Missões Jesuíticas dos Guaranis: San Ignacio Miní, Santa Ana, Nuestra Señora de Loreto e Santa María Mayor (Argentina); Ruínas de São Miguel das Missões (Brasil)–jul/2009 e jan/2013

Do minúsculo aeroporto de Passo Fundo até a cidade de São Miguel das Missões são quase 260 km, praticamente todos eles na BR-285, que corta horizontalmente o centro-norte do Rio Grande do Sul e é uma das favoritas dos argentinos rumo às praias catarinenses.

Saí às 13:00 de São Paulo e às 18:00 já estava em São Miguel, a tempo de me alojar na Pousada das Missões, passear pelo Sítio Arqueológico (eu retornaria a ele no dia seguinte) e assistir ao espetáculo Som e Luz que é diariamente realizado no verão às 21:30. No verão o sítio fica aberto até às 20:00.

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O Som e Luz, basicamente, é uma narrativa poética (e às vezes um pouco confusa) sofre os eventos históricos que ocorreram na região dos 7 Povos da Missões, mesclando-se com jatos de luz na preservada fachada da Igreja e em outros pontos das ruínas. Estando em São Miguel, penso que vale a pena ir a este show, mas conhecer um pouco da história do lugar traz qualidade à experiência. O ingresso para o espetáculo custa R$ 5. 

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Os 7 Povos da Missões (“povo” aqui tem o sentido de “povoado”, “vila”, da mesma forma que a palavra espanhola pueblo) eram as sete reduções jesuíticas fundadas à margem oriental do Rio Uruguai – motivo pelo qual também são chamadas de Missões Orientais. Todas se situavam no que hoje é o Rio Grande do Sul, mas foram implantadas quando o território ainda pertencia formalmente à Espanha, em razão do Tratado de Tordesillas.

Os jesuítas implantaram, a partir do final do séc. XVII as seguintes reduções (ou povos): São Francisco de Borja, São Luís Gonzaga, São Nicolau, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista e Santo Ângelo Custódio (o “custódio” refere-se à idéia de “anjo guardador” ou “anjo da guarda”).

Em São Miguel estão as ruínas da redução de mesmo nome e que são as mais bem preservadas dos 7 povos e, no que tange à fachada da igreja, eu diria que trata-se da mais preservada de todas as reduções (incluindo as paraguaias e argentinas). O sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo foi inscrito como Patrimônio da Humanidade em 1983 – e, no Brasil, apenas ele.

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Embora as reduções brasileiras (com a ressalva de que não foram padres portugueses e/ou brasileiros que as criaram e que sequer o território era português) sigam o padrão das demais reduções jesuíticas da região dos Rios Paraná e Uruguai, com mesma arquitetura, sob o mesmo comando e sob a mesma filosofia jesuítica (trato disto tudo no blog, procurar nas categorias “Paraguai”, “Argentina” e “Bolívia”), elas apresentam um fascinante diferencial.

É que apenas os 7 Povos foram palco das Guerras Guaraníticas, a respeito das quais discorrerei em apartado, pois o tema é muito interessante e merece um pouco mais de minúcia. 

Há muito o que ver no Sítio Arqueológico de São Miguel. Ele se situa nas franjas da pequena cidade homônima e, além da igreja, cuja estrutura impressiona muito, dois outros elementos também são destaque: a torre da igreja (25 metros de altura) e o cotiguaçu.

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O cotiguaçu (em guarani: casa grande) era a parte das reduções jesuíticas que abrigavam as viúvas, as mulheres que não se casaram e os órfãos (os meninos só podiam ficar até a adolescência). Homens não podiam entrar. Esta foi a forma que os jesuítas encontraram para proteger as mulheres vulneráveis das reduções.

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A cruz que compõe com a fachada da catedral uma foto-postal do sítio arqueológico (acima) é a única remanescente dos 7 Povos. Não há certeza se o sino que se encontra no adjacente Museu é o que foi colocado na torre da Igreja de São Miguel.

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Falando do Museu (situado dentro do sítio arqueológico), para ele foram levadas várias peças de madeira e argila recolhidas das missões e, posteriormente, das casas dos repovoadores (habitantes que reocuparam esta parte do Rio Grande do Sul a partir do séc. XIX). A casa onde se situa o museu foi projetada por Lúcio Costa, o mesmo que projetou Brasília. O acervo lá é bastante interessante:

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Embora ensinados pelos jesuítas, os índios com o tempo acabaram transferindo um pouco da estética guarani para as imagens. Notem como isto é evidente neste rosto:

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Uma (rara) imagem de Deus (a Primeira Pessoa da S. Trindade), com a declaração “Ego Sum” (“Eu Sou”, Exôdo 3,14).

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A fachada da Igreja de São Miguel é espetacular. Nela é possível notar vestígios da pintura original, conforme relatado pela Vera, que me guiou por quase todos os 7 Povos. Fiquei surpreso por saber que a pintura era branca! Imaginem como isto devia ser bonito…

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Até gárgulas os jesuítas ensinaram os guarani a esculpir:

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Alguns europeus que visitaram as Missões (tanto durante quanto após a sua vigência) ficavam estupefatos em ver templos como este construídos pelos índios, igrejas comparáveis às da Europa, inclusive no tamanho! E isto que as reduções abrigavam, cada uma, não mais que 6 ou 7 mil índios. Os jesuítas entendiam que suplantar este número comprometeria a ordem e o desenvolvimento. Então, quando uma redução crescia muito, logo os jesuítas deslocavam parte da população para fundar outra redução. Estas igrejas comportavam, possivelmente, 4 mil pessoas…

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Continuo a tratar do tema nos próximos posts.

3 respostas para “Missões Jesuíticas dos Guaranis: San Ignacio Miní, Santa Ana, Nuestra Señora de Loreto e Santa María Mayor (Argentina); Ruínas de São Miguel das Missões (Brasil)–jul/2009 e jan/2013”

  1. Boa noite João!
    Parabéns, o blog está fantástico! Não pensei que conhecesse tantos países com atrativos turísticos culturais e naturais. É interessante e bonito o que tu fazes: dividir com todos que visitam o teu o blog, as tuas viagens, as histórias, a cultura dos povos e as belas fotos postadas desses lugares visitados, principalmente os Patrimônios da Humanidade.
    Vou postar a partir de amanhã algumas informações, aquelas que não lembrei no dia em que visitamos os Sítios Arqueológicos e também atualizar e complementar algumas informações do contexto histórico e de São Miguel. Um grande abraço!

    1. Oi Vera, muito obrigado pela sua contribuição. Fique à vontade para acrescentar informações e mesmo para corrigir alguma imprecisão que eu tenha dito. Um abraço! João

  2. A Cruz de dois braços é conhecida por ” Cruz Missioneira”, ela identifica as Missões, foi esculpida nas reduções pelos Guarani em uma pedra grés. Foi chamada de Cruz de Lorena, Cruz de Cemitério e Cruz de Caravaca da cidade de Caravaca de la Cruz da Província de Múrcia, Espanha. Padres missionários de diversas congregações e ainda imigrantes vieram para as terras da América, trazendo esse símbolo maior do cristianismo desde os meados do século XVI. A Cruz Missioneira e a Cruz de Caravaca possuem enormes semelhanças, a origem da cruz de dois braços se da conforme uma lenda existente em toda Espanha em 1232.
    O significado popular dos dois braços: A Fé e a Proteção redobrada.

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