Os 7 Povos das Missões e as Guerras Guaraníticas

Os jesuítas em duas ocasiões tentaram estabelecer-se à margem oriental do Rio Uruguai, região conhecida como El Tape, de propriedade espanhola, com o objetivo de catequizar os índios guarani pelo sistema das reduções.

O chamado Primeiro Período da História Missioneira se deu entre 1609 e 1641 e teve como protagonista e idealizador o Pe. Roque González de Santa Cruz, nascido em Assunção, quem, a partir da primeira missão, em San Ignacio Guazú (hoje no Paraguai) lançou as bases do sistema reducional. Em 1626, no lado oriental do Rio Uruguai, fundou a missão de São Nicolau, acompanhado de outros dois jovens padres jesuítas espanhóis: Juan de Castillo e Alfonso Rodríguez. Nos anos seguintes, outras missões foram implantadas no hoje Rio Grande do Sul, nas proximidades das atuais cidades de São Borja, Ijuí, além da redução de Caaró (em guarani: erva amarga).Em 1628, estes três padres foram martirizados por ordem do cacique guarani Nheçu.

Outros jesuítas, porém, deram prosseguimento à implantação das reduções, trazendo uma novidade, que mudaria para sempre a região: o gado bovino.

As reduções, porém, eram sujeitas a um grande flagelo: os bandeirantes provenientes de São Paulo. Os bandeirantes eram verdadeiros caçadores de índios, mão-de-obra mais barata do que a importada da África. O fato de os índios passarem a adotar um estilo sedentário (e não mais nômade) com as reduções, facilitava o trabalho dos bandeirantes, que conseguiam, assim, capturar muitos índios de uma vez só e levá-los para São Paulo.

Havia hesitação por parte da Coroa espanhola em permitir que armas fossem entregues aos índios e jesuítas, de forma que as investidas paulistas eram crescentes. O bandeirante Raposo Tavares (cujo nome foi dado a uma importante rodovia paulista) foi um destes que assolaram as missões jesuíticas do Tape. Em meio a este cenário, houve dispersão generalizada dos índios guarani e a experiência das reduções frustrou-se.

Apenas a partir de 1682 é que os jesuítas ganharam novo fôlego para empreender o projeto reducional, do qual eram entusiastas. Inicia-se assim o Segundo Período da História Missioneira, com a fundação de 30 povos espalhados entre os atuais territórios do Paraguai, Argentina e Brasil, sendo que em 1732, quase 150 mil guarani estavam, voluntariamente, integrando alguma destas reduções.

File:Reducciones.PNG

Na margem oriental do Rio Uruguai, 7 destes povos foram implantados e as missões estavam assim dispostas (o mapa apresenta algumas inconsistências na localização exata das missões, mas é claro ao enquadrá-las no que depois veio a ser o Brasil):

Os Sete Povos

Os jesuítas eram metódicos e estabeleciam regras claras para o funcionamento das reduções. Durante dois dias da semana, os índios homens trabalhavam para a produção de alimentos para a coletividade (tupambaé) e nos outros quatro dias trabalhavam para a produção de alimentos para a sua família (abambaé). No domingo, era proibido trabalhar, devendo assistirem à missa e a catequese (que era ministrada em língua guarani). Havia grande fartura alimentar, em especial de carne bovina e ovina, milho, trigo, cevada e algodão.

No início, chegou-se a proibir a utilização da erva-mate (Ilex paraguaiensis), conhecida desde tempos imemoriais pelos guarani, uma vez que a erva era utilizada em cultos animistas. Mas os jesuítas perceberam, com o tempo, que era melhor que os índios consumissem o mate do que o cauim, um fermentado alcóolico.

Todas as reduções eram estabelecidas em uma grande praça na qual estavam a igreja, as casas dos índios, as casas dos padres, a casa do cabildo (as lideranças tradicionais, os caciques ou pajés, foram mantidas), o cotiguaçu, o cemitério e o local das hortas.

Havia escolas e aos índios era oferecido o contato com a arte (arquitetura, pintura, escultura, música). Conta-se que finos instrumentos musicais eram produzidos nas missões e que os corais de índios em nada deviam aos melhores corais europeus. Até experimentos com imprensa e astronomia chegaram a ser realizados.

A administração da justiça era decidida pelos líderes indígenas sob a supervisão dos jesuítas. Aos (raros) casos de homicídio e outros delitos atrozes era aplicada a pena de prisão perpétua. Delitos de menor importância acarretavam, em uma primeira vez, apenas a advertência. Na reincidência, a pena era de 10 chibatadas em praça pública.

Havia estrita fidelidade dos jesuítas e dos guarani à Coroa Espanhola.

Mas eis que, em especial pela astúcia portuguesa, os dois países ibéricos sentaram-se para renegociar os limites entre seus domínios na América do Sul, dada a obsolescência do Tratado de Tordesillas.

Em 1750, portanto, assina-se o Tratado de Madrid, pelo qual, dentre outras disposições, Portugal cedia à Espanha a Colônia do Sacramento, no Rio da Prata e, em compensação, receberia as terras à margem oriental do Rio Uruguai. Estabelecia-se que os padres jesuítas espanhóis e os índios deveriam sair das agora terras portuguesas, abandonando todos os seus bens, exceto os de uso pessoal.

MAPA - HISTÓRICO - BRASIL - POVOS DAS MISSÕES

Esta notícia foi devastadora para as missões. Os padres e também os guarani sentiram-se traídos pela Espanha, a quem sempre juraram fidelidade e decidiram que não iriam arredar os pés das reduções, compreendendo os guarani que aquelas terras não eram portuguesas nem espanholas, mas eram suas (daí a famosa frase pronunciada pelo guerreiro guarani Sepé Tiaraju: Ko yvy oguereko yara, “esta terra tem dono”).

Deu-se início às guerras guaraníticas (que eclodem em 1754), tendo, de um lado, os indígenas liderados por Sepé Tiarajú e, do outro, espanhóis vindos de Montevidéu e Buenos Aires aliados aos portugueses vindos do Rio de Janeiro.

Os indígenas, que conheciam muito melhor os campos de combate, ofereceram inesperada e tenaz resistência às incursões ibéricas, mas, em 1756, Tiajaru foi assassinado, na Batalha de Caiboapé, causando a derrota das tropas guaranis.

Os jesuítas, em 1759, foram expulsos de todas as terras portuguesas e, em 1767, de todas as terras espanholas. As reduções entraram em profundo declínio até que desapareceram. No séc. XIX, houve a repovoação das áreas dos 7 Povos, inclusive com imigrantes alemães, italianos e poloneses.

Na entrada da cidade de São Miguel das Missões há um portal com muitas alusões às guerras guaraníticas, inclusive a estátua de Tiaraju e sua famosa frase:

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3 Comments

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3 Responses to Os 7 Povos das Missões e as Guerras Guaraníticas

  1. LUIZ CARLOS DE CARVALHO LEITÃO

    Sou paulista e me envergonho do que os paulistas fizeram contra as Missões.
    Considero essa forma de organização um marco histórico na colonização do Brasil e da América Espanhola. A tristeza é só o que me vem vem à mente quando vejo o que poderia ter sido, nos dias de hoje, a civilização Guaranítica com a orientação dos abnegados jesuítas espanhóis.

    • Aender

      Oi Luiz, acho complicado julgar os fatos históricos com a perspectiva atual, pois hoje temos outra visão, outra compreensão a respeito do mundo, do “outro” e de nós mesmos.
      Os bandeirantes, na minha opinião, caçavam os índios não porque eram intrinsecamente maus, mas porque, na época, ainda não estavam definidas/consolidadas ideias como dignidade ou liberdade humanas que hoje nos parecem absolutamente fundamentais.
      Daqui a 200 anos, os futuros seres humanos considerarão, muito possivelmente, bárbaras atitudes que hoje consideramos normais. De qualquer forma, fica o seu registro.

      • O Luiz Carlos não deixa de ter razão.Não podemos ser anacrônicos,como escreve o Aender.Todavia ,mais ou menos desculpáveis,os mamelucos sabiam da proibição do Papa de serem escravizados os índios.Realmente,a civilização fantástica dos Guaranis teria feito dessa região a mais avançada das Américas.Objetivamente,o que fizeram com os 7 Povos foi um holocausto.

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