O “alfabeto” tailandês

Durante meses eu tentei decifrar o alfabeto tailandês. Para mim é um grande barato descobrir que som faz uma determinada letra e como estas letras se combinam para formar sons de palavras (mesmo que eu não entenda o significado da palavra). Se isto iria ajudar ou não na Tailândia, era algo que eu estava pagando para ver.

Já no meu primeiro dia em Chiang Mai, perdido, consegui entender que o wat (templo) onde eu estava não era o wat que eu procurava lendo a placa em tailandês na entrada. Neste mesmo dia, dentro de um outro templo, tornei-me o centro das atenções de um grupo de monges budistas que me viram tentando ler umas coisas escritas em tailandês. Em Nakhon Si Thammarat consegui pegar o ônibus certo apenas lendo a placa กระบี่ e volta e meia algum tailandês puxava assunto comigo espantado por ver um farang (estrangeiro) lendo estas letras. 

É bom que se diga que, a rigor, a escrita tailandesa não é um alfabeto. Nas escritas fonéticas (isto é, quando um símbolo representa um som) o alfabeto é a escrita na qual consoantes e vogais têm o mesmo status e são símbolos autônomos. É o caso do alfabeto latino, do cirílico, do grego, do georgiano, armênio, etc.

Ocorre que também há escritas fonéticas em que as vogais são omitidas ou são opcionais ou é de se presumir o som vocálico a partir da leitura da consoante. A isto se chama um abjad e é o sistema, por exemplo, do árabe e do hebraico. No caso do hebraico, até há símbolos que representam as vogais, mas elas são usadas apenas por crianças (niqqud). Com o tempo, espera-se que o leitor da língua hebraica consiga ler as palavras sem a maioria das vogais. A palavra “SEFER” (livro, em hebraico) é escrita assim: ספר, isto é “SFR” (lembrando que o hebraico escreve-se da direita para a esquerda), cabendo ao leitor presumir as vogais entre as consoantes. Isto é um abjad e não um alfabeto.

Há ainda a escrita silabárica, na qual um símbolo tem o som não de um fonema mas de uma sílaba (compreendida enquanto uma consoante + uma vogal). Os dois “alfabetos” fonéticos da língua japonesa (há, ainda, a escrita logográfica ou pictográfica, na qual os símbolos transmitem “ideias” e não necessariamente sons), hiragana e katakana são silabários: portanto para escrever “kimono” usam-se três símbolos: ki + mo + no (きもの). Acaso as sílabas fossem ka + ma + na, seriam usados símbolos completamente diferentes.

Por fim, e aqui se enquadra o tailandês, há a escrita abugida. Nela, o elemento principal é a consoante e as vogais vão sendo acopladas de forma secundária às consoantes. Às vezes, em uma abugida, as vogais acabam sendo omitidas também. São abugidas, além da escrita tailandesa, os diversos alfabetos brâmicos (usados nas línguas da Índia), a escrita amárica (usada na Etiópia) e o coreano.

Portanto, a primeira coisa a se aprender no tailandês são as consoantes. Elas são 44, muito além do necessário para os sons consonantais do tailandês (isto tem uma razão histórica) e isto faz com que, por exemplo, haja nada menos que 6 letras para representar o som “t” aspirado (‘th’, como em time do inglês e não como o ‘t’ de tempo em português): ฑ, ฒ, ฐ, ท, ถ e ธ.

Também há 4 letras para o som “s” (como em sapato) e 5 para o “kh” (o som “k” aspirado como em can do inglês), etc.

Daí que chega-se à primeira e óbvia conclusão: na melhor das hipóteses, alguém que estude apenas a escrita tailandesa e não a língua tailandesa jamais conseguirá ter competência ativa para escrever corretamente palavras em tailandês. Isto porque não é possível saber qual letra escolher para representar o som, pois são plurais as possibilidades. O máximo que se pode almejar, estudando apenas o alfabeto, é a aptidão passiva para ler a abugida tailandesa: Isto é, ao ver ทะ eu sei que o som será “tha”, mas se me pedirem para escrever uma palavra cujo som seja “tha”, eu tenho apenas uma chance em seis de acertar…

Portanto, para se conseguir apenas esta competência passiva, o ideal é agrupar as letras que fazem o mesmo som e estudá-las em conjunto. Assim, aprender que o som de “l” pode ser obtido pelas letrase , ao passo que o som de “h” (aspirado, como em inglês) é representado porou, etc.

As vogais… bem, as vogais são 28 e dividem-se entre as longas e as curtas: é o som “a” alongado e é o som “a” curto. As vogais jamais podem ser escritas como eu fiz aqui, isoladas. Tratando-se de uma abugida, elas precisam estar conectadas a uma consoante.

Algo estarrecedor no tailandês é que as vogais podem vir depois da consoante, embaixo da consoante, em cima da consoante, na frente na consoante (!) ou gravitar em torno da consoante (mais de um símbolo vocálico para produzir um único som vocálico). A própria palavra: THAI escreve-se ไทย, isto é, AI-T-I, sendo que a vogal (ditongo) “ai” vem na frente da consoante “th” à qual é acoplada. É árduo aprender as vogais em tailandês porque, por exemplo, é necessário combinar vários símbolos vocálicos para formar um único som. Eu aprendi apenas os mais fáceis e úteis como o som “a” que pode vir em cima ou na frente, o som “e” que vem antes da consoante, o som “i” que normalmente vai em cima, o som “o” que pode vir antes, depois (ou nem vir) e o som “u” que vai embaixo da consoante.

Tudo isto que eu já disse não é nem o início da dificuldade da abugida tailandesa: as consoantes podem mudar de sons dependendo de sua localização, na palavra: exemplo, o “r” vira “n” se vier escrito na final da palavra, etc. Além disto, o tailandês é uma língua tonal e há sinais (diacríticos) indicativos do tom que aquela sílaba deve ter: ascendente, descendente, etc. Errar o tom significa não se fazer compreender, simples assim.

Mais ainda, vários sons da língua tailandesa não correspondem exatamente aos sons que, tipicamente (ao menos nas línguas da Europa Ocidental) são representados pelo alfabeto latino: assim pode ser “g” ou “k”, mas a bem da verdade é um som entre “g” e “k”… E como se não bastasse, os tailandeses não são lá muito propensos as separar as palavras, isto é, é comum escrevertudojuntoassimdessejeito.

Há quem considere que a abugida tailandesa é o mais complexo sistema escrito fonético do mundo (não há termo de comparação, porém, com o sistema logográfico), ao passo que a escrita coreana é considerada a mais fácil (eu tenho a tendência a concordar com isto, o “alfabeto” coreano é tão fácil que pode ser aprendido em algumas horas).

Não é minha intenção aqui “ensinar” a escrita tailandesa, até porque eu mal a conheço. Mas, uma vez obtida a tábua com as consoantes e as vogais do tailandês, é possível com algum esforço ir compreendendo e memorizando os sons que fazem, de tal modo que, eu garanto!, vai-se conseguir ler alguma coisa na Tailândia e a sensação de “conquista” valerá todo o esforço.

Por exemplo, eu queria visitar um templo em Ayutthaya e acabei chegando lá “entendendo” os sons desta placa abaixo: Luang Pho Lokayasutha (Phranan). O que significa isto eu não faço a menor ideia: mas cheguei ao Wat Lokayasutharam…

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Não que seja fundamental aprender o alfabeto tailandês para “se virar” na Tailândia. Longe disto. Mas saber, ainda que rudimentos, do alfabeto tailandês aumenta a qualidade da viagem à Tailândia.

Se alguém tiver o mesmo interesse que eu tive, minha sugestão é: para começar assistir a alguns tutoriais no YouTube e, para treinar, pode-se acompanhar as legendas de videoclips de músicas em tailandês, em especial, as “sad songs” (cantadas de forma mais devagar) que os tailandeses tanto amam…

https://www.youtube.com/watch?v=NbWe8rHvAlQ

É impossível não valer a pena aprender mais um alfabeto, mesmo que seja por hobby.

20 respostas para “O “alfabeto” tailandês”

    1. อาลดรีน สีลบะ บีเอิรา deveria soar como o seu nome. O som “v” não existe em tailandês. Substituí pelo som de “b”, mas você poderia optar também pelo som de “w” com a letra ว.

  1. Gostaria de uma informação interessante.
    Estou estudando tailandes autodidata, estou indo bem, mas me deparei com um problema e uma dúvida.
    A escrita tradicional é esta que é ensinada. Porém, quando assisto a videos em tailandês, é usado um tipo de escrita diferente, parece até uma adaptação.
    O que é isso? é algum tipo de escrita cursiva (a mão)?
    Vocês poderiam me enviar uma orientação?
    Grato

    1. Miguel, sim, é o mesmo alfabeto, mas escrito de forma mais simples, mais cursiva e com menos “curvas” e “círculos” que caracterizam a escrita tailandesa clássica. Para você que se dedica à língua, penso ser necessário também aprendê-lo, assim como quem usa o alfabeto latino precisa conhecer as formas maiúsculas e minúsculas, além do alfabeto cursivo. Abs.

      1. OK.
        Você teria essa CO-RELAÇÃO? Procurei e não achei. Como estou praticando o alfabeto e a fonética, gostaria de já ir treinando as 2 formas de escrita. Questão pessoal de aprendizado.
        Caso você tenha material nesse sentido (co-relação dessas 2 formas de escrever, agradeço se me enviar), ou mesmo postar no blog para que outros também conheçam.
        Grato
        Miguel

  2. Muitíssimo obrigado Aender…
    Ajudou barbaridade. Eu já havia suspeitado de algumas correlações, e estava certo, mas as outras eu não fazia a menor ideia.
    Agora ficou muito mais fácil.
    Obrigado mesmo.
    Miguel

  3. cara eu gostei muito…amoo a cultura tailandesa e a escrita.pod escrever meu nome em Thai? meu nome e Yara Keys. gostei das suas postagens.obrigda.

    1. Nirvana, um tailandês provavelmente teria dificuldade de falar o nome do seu pai, já que encontros consonanais não são muito comuns naquele idioma. Mas vou tentar:
      Gerfter: แกรฟตร
      Carla: การละ

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