Algumas peculiaridades e dicas sobre Cuba

ACESSO A PARTIR DOS ESTADOS UNIDOS

Com o restabelecimento de relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba, a partir de meados de 2016, foram retomados os voos diretos entre os dois países, algo que deixou de existir por décadas, em razão do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos. Até então, os cidadãos norte-americanos estavam sujeitos a penalidades caso fossem a Cuba (embora, na prática, estas penalidades raramente fossem aplicadas). De qualquer forma, era necessário ir ao Canadá ou ao México para dali tomar voos em direção a Cuba.

O turismo não é nenhuma novidade em Cuba – canadenses, europeus e latinoamericanos têm visitado o país, em especial após o implemento, ainda na época de Fidel Castro, de medidas visando justamente atrair turistas – e seus dólares. A novidade é que agora visita-se Cuba diretamente desde os Estados Unidos. Embarquei num destes voos.

Ao menos no Aeroporto John F. Kennedy (JFK) em Nova York, o check-in para voos a Cuba é feito em um lugar específico. Ali vendem-se os vistos de entrada no país (50 dólares) e o viajante preenche um formulário esclarecendo os motivos da visita a Cuba. Ou seja, embora seja absolutamente lícito ir a Cuba, ainda há idiossincrasias na relação entre os dois países, o que sujeita os americanos (e os que estão em solo americano) a regras especiais. O visto para quem parte de aeroportos em outros países custa menos e não há que se justificar nada. 

MOEDA EM CUBA

Uma vez no Aeroporto de Havana (HAV), a primeira missão é conseguir pesos conversibles, também chamados de CUC, para pagar o táxi (não há transporte público do aeroporto para o centro da cidade). Ao contrário do que ocorre em todos os outros países do Caribe, os dólares norte-americanos (USD) não são moeda corrente em Cuba – pior, sofrem uma taxação específica de 10% em todos as transações cambiais. O CUC é atrelado ao USD, porém. 1 CUC vale 1 USD, mas se for trocar 1 USD por CUC, consegue-se, no máximo, 90 centavos de CUC.

O CUC foi criado em 1994, já no contexto das medidas do governo cubano visando atrair turistas após o colapso da União Soviética, sua grande parceira comercial até 1990. Ele convive com o  peso cubano (CUP), que vale 25 vezes menos que o CUC, mas é a moeda com a qual são pagos os funcionários públicos de Cuba e é a mais corrente no dia-a-dia dos cubanos não ligados ao setor turístico.

Para trocar em miúdos: o CUC é a moeda dos turistas, até porque o CUC é o “dólar”, só que travestido de peso conversible; ao passo que o CUP é a moeda de sempre dos cubanos. As duas moedas convivem harmonicamente, porém, e nada impede que turistas usem CUP e cubanos usem o CUC.

Para o turista, levar moedas fortes que não o dólar (especialmente euro ou libra esterlina) é mais negócio, pois foge-se da taxa de 10% que incide apenas sobre o USD. Eu suponho que esta medida teve o objetivo de desestimular a circulação do papel moeda americano em Cuba, pois isto faria um estrago e tanto no discurso “anti-imperialista” do regime cubano. Funcionou bem. Umas das curiosidades tanto do CUP quanto do CUC é a existência de uma cédula de 3 pesos!

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O câmbio é feito nos bancos ou nas CADECA (casas de câmbio) e o passaporte será sempre exigido. É bom preparar-se para filas.

O uso de cartão de crédito é bastante menos disseminado que no resto do mundo, cobra-se comissão de 3% sobre as transações e cartões de crédito norte-americanos tendem a não funcionar lá. Ou seja, Cuba é um cash country.

SEGURANÇA

Uma das coisas que eu mais apreciei em Cuba foi a sensação de segurança que se tem, mesmo em Havana. Cidades com o mesmo porte na América Latina requerem, quase sempre, mais cuidado por parte dos visitantes. Em Havana eu me senti completamente seguro, a qualquer hora do dia e da noite e em qualquer parte da cidade (ao menos nas partes de interesse dos turistas). Pode ser que não seja sempre assim, mas minha experiência foi esta.

ACESSO À INTERNET

Este é um inconveniente. O Estado Cubano, por meio da agência ETECSA, tem o monopólio do serviço de acesso à internet no país, a rede é censurada e, pelo que li, é ilegal ter internet em casa. Em janeiro de 2017, em Havana, as coisas funcionaram assim comigo: para conseguir acesso, é necessário entrar na fila (e esta fila pode ser gigantesca) na ETECSA (situada na turística Calle Obispo), comprar um cartão, raspá-lo e, depois, dirigir-se a algum dos pontos de wi-fi na cidade (há na Praça de Armas e também em Vedado) e ali conectar-se, junto com um monte de gente, do lado de fora dos prédios. A conexão é lenta. É como voltar 20 anos no tempo.

Outra opção, mais prática me pareceu – mas talvez mais cara – é ir a um grande hotel e comprar ali mesmo um cartão e ali mesmo usar o wi-fi. No Hotel Sevilla o cartão de 1 hora era vendido por 4,50 CUC. Como tempo é que há de mais precioso em uma viagem, eu sugiro fazer isto.

HOSPEDAGEM

O sistema de acomodação que hoje conhecemos pelo Airbnb já era praticado há muito tempo em Cuba: ser hospedado em casas particulares é algo corrente no país e representa o ganha-pão de significativa porção de famílias. Em lugares como Viñales, eu fiquei com a impressão de que todas as casas da cidade disponibilizavam quartos para visitantes.

O Airbnb (que é uma empresa norte-americana) apenas começou a atuar no país recentemente e, pelo que pude ver, oferece as mesmas casas mas a um custo maior. Eu, como decidi a viagem de última hora, acabei pagando o preço do Airbnb, mas talvez tivesse pagado menos acaso tivesse buscado sites próprios de hospedagem domiciliar em Cuba. O Airbnb, pelo menos, é um intermediário que pode ajudar – e ser responsabilizado – em casos de problemas.

Minha experiência em Cuba (foi a terceira vez que me hospedo via Airbnb) foi menos marcante que na Guiana Francesa e no Líbano. Os anfitriões me consideravam apenas um ocupante do quarto, nada de conversa, nada de amenidades. O quarto, porém, tinha o que eu mais exijo: era imaculadamente limpo, tinha ar condicionado potente e banheiro renovado. Ok, então.

DESLOCAMENTOS EM HAVANA

Minha viagem a Cuba teve por foco apenas Havana. As praias não me interessavam muito e eu não tive tempo (embora tenha interesse para uma segunda viagem) de ir rumo ao leste do país. Então apenas posso falar de Havana. Dica: andar à pé. Havana é uma delícia para se caminhar, em especial no Centro Histórico. A cidade é toda plana e a caminhada permite ver os detalhes da arquitetura e da vida na cidade – é o mais interessante.

Claro, há os táxis, alguns carros novos, outros estilosos modelos americanos da década de 1950– mas ultrapoluentes! – e os Lada caindo aos pedaços. Há uma forte tendência de o turista ser explorado pelos taxistas (cobram, por exemplo, inaceitáveis 5 CUC por uma viagem entre o Centro Histórico e o Vedado), então eu só tomei táxis em Havana quando isto foi absolutamente necessário.

Sem contar que a cidade é à beira-mar e tem um calçadão ótimo (El Malecón) que vai desde o Centro Histórico até o moderno bairro de Vedado.

A partir de Havana é possível fazer day trips e os mais comuns são para o oeste (Viñales) e para a praia de Varadero (a leste). Também existe a possibilidade de ir a Cayo Largo del Sur – uma paradisíaca ilha ao sul da ilha de Cuba –, mas é um passeio caro e sem sentido para se fazer em um dia (envolve ida e volta de avião).

O passeio para Viñales pode ser contratado em agências no Vedado (como a Cubatur). Custa por volta de 65 CUC e inclui almoço. É um tour daqueles bem plastificados, mas permite dar uma olhada na região produtora de tabaco. O ideal é ir e ficar lá uns dias, mas o daytrip permite ter uma noção do lugar.

ALIMENTAÇÃO

Cuba sofre com desabastecimento de produtos básicos, basta ir a um supermercado no país para ficar de boca aberta com as prateleiras vazias. Isto se reflete nos restaurantes do país: há pouca variedade e as opções costumam ser muito abaixo do que se espera. O corrente é engolir fast food ruim. Há algumas padarias (na Calle Obispo tem uma boa) que quebram o galho e alguns restaurantes com bom preço e comida razoável (na própria Obispo eu me salvava no restaurante La Caribeña), mas não esperem experiências gastronômicas em Cuba, o que é uma pena. Até mesmo os drinks típicos do país (mojito, daiquirí, etc.) tendem a ser mais bem feitos em São Paulo ou Nova York do que em Havana…

NO GERAL, Cuba é fascinante. Tendo já conhecido boa parte da América, eu me surpreendi positivamente com Cuba e suas peculiaridades. A hospitalidade latina é bem sentida e a viagem a Cuba trouxe, para mim, aquela sensação de estar presenciando o desenrolar da História, com os avanços e retrocessos, concessões e restrições de um país que optou por um caminho singular no Hemisfério Ocidental. Normalmente, eu viajo para conhecer um país e não mais voltar (o mundo, ao contrário do que dizem, é grande e todo ele me interessa), mas a experiência em Cuba foi tão marcante, que eu toparia voltar.

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