República Libanesa–2016

Em fev/2015 houve uma promoção aérea incrível para o Líbano pela Ethiopian Airlines mas eu fiquei bastante receoso de visitar este país asiático em razão da Guerra Civil na vizinha Síria – Beirute fica a meros 110 km de Damasco. À época, avaliei que era considerável o risco de que o conflito sírio se espalhasse pelo Líbano, em especial porque o Hezbollah (importante força político-paramilitar no Líbano, de viés xiita) é antagonista dos terroristas do Estado Islâmico (sunitas), que atuam na Síria e no Iraque. Ao invés do Líbano, fui para a Nicarágua. Em 2016, as notícias são menos preocupantes, de modo que comprei a passagem a Beirute também pela Ethiopian Airlines (o vôo faz escala em Lomé, no Togo, e conexão em Addis Abeba, na Etiópia), desta vez bem mais cara, mas estou confiante de que vai dar tudo certo. No total, são 19 horas de voo entre São Paulo e Beirute.

Morando em São Paulo, é fácil perceber influências do País dos Cedros, que tantos imigrantes mandou para o Brasil, com importantes marcas na culinária (kibe, esfiha, tabule, “beirute”(!) etc., consumidos em larga escala no Brasil, têm inspiração libanesa), igrejas (Catedral Ortodoxa de São Paulo, Igreja Nossa Senhora do Líbano, etc.) e na política. A rede fast food Habib’s de comida libanesa (adaptada) compete com o Mc Donald’s e é provável que nem mesmo no Líbano haja algo assim. Os descendentes de libaneses são muitos entre os políticos brasileiros: o Prefeito de São Paulo (Fernando Haddad), o Governador de São Paulo (Geraldo Alckmin) e o Presidente do Brasil (Michel Temer) são descendentes de libaneses. Estima-se que sejam 8 milhões os descendentes de libaneses no Brasil – o dobro da população do próprio Líbano. O Brasil é o país mais importante da diáspora libanesa.

Há alguns anos fui a uma exposição em SP sobre a viagem que D. Pedro II (de quem sou muito fã) fez ao Líbano e comentei aqui no blog.

O Líbano (nome oficial República Libanesa; em árabe: الجمهورية اللبنانية‎‎ pron. al-Jumhūrīyah al-Lubnānīyah) é um pequeno notável: tem apenas algo em torno de 10 mil km² (ou seja, tem a metade do tamanho de Sergipe ou o dobro do tamanho do Distrito Federal). Apesar disto, tem notáveis contrastes geográficos, com litoral mediterrâneo, cadeias de montanhas (Monte Líbano e o Antilíbano), regiões verdejantes (onde se produzem conceituados vinhos), praias, estações de esqui (incrivelmente próximas, o que permite, em determinadas épocas, um banho de mar pela manhã e a prática do esqui à tarde)… E isto sem falar no patrimônio cultural libanês que é impressionante: ali estão cidades fundadas pelos fenícios, ruínas romanas e bizantinas, seguidas da influência árabe, otomana e, por último, francesa.

A história do Líbano é uma montanha-russa de eventos gloriosos e acontecimentos trágicos, tendo o país em sua história sido “reconstruído” diversas vezes, inclusive na última década do séc. XX (com o fim da Guerra Civil Libanesa) e após 2006, finda a Guerra com Israel.

Os libaneses são árabes: a língua do país é o árabe, embora o francês seja largamente falado (herança da presença francesa no país entre o final do séc. XIX e início do séc. XX), assim como o inglês. A moeda do Líbano é a libra libanesa, que tem cotação fixa com o dólar americano (1 US$ = 1.507,50 libras libanesas). A moeda americana é bastante utilizada no país.

O Líbano tem uma enorme população em diáspora, o que faz com que as famílias no país, invariavelmente, tenham parentes próximos ou distantes morando no exterior.

No contexto do mundo árabe, o Líbano difere-se por causa de sua população cristã (algo em torno de 40%, mas o cristãos foram ao menos até o início da Guerra Civil a maioria da população). O principal grupo cristão no Líbano são os maronitas (seguidores de São Maroun), com ritos e Patriarca próprios, mas em comunhão com Roma desde a época dos cruzados. Os maronitas resistiram à avassaladora incursão islâmica nos séc. VII e VIII, que converteu praticamente todo o Oriente Médio ao Islã, mas sua (forte) presença no Líbano ao longo da História não os impediu de emigrar em massa, em especial no séc. XX – os libaneses do Brasil são, em sua esmagadora maioria, maronitas. Há também ortodoxos gregos e ortodoxos armênios no Líbano, além de diversas outras igrejas.

Os libaneses muçulmanos também têm grande variedade no Líbano: em torno de 27% são xiitas e 27% são sunitas, além de uma importante minoria drusa (5%). Vendo o mapa do Líbano é possível perceber que os diversos grupos religiosos têm concentrações próprias: os cristãos (vermelho e amarelo) concentram-se no litoral e na região do Monte Líbano (cadeia montanhosa próxima do litoral), ao passo que os xiitas (roxo) ocupam primordialmente o Vale do Beqaa (reduto do Hezbollah) e o sul, na fronteira com Israel, ao passo que os sunitas (verde) estão primordialmente no norte. Os drusos (azul) destacam-se na região do Chouf e na fronteira sul com a Síria.

Esta diversidade religiosa do Líbano – que é única, repito, no Mundo Árabe –, causou impacto na política: o Líbano adota um sistema político-confessional, isto é, o Parlamento é loteado entre os diversos grupos religiosos, mantendo-se o equilíbrio de 1/2 para os cristãos e 1/2 para os muçulmanos. Ainda em razão do confessionalismo, o Presidente do Líbano precisa ser cristão maronita; o Primeir0-Ministro precisa ser muçulmano sunita; o Speaker of the Parliament (uma espécie de Presidente do Parlamento) deve ser muçulmanos xiita e há cargos específicos para cristãos ortodoxos e drusos.

O Líbano é dividido em 6 “governadorias” (em árabe: محافظات, pron. mohaafazaat): Beirute, Norte, Sul, Beqaa, Nabatyeh e Monte Líbano.

As atrações turísticas do Líbano são imensas e provavelmente eu vou ficar sem conseguir visitar alguns lugares que eu desejaria visitar se tivesse mais tempo.

Os Patrimônios da Humanidade são cinco: i) Byblos (em árabe,  جبيل‎‎, Jbeil), uma das cidades mais antigas do mundo continuamente habitadas, situada no Monte Líbano; ii) Tiro (em árabe, صور, Sur), cidade também milenar e citada diversas vezes na Bíblia; iii) as ruínas romanas de Baalbeck, com o impressionante Templo de Júpiter, em Beqaa; iv) Aanjar, com ruínas que remontam à época da conquista árabe do Líbano, pelo Califado Umíada, também em Beqaa e v) o Vale de Qadisha (entre as cadeias de montanhas do Monte Líbano e do Antilíbano) e as reservas dos Cedros do Líbano (também chamados de Cedros de Deus, pois citados mais de 70 vezes na Bíblia), no Norte do Líbano.

As Tentativas de Patrimônios da Humanidade são igualmente interessantes (há 9) e eu tenho predileção por visitar as cidades de Sidon ou Sidônia (em árabe, صيدا, Saydā); Trípoli (árabe: طرابلس‎‎ ,Ṭrāblos) e a região do Chouf, onde se situam cidades drusas. Também quero ir à Gruta de Jeita (também TPH) e à cidade de Jounieh, no Monte Líbano.

Ou seja: vários países muito maiores que o Líbano nem de longe têm a mesma quantidade de coisas interessantes para se ver e se vivenciar.

Dado o tamanho do Líbano, é perfeitamente possível ficar o tempo todo hospedado em Beirute e fazer passeios de ida-e-volta para os quatro cantos do país (quer dizer, devem-se evitar as cidades fronteiriças com a Síria e com Israel, por razões de segurança). Poucos pontos do país ficam a muito mais de 100 km da capital. O entrave maior é o trânsito: Beirute é conhecida por congestionamentos horrorosos. Dentro de Beirute, optei por ficar em uma região que logisticamente me pareceu a melhor, o bairro de Acrafieh, de maioria cristã maronita.

O Líbano é o país n.º 78 que visito (pelos meus critérios) e n.º 64 se considerados apenas os 193 membros das Nações Unidas. Com o país n.º 64 eu atingi a marca de 1/3 dos países do mundo visitados.

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