(Meu) Roteiro das Missões

Tive a sorte de encontrar a guia Vera, entusiasmada e incansável, que topou fazer comigo, em um dia, um puxado roteiro de visita a vários locais da região missioneira. Recomendo buscarem a Vera, que é altamente capacitada para guiar os visitantes pelas ruínas da região (ela me autorizou a colocar o nome dela aqui. O seu telefone pode ser facilmente obtido na Pousada das Missões ou na entrada do sítio arqueológico de São Miguel).

Começamos cedo, saindo de São Miguel das Missões e fomos direto para São Nicolau, a pouco mais de 100 km, já bem próxima do Rio Uruguai, que separa o Brasil da Argentina. São Nicolau é uma cidade bem pequena, daquelas em que se vai buscar a chave do museu municipal na casa da funcionária responsável.

As ruínas de São Nicolau são interessantes e eu digo que vale a pena o esforço para chegar lá. Em especial, o que mais encanta é a grande quantidade de assoalho ou piso original, que se encontra onde um dia foi a igreja. Também há vestígios bastante notáveis do “cabildo”, local onde os caciques indígenas administravam a comunidade indígena sob supervisão e orientação dos padres.

DSC02896

(abaixo, foto dos restos do “cabildo” de São Nicolau, ou “prefeitura”, digamos assim, da redução):

DSC02889

É bom que se diga que os jesuítas nunca obrigaram os índios a integrar as reduções – mesmo que quisessem, eram tão poucos que não poderiam fazê-lo. Os índios é que buscavam “reduzir-se” (no sentido de passar a integrar as reduções), pois lá encontravam um sistema eficiente de produção de alimentos, aprendiam meios de se defender de bandeirantes e submetiam-se a uma disciplina incomparavelmente mais benévola do que nas mãos dos fazendeiros espanhóis, que empregavam o sistema servil das encomiendas. Os líderes indígenas tradicionais eram admitidos nas reduções e mantinham sua precedência sobre a comunidade, embora, naturalmente, devessem observar a disciplina jesuítica.

Em São Nicolau há uma boa mostra do sistema de armazenamento de água e, ainda, uma “adega” na qual alimentos e vinho eram estocados abaixo da terra, em condições mais propícias à sua preservação. A tradição vinícola nestas terras missioneiras, porém, praticamente se perdeu, ao contrário do ocorrido na Serra Gaúcha.

DSC02915 

No retorno a São Miguel, almoçamos em São Luís Gonzaga, cidade que se situa no local da redução de mesmo nome, mas que não guarda mais vestígios da época. A seguir, paramos em São Lourenço Mártir, com importantes vestígios da fachada da igreja e também, supõe-se, dos aposentos dos padres, que normalmente ficavam adjacentes à igreja.

DSC02928

DSC02940

Em seguida, paramos no Santuário do Caaró e ali eu tomei conhecimento da história dos Mártires das Missões, os padres jesuítas espanhóis Roque González, Alfonso Rodríguez e Juan de Castillos, que foram, ainda na primeira tentativa de estabelecimento das reduções jesuíticas (em 1628) martirizados a mando do cacique guarani Nheçu, que viu com maus olhos o crescente número de índios que se convertia ao Cristianismo.

DSC02959

Conta-se que González foi assassinado com golpes de machadinha na cabeça, também sendo morto o padre Rodríguez e que os índios esquartejaram os corpos e atearam fogo a eles e também à capela onde ocorrido o crime. Castillos também foi morto, mas em outra localidade. Ainda segundo a tradição, no dia seguinte, os índios retornaram ao local e viram que o coração de González não havia se queimado, motivo pelo qual perfuraram-no com flechas. O coração de González foi trasladado para Assunção, no Paraguai (onde o padre nasceu) e encontra-se lá exposto como relíquia em uma igreja, pois, misteriosamente, não se corrompeu com o tempo. Os três padres foram canonizados por João Paulo II em 1988 e o Santuário do Caaró foi construído no local do martírio. O local onde se situa o Santuário é muito bonito, há uma fonte de água tida como milagrosa. 

DSC02967

Seguindo viagem, chegamos ao sítio arquológico de São João Batista, local onde consta que os jesuítas implantaram, imaginem!, uma fundição de ferro e aço. Nesta região do Rio Grande do Sul abundam rochas com alto teor de ferro.

 DSC02987

Em São João Batista vi pela primeira vez uma árvore de erva-mate (Ilex paraguaiensis). Eu gosto bastante de chimarrão (gosto muito de chás, em geral), então desta vez acabei comprando, sob a supervisão de Vera, um kit para chimarrão (a cuia, a bomba e a erva) e trouxe para São Paulo. No hotel, houve imensa boa-vontade de várias pessoas para me ensinar a preparar o chimarrão, o que não é exatamente fácil. Eu não imaginava que a erva-mate fosse procedente de uma árvore grande assim, sempre imaginei que se tratasse de um arbusto. E ela produz frutinhos escuros:

DSC02984

DSC02985

Ainda em São João Batista há um monumento dedicado a Antônio Sepp von Rechegg, padre austríaco fundador da redução e dotado de incríveis capacidades como arquiteto, escultor, minerador e produtor de instrumentos musicais.

DSC02976

No dia do retorno a Passo Fundo, parei para conhecer a Catedral “Angelopolitana” em Santo Ângelo, que também era um dos 7 Povos. A catedral tem uma bela fachada e foi construída exatamente sobre o local onde havia a igreja da redução jesuítica de Santo Ângelo Custódio. Há, nas laterais da catedral, o que chamam de “museu aberto” com as escavações da estrutura da igreja original. Eu achei curioso saber que existe uma catedral dedicada ao Anjo da Guarda

catedral angelopolitana

Com isto e com a inestimável ajuda da Vera, consegui visitar 6 (contando ainda São Miguel das Missões, claro) dos 7 Povos das Missões. A exceção foi São Borja, que fica bastante afastada dali e que, da mesma forma que São Luís Gonzaga, não tem vestígios das reduções, que é o que mais me interessaria.  São Borja é a terra de muitos políticos, como Getúlio Vargas e João Goulart.

Com isto termino o relato do meu fim-de-semana prolongado na Região das Missões Gaúchas. É um passeio que vale muito a pena, pela história e pela hospitalidade gaúchas.Tenho a lamentar o fato de que, justamente no fim-de-semana da minha visita, ocorreu a maior tragédia da história do Rio Grande do Sul (e uma das maiores do Brasil), em Santa Maria. Enterei-me do tema logo cedo, ao pegar o carro para ir embora, pelo rádio. Na estrada, acabei passando por cidades que não ficam muito longe de Santa Maria.

8 respostas para “(Meu) Roteiro das Missões”

  1. Obrigada João! Está fazendo o chimarrão todos os dias como os gaúchos?
    Conhece a lenda da Erva-Mate? O chimarrão é o companheiro e amigo silencioso de todos os dias do Gaúcho.
    Abraço!

    1. Vera, ainda não cheguei ao ponto de tomar todos os dias. Mas já preparei duas vezes e acho que aprendi a fazer. O chimarrão é muito saboroso! A lenda da Erva-Mate não conheço, se quiser nos contar, agradeço. Um abraço!

      1. A LENDA DA ERVA MATE
        Conta a lenda que um velho guerreiro guarani, chamado Nhandubaí, que não podia mais caçar e nem guerrear, devido a sua avançada idade e a doença, consolava-se com a companhia de sua jovem filha Yari. Isso o entristecia, pois Yari não tinha contato com outros jovens de sua idade porque ficava lhe fazendo companhia.
        Um dia, quando o velho estava só com a filha, apareceu um estranho guerreiro vindo de muito longe, pedindo pousada.
        Dias após, o viajante que ficara amigo do velho índio, contou que era um enviado de Tupã (Deus) e perguntou-lhe:
        – O que te falta, meu bom amigo?
        E o velho disse que gostaria de ter um companheiro cheio de paciência, que nada criticasse e que o distraísse em sua velhice.Que lhe desse a força do calor que tem a amizade das mãos amigas. Só assim poderia deixar Yari em liberdade para seguir sua vida.
        O enviado de Tupã respondeu:
        – Vou te dar duas graças. A primeira é esta planta, chamada Caá (erva-mate), de cujas folhas poderás tirar um alimento que te dará muito vigor e será um amigo silencioso em todos os momentos que precisares de companhia.
        A segunda será que, de hoje em diante, tua filha tornar-se-á Caá-Yari, a Deusa dos ervais e dos ervateiros.
        E assim foi feito, surgindo daí o chimarrão, essa saborosa bebida, feita das folhas da erva-mate.

        A erva-mate é uma árvore da família das aquifoliáceas, originário da região subtropical da América do Sul, presente no sul do Brasil, norte da Argentina, Paraguay e Uruguai. Os indígenas das nações Guarani e Quíchua tinham hábito de beber infusões com suas folhas. Hoje em dia este hábito continua popular nestas regiões, consumido como chã quente ou gelado, ou como chimarrão no sul do Brasil, principalmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, no Uruguai e na Argentina. É também consumido como tereré, em alguns estados brasileiros além do Paraguay.

        1. Vera, mais uma vez, obrigado! A história é muito interessante. Lembro de você comentar que as duas maiores tradições culinárias gaúchas, o mate e o churrasco, têm raízes indígenas. Um abraço. João.

  2. Parabéns, pela matéria, pelas informações e pela indicação da guia Vera. Ainda não conheço a Região das Missões. Do Rio Grande conheço a região das serras gauchas, Gramado, Canelas, Caxias do Sul, Garibaldi, Bento Gonçalves, entre outras cidades da região. Em breve irei conhecer esta região, e vou buscar ajuda desta guia, com certeza. Um Abraço. Elionard Jales Recife/PE.

  3. gostaria muito de fazer esse roteiro todo, ajudado pela Vera, tenho o feriado de Corpus Christi, para fazê-lo, isto é 4 dias 3 noites, vou c/ meu filho adulto, necessito de informações de transporte/alojamento, sou da 3ª idade, descontos são muito bem vindos, grato. abs

    1. Célia, eu fiz o passeio que te interessou mas não tenho mais informações além das que postei no blog. Entre em contato com a Pousada das Missões para ver o que eles podem te oferecer. Abs e boa sorte!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *