Anjar–PH n.º 204

O primeiro Patrimônio da Humanidade que visitei em minha viagem ao Líbano foi Anjar (árabe: عنجر), isto é, as ruínas de Anjar, que ficam próximas a um povoado de mesmo nome, habitado por armênios que se estabeleceram neste ponto do Vale do Bekaa na época da diáspora armênia (início do séc. XX).

Fui até Anjar com uma excursão da empresa turística Nakhal, muito conceituada no Líbano, passando no mesmo dia por Baalbeck e pela vinícola Ksara. Embora eu não goste de excursões de maneira geral, as que eu fiz com a Nakhal foram adequadas porque me levaram a pontos cujo acesso não é muito fácil no Líbano com transporte público e também porque o almoço incluído – tipicamente libanês – foi maravilhoso em todas as vezes. Alcança-se Anjar, a partir de Beirute, pela rodovia que vai até Damasco, na Síria. Anjar está a pouquíssimos quilômetros da fronteira síria, que apenas não é vista em razão das Montanhas do Antilíbano.

Os sítios arqueológicos mais conhecidos do Líbano apresentam diversas camadas das várias civilizações que passaram pelo país (fenícios, gregos, romanos, bizantinos, os diversos califados árabes, mamelucos, seljúcidas e otomanos). Anjar é uma exceção. Anjar está ligada a apenas um período histórico do Líbano: a conquista muçulmana, ocorrida na época do Califado Omíada.

É necessário saber que após a morte do Profeta Maomé, em 632, dada a inexistência de herdeiros homens, houve disputas envolvendo a sucessão daquele que deveria ser o líder da recém-fundada religião islâmica. As disputas pela sucessão legítima de Maomé são a raiz da divisão entre os dois principais ramos do Islã (sunismo e xiismo).

Aqueles que conseguiram o reconhecimento como sucessores do Profeta eram chamados de califas. O quinto califa, Mu’awiyah, transferiu a capital dos árabes de Medina para Damasco e fundou a Dinastia dos Omíadas (660-750), que, embora de curta duração, deu prosseguimento à veloz expansão do Islã e construiu jóias da arquitetura islâmica como o Domo do Rochedo em Jerusalém e a Mesquita Omíada em Damasco.

Anjar também foi construída pelos Omíadas para servir como um ponto de passagem e apoio na rota entre Damasco (a capital omíada), os portos do litoral libanês e as cidades sagradas dos muçulmanos (Meca, Medina e Jerusalém).

Os omíadas lançaram mão da experiência bizantina para projetar e construir Anjar, de modo que o plano e os monumentos da cidade são marcadamente romanos, com as avenidas cardo maximus e decumanus maximus cruzando a cidade em direção aos quatro pontos cardeais. A cidade tinha forte vocação comercial – mais de 600 “lojas” foram descobertas –, e ali havia banhos termais (árabe: hamman) e mesquitas, além do palácio utilizado pelos governantes omíadas quanto de passo pela cidade.

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As ruínas de Anjar são interessantes (embora não sejam espetaculares) e é necessária a orientação de um guia para se compreender os diversos pontos do sítio arqueológico, descoberto, por acidente, em 1940. O que mais me chamou a atenção em Anjar foi a sua própria localização: no incrível vale do Bekaa, espremido entre duas cadeias de montanhas paralelas, o Monte Líbano e as Montanhas do Antilíbano, irrigado pelo degelo que desce destes montes e repleto de plantações dos mais diferentes produtos, famosos por seu sabor e qualidade.

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