Ilha da União, São Vicente e Granadinas

No excêntrico mundo dos viajantes obsessivos há uma tendência de se valorizar a entrada em novos países por meio não-aéreo. O alemão Sacha Grabow (www.greatestglobetrotters.com) chega a dar um “ponto” a mais a quem evita o avião para conhecer um novo país. Recentemente, um inglês conseguiu visitar todos os países do mundo sem usar avião (Graham Hughes).

Aviões são formidáveis, mas aeroportos e seus procedimentos costumam ser mesmo enjoados e no Caribe isto se acentua com o quase monopólio da LIAT, companhia aérea sediada em Antígua e Barbuda, cujos aviões pulam de ilha em ilha todos os dias na região. A LIAT tem uma fama muito ruim e seu apelido é Leave Island Any Time, o que, infelizmente, é verdade. Meu voo de Barbados para Granada atrasou uma hora e meu voo de São Vicente para Barbados atrasou quase quatro horas. Exceto se a bordo de um navio de cruzeiros, quem quer que vá explorar o Caribe terá que encarar a LIAT em algum momento. 

Tudo isto considerado, eu planejei esta viagem de modo a que eu pudesse atravessar de Granada para São Vicente e Granadinas por barco, evitando uma viagem de avião e aproveitando para visitar várias pequenas ilhas. A ideia parecia boa: de Carriacou (GD) até a Ilha da União (SVG) bastam uns 45 minutos para a travessia entre as ilhas que podem ser vistas uma a partir da outra.

As informações na internet sobre esta travessia eram muito escassas e eu preferi combinar com um barqueiro que, aparentemente, era o único que fazia o trajeto de forma legalizada (ao menos é o único mencionado no site oficial de turismo do Governo de São Vicente e Granadinas). Mal eu sabia o que me aguardava.

Troy é o nome do “capitão” e esta é sua “nau”:

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Troy é um dos caras mais enrolados que deve existir em todo o Caribe. Seu horário de saída tinha uma elasticidade de várias horas – o que para meu desgosto me fez perder boa parte de um dia das férias –, mas ao menos ele tomou todas as precauções burocráticas: saí legalmente de Granada após passar no escritório da imigração em Hillsborough e entrei legalmente em São Vicente e Granadinas pois ele leva até o aeroporto em Union Island onde se recebe o carimbo de entrada no país.

Apesar do meu aborrecimento, evitei estar ilegal em São Vicente e Granadinas, o que poderia complicar meu embarque no aeroporto de Kingstown para a volta a Barbados. Atravessar fronteiras dos pequenos países do Caribe, ao contrário do que se pode supor, não é simples, eles exigem as mesmas formalidades dos grandes países do mundo (ou até mais).

Olhando em retrospectiva, hoje acho graça de tudo. Um dos “tripulantes” aproveitava a viagem para pescar na maior tranquilidade do mundo e até que teve sucesso:

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Assim eu cheguei – por mar – a São Vicente e Granadinas, o 23.º país menos visitado do mundo segundo um outro viajante famoso (o norueguês Gunnar Garfors, que foi a pessoa mais jovem a visitar todos os 193 países da ONU, com menos de 38 anos). Garfors em seu blog tem a lista dos 25 países menos visitados do mundo com base em dados fornecidos pela Organização Mundial do Turismo: http://www.garfors.com/2015/07/the-25-least-visited-countries-in-whole.html.

Em 2012 apenas 71 mil pessoas visitaram SVG, mesmo sendo um país pacífico, que se situa no Caribe, de língua inglesa e repleto de praias e atrativos naturais. O grande senão de SVG é a falta de um aeroporto internacional decente, o que impede pousos de voos transcontinentais, problema também enfrentado por Dominica. O novo aeroporto de SVG – que está quase pronto pelo que vi – mudará radicalmente este cenário e SVG passará longe desta lista em pouco tempo.

Por enquanto, SVG continua este país que se pode acessar com um precário barquinho onde sacos de batata, galões de gasolina e grades de refrigerante disputam espaço com os passageiros do capitão Troy. Coletes salva-vidas? Pfff… nem sinal. Hoje eu acho graça, mas no dia eu estava furioso!

A Ilha da União é a ponta sul das Granadinas de SVG. A ilha é notoriamente mais pobre que todas as demais ilhas do Caribe que já visitei até hoje, mas deve encantar quem esteja em busca de um Caribe “autêntico”, pouco tocado pelo turismo. A vista do hotel onde fiquei hospedado em Clifton foi a melhor coisa que me aconteceu neste dia, mas eu seria injusto se eu dissesse que minha visita a SVG foi ruim. As coisas começaram a melhorar no dia seguinte.

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