Complexo de Conservação da Amazônia Central–PH n.º 130–1.ª parte

É sempre um grande prazer visitar um Patrimônio Natural da Humanidade, até porque eles são poucos: apenas 187 no mundo inteiro. No Brasil são 7 e apenas este é dedicado ao bioma mais extenso do país, a Amazônia.

O Complexo de Conservação da Amazônia Central foi inscrito na Lista do Patrimônio Mundial em 2000 e englobou, inicialmente, apenas o Parque Nacional do Jaú, com sua espetacular extensão de quase 23.000 km² (maior que o Estado de Sergipe ou que Israel). Em 2003, o PH passou a ter o nome atual pois passou a englobar também outras três áreas contíguas.

Então, o Complexo de Conservação da Amazônia Central é composto das seguintes unidades de conservação (todas no Amazonas):

U.C. Município (AM) Área (aprox.)
Parque Nacional do Jaú Novo Airão e Barcelos 22.500 km²
Parque Nacional de Anavilhanas Novo Airão, Iranduba e Manaus   3.500 km²
Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá Tefé 10.000 km²
Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Amanã Maraã, Barcelos e Coari 23.500 km²

 

Somadas as áreas de conservação incluídas neste PH, tem-se uma extensão territorial superior a países como a Suíça ou a Costa Rica.

Aliás, quase tudo no Amazonas é superlativo, incluindo-se a capital, Manaus, onde cheguei de avião. Fiquei surpreendido com o tamanho da cidade: são quase 2 milhões de habitantes, o que a elenca como o 7.º maior município do Brasil em população (mais habitantes que Recife, Curitiba, Porto Alegre ou Belém).

Manaus é apenas um portão de entrada para a Floresta Amazônica, mas não é – como alguém poderia imaginar –, um lugar onde se experimenta a mata equatorial. Ir a Manaus imaginando que se vai à floresta amazônica é o mesmo que imaginar ir a São Paulo para conhecer a Mata Atlântica…

Há que se sair de Manaus para ter um contato real com o gigantesco bioma amazônico. Com a inauguração da Ponte do Rio Negro (foto abaixo, extraída da internet) esta saída ficou bastante facilitada, inclusive para chegar a Novo Airão, cidade-base para visitar os Parques Nacionais de Anavilhanas e Jaú.

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A Ponte do Rio Negro tem 3,6 km de extensão e é a única que corta o Rio Negro em território brasileiro. É a segunda maior ponte fluvial do mundo (apenas lhe suplanta a ponte sobre o Rio Orinoco, na Venezuela).

Ao cruzá-la (e a foto dá um indício disto) já se começa a sentir a pujança da mata equatorial. A partir de Manaus vai-se pela Rodovia AM-070 até bem próximo da cidade de Manacapuru, mas um pouco antes entra-se à direita no sentido de Novo Airão, pela AM-352. O trajeto total tem algo em torno de 180 km e é uma das poucas ligações rodoviárias entre a capital amazonense e municípios do interior, já que a regra é que sejam alcançados por barco ou avião.

Isto, porque, e ainda para continuar a falar dos superlativos amazônicos, o Estado do Amazonas tem um milhão e meio de quilômetros quadrados, em sua grande maioria ocupados pela selva equatorial. Apenas para se ter uma idéia, o Estado do Amazonas é três vezes maior que a França e, sozinho, é maior que toda a Região Nordeste do Brasil. Se o Estado do Amazonas fosse um país, seria o 18.º maior de todo o mundo.

As estradas que levam a Novo Airão são asfaltadas e a viagem é bastante tranquila.

Uma vez em Novo Airão (população 15 mil habitantes; área 37.700 km²), me hospedei na Pousada Bela Vista, a melhor opção econômica na cidade. Quem quiser luxo, pode procurar a Anavilhanas Jungle Lodge. Na Pousada Bela Vista havia tudo o que eu buscava: praticidade de estar no núcleo urbano, muita informação sobre os passeios, uma espetacular vista do Rio Negro e quartos limpos e confortáveis. Além disto, basta descer uma escada para chegar ao Rio Negro, de onde saem e chegam os barcos para os passeios.

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O que se vê, bem ao fundo, a partir do refeitório da pousada não é a outra margem do Rio Negro, mas, sim, uma ilha, uma das 400 que formam o arquipélago fluvial de Anavilhanas, que é Parque Nacional e que integra o Patrimônio da Humanidade da Amazônia Central. A outra margem do Rio Negro, é bom que se diga, está a muitos quilômetros de distância dali…

Na foto de satélite é possível ter uma ideia do que é este notável lugar:

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Este desenho das ilhas fluviais varia durante o ano: na época da cheia muitas desaparecem e, na baixa do rio, ocorre o contrário, formando-se inclusive praias. A cheia do Rio Negro coincide com o que chamam de “inverno” (dezembro a junho), a estação chuvosa, quando as temperaturas ficam amenas para os padrões equatoriais. No “verão” (julho a novembro), chove bem pouco e as temperaturas não raro ultrapassam os 40ºC.

Por isto, embora eu tenha enfrentado chuva em todos os dias da viagem, recomendaria visitar a região neste início do “inverno”, quando as temperaturas estão suportáveis e o rio ainda não encheu muito.

Ao contrário do que se ouve por aí, as Anavilhanas não são o maior arquipélago fluvial do mundo: no município vizinho de Barcelos está o arquipélago fluvial de Mariuá, com 700 ilhas.

Meu primeiro contato com as Anavilhanas foi à noite, em um passeio que se faz para focagem de jacarés… Embora estes répteis não sejam meus animais preferidos, eu fui, já no dia da chegada. A expectativa era alta: ouvi relatos de gente que viu cobras enroladas em árvores, bicho-preguiça, dentre outros.

Tão-logo a lancha sai da margem do Rio Negro, o visitante é engolido pela escuridão e, pouco tempo depois, começa a ouvir os ruídos da mata. À noite e no escuro, a Floresta Amazônica parece ser ameaçadora, e, até por isto, a experiência vale a pena.

Depois de atravessar vários canais entre as ilhas fluviais, com poucos vestígios de fauna, os lancheiros conseguiram capturar um pequeno jacaré, para alegria demais ocupantes da lancha, ansiosos que estavam por isto.

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Mas o mais famoso dos animais do Rio Negro é o boto, em especial o boto-rosa, que é uma espécie de golfinho de água doce, encontrado nas bacias do rios Amazonas e Orinoco. Diferencia-se de um outro tipo de boto, chamado tucuxi ou boto-cinza, que é mais escuro e que também tolera água salgada ou salobra.

Durante os passeios pelo Rio Negro vi vários botos-cinza, mas a visualização do boto-rosa, em Novo Airão, é mais fácil porque eles se acostumaram a ir até um ponto da cidade onde são diariamente alimentados em horários pré-definidos.

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Antes era possível nadar ao lado dos botos e alimentá-los à vontade. O ICMBio, porém, proibiu aos turistas entrar na água com eles (até porque isto não é completamente seguro, pois os bichos podem morder) e regulou a alimentação para evitar que ficassem obesos. Pelo que me disseram lá, a cor rosa destes botos se acentua com a idade.

As Anavilhanas compunham uma estação ecológica desde 1981, mas em 2008 foram transformadas em parque nacional, o que garante a possibilidade de que sejam visitadas por turistas, sem prejuízo de sua proteção integral.

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