Santuário de Bom Jesus de Congonhas–déc/1980, ago/2014- 1.ª parte

Cumprindo uma promessa que fiz a mim mesmo em abril 2011, retornei a Congonhas, cidade do interior de Minas Gerais, distante  124 km do Aeroporto de Confins. Visitei Congonhas quando era criança com a minha família e eu me lembro ainda das estátuas de pedra sabão que adornam a entrada do Santuário. Mas muito já se apagou da memória após aproximadamente 30 anos. Era hora de voltar.

Por isto, decidi passar um fim-de-semana em Belo Horizonte. Com carro alugado, diretamente do Aeroporto de Confins fui até Congonhas cidade de uns 50 mil habitantes cortada pela BR-040 (que liga a capital de Minas Gerais até o Rio de Janeiro). O Santuário fica numa parte elevada da cidade, onde deixei o carro e me dirigi imediatamente para os profetas de Aleijadinho, maior nome do barroco mineiro do século XVIII.

Elas têm tamanho que se pretendeu natural (ao de um ser humano), mas pareciam tão maiores na minha memória!

Estes são os Doze Profetas de Aleijadinho, expressão máxima do barroco de Minas Gerais. São espetaculares sob todos os aspectos: pela posição em que se encontram, por sua dimensão, pela simetria que os seis profetas da esquerda guardam com os seis da direita e pelo altíssimo valor artístico e histórico que cada uma guarda.

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Cada qual representa um Profeta do Antigo Testamento (a foto imediatamente acima é Isaías e a anterior, Ezequiel) e algumas têm características notáveis.

Daniel, por exemplo, é acompanhado de um leão (de acordo com o Livro de Daniel 6, 8-25, Daniel teria sido lançado pelo rei babilônico Dario em um fosso com leões, mas teria escapado ileso mesmo após passar ali uma noite já que, segundo o próprio Daniel, Deus teria “fechado a boca dos leões”). É curioso notar que Aleijadinho nunca em vida viu um leão e (segundo imagino) mesmo figuras deste animal alheio às realidades americana e europeia deviam ser escassas e distorcidas e, por isto, esculpiu este leão de acordo com o que imaginava ser a fera descrita no Antigo Testamento.

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Também foi necessária criatividade de Aleijadinho para representar a baleia, animal ligado ao Profeta Jonas. Segundo o Livro de Jonas, este profeta teria sido enviado por Deus à capital da Assíria, admoestar os assírios da ira divina prestes a se abater sobre eles. Sabedor das crueldades a que eram dados os assírios, Jonas resolveu fugir em um barco, mas, em razão de uma tempestade, teria sido lançado ao mar e engolido por uma baleia! Jonas teria passado três dias e três noites no estômago do cetáceo e, após ser vomitado, teria ido até Nínive dar cumprimento ao seu encargo.

Vejam que a baleia idealizada e concretizada por Aleijadinho soltava jatos de água por suas duas supostas narinas, tinha rabo e barbatanas!

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Em muitas estátuas, as vestimentas dos profetas parecem-se muito mais com os trajes utilizados no séc. XVIII que o que se supõe serem os trajes da Antiguidade. Há, na linguagem artística de Aleijadinho, muitos símbolos que remetem diretamente ao movimento inconfidente, que havia sido sufocado pelas autoridades portuguesas poucos anos antes da criação destas imagens. Aleijadinho apoiou, não se sabe com que grau de envolvimento, o movimento da Inconfidência Mineira.

Abaixo, neste sentido, o Profeta  Amós. Notem a barra da calça, a abotoadura com colarinho e o pesado casaco, além do gorro, bem diferentes das túnicas usadas pelos outros profetas acima. Há quem interprete que Amós é a autorrepresentação do próprio Aleijadinho.

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São notórios os efeitos do tempo sobre estas estátutas que têm mais de 200 anos (foram construídas entre 1795 e 1805) expostas à chuva, sol e variação de temperatura, bem como são lastimáveis os vestígios deixados por gerações de vândalos imbecis sobre a frágil pedra-sabão, além do ataque de fungos. Notei que há guardas vigiando as estátuas, mas não há impedimento a que as pessoas toquem as estátuas!

Não sei em que ponto estão (se é que estão) as discussões sobre a óbvia necessidade de se retirar os Profetas de Aleijadinho do átrio do Santuário de Bom Jesus (substituindo-as por réplicas, como feito, por exemplo, com o David de Michelangelo, retirado da Piazza della Signoria no centro de Florença) e já li a respeito da possibilidade de a UNESCO vir a inscrever este Patrimônio da Humanidade na Lista dos PH em perigo, o que cheguei a noticiar aqui.

(continua)

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