongo.

Tentativas de Patrimônio da Humanidade em Belém, Pará

Desde a atualização da Lista de Tentativas de Patrimônios da Humanidade do Brasil, o Pará passou a contar com duas tentativas de inscrição na Lista da UNESCO, ambas localizadas na capital e muito fáceis de serem visitadas.

A que eu acho que tem mais chances de dar certo é a chamada Teatros Amazônicos, que engloba o Teatro da Paz, na capital paraense junto com o Teatro Amazonas, em Manaus. Falei sobre ele aqui quando lá estive em fev/2013.

Da primeira vez que fui a Belém apenas vi de relance o Teatro da Paz e desta vez fiz muita questão de conhecê-lo bem. Fui o primeiro e único visitante para o passeio guiado que ocorre, de hora em hora, a partir das 9 da manhã. Há muitas semelhanças com o Teatro Amazônico – o que justifica a indicação conjunta à UNESCO – e achei o Teatro da Paz, no conjunto, mais bonito que o Teatro Amazônico, talvez pelo estilo neoclássico menos mesclado que o amazonense. Sua inspiração é o Teatro Scala, de Milão. 

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O Teatro da Paz foi inaugurado em 1878 e deve seu nome ao fim do conflito da Guerra do Paraguai, ocorrido em 1870. Boa parte de sua decoração veio da Europa: lustre e estátuas de bronze da França, piso português e mármore italiano. Oscilou períodos de glória e de abandono, mas está reformado e muito ativo: no dia em que fui havia uma fila enorme de pessoas aguardando para retirar ingressos para um espetáculo.

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Os Teatros Amazônicos são o testemunho de uma era, a da borracha, do esplendor e da decadência que se seguiu. Foram a tentativa de recriar, nos trópicos, o luxo e a cultura que só conheciam por parâmetro as capitais europeias, havendo uma concessão ou outra ao Novo Mundo, como araras e índigenas pintados no teto. 

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O outro lugar que se pretende Patrimônio da Humanidade é o Mercado Ver-o-Pes0, que, de acordo com o dossiê encaminhado pelo Brasil à UNESCO, sintetiza, de maneira única, a cultura da região amazônica em suas práticas culturais e sua relação com o Rio Amazonas, que é meio de transporte, fonte de alimentos e de lazer. O Brasil ressalta que o mercado remonta ao séc. XVII e que, desde então, vem abastecendo a capital paraense com alimentos, artesanatos, remédios tradicionais, superstições e mitos da Amazônia.

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O Mercado, que tem este azul inconfundível, se situa à beira-rio e ao lado da Estação das Docas. Dentro do mercado, o forte são as bancas de peixes e mariscos, mas há de tudo no entorno do mercado, como sucos e frutas amazônicas, temperos dos mais exóticos, etc. Dizem ser um local inseguro mas eu circulei tranquilamente com minha câmera e não fui incomodado por ninguém. Não sou um grande fã de mercados – a exceção é o Mercado Nishiki em Kyoto, Japão – e minha segunda ida ao Mercado Ver-o-Peso teve por objetivo maior ver a estrutura de ferro do séc. XIX, trazida da Europa – percebam que também ele é resultado da Era da Borracha.

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Moendo as folhas de mandioca, usadas para a preparação da maniçoba:

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Mas, como já disse aqui, o que eu gosto mesmo em Belém é da Estação das Docas, onde invariavelmente eu peço dois tacacás (eu gosto tanto que um só não me satisfaz) e também do extenso cardápio de pratos amazônicos, sorvetes de frutas amazônicas e até cervejas com um toque amazônico que servem ali. Já comentei sobre a culinária paraense no blog, aqui.