Reservas da Mata Atlântica da Costa do Descobrimento–déc. 1980 e dez/2012

Aproveitei os festejos de fim-de-ano junto com minha família para cumprir uma quase que “obrigação”: visitar a parte capixaba do Patrimônio da Humanidade chamado Reservas da Mata Atlântica da Costa do Descobrimento, e digo “obrigação” porque as duas reservas capixabas integrantes do PH ficam muito próximas do município onde nasci e passei minha infância.

As Reservas da Mata Atlântica da Costa do Descobrimento foram inscritas na Lista da UNESCO em 1999 e englobam 8 áreas de florestas tropicais e restingas, 6 delas no Sul da Bahia.

Na tabela abaixo, elenco-as:

Unidade de Conservação Município/UF
Parque Nacional do Pau Brasil Porto Seguro/BA
Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal Porto Seguro/BA
Parque Nacional do Descobrimento Prado/BA
Reserva Biológica do Una Una/BA
Reserva Particular do Patrimônio Natural do Pau Brasil Porto Seguro/BA
Reserva Particular do Patrimônio Natural de Vera Cruz Porto Seguro/BA
Reserva Biológica de Sooretama Linhares, Jaguaré e Sooretama/ES
Reserva Particular do Patrimônio Natural de Linhares Linhares/ES

 

De acordo com a Lei Federal n.º 9.985/2000, “parque nacional” é uma área de “grande relevância ecológica e beleza cênica”, necessariamente pública (desapropria-se, se necessário) e vocacionada para o turismo, desde que implantado um plano de manejo (art. 11). Também Estados e Municípios podem criar seus parques.

As “reservas biológicas”, por sua vez, também são áreas públicas, com objetivo de proteção integral do ambiente, “sem interferência humana”, motivo pelo qual “é proibida a visitação pública, exceto aquela com objetivo educacional” (art. 10 § 2.º).

Já as “reservas particulares do patrimônio natural” são áreas privadas, gravadas com perpetuidade, com o objetivo de conservar a diversidade biológica, podend0-se nelas apenas desenvolver atividades de pesquisa, turismo ou educação (art. 21).

No relatório técnico apresentado à UNESCO (e que foi aprovado, garantindo a inscrição na Lista destas reservas como Patrimônio da Humanidade), consta que as 8 áreas protegidas somadas têm quase 112.000 ha, o que corresponde a 78% de toda a Mata Atlântica que resta nos Estados da Bahia e Espírito Santo. A Mata Atlântica Brasileira apresenta um dos mais altos graus de biodiversidade da Terra (juntamente com áreas de floresta tropicais da Colômbia e do Peru).

Isto se deu pelo relativo isolamento que a costa brasileira experimentou desde o fim da Era Glacial (serviram-lhe de limites e barreiras o Planalto Brasileiro com suas terras mais altas, bem como as áreas mais secas da caatinga e do cerrado), o que gerou alto grau de endemismo na fauna e na flora.

Ao mesmo tempo, a Mata Atlântica Brasileira é um dos biomas mais ameaçados de todo o mundo porque sua localização coincide com a parte mais densamente povoada do Brasil. Embora originariamente ela se estendesse por praticamente toda a costa atlântica, hoje as áreas que restaram formam dois blocos: esta, entre a Bahia e o Espírito Santo e outra, entre São Paulo e o Paraná (também Patrimônio da Humanidade, clique aqui para ver detalhes).

Embora eu tenha visitado quando criança, com minha família, algumas das áreas protegidas na Bahia (muito antes de serem Patrimônio da Humanidade), meu foco aqui será abordar as duas áreas existentes no Espírito Santo, a Reserva Biológica de Sooretama e a Reserva Patricular do Patrimônio Natural de Linhares.

A primeira, como já demonstrei acima, tratando-se de uma “reserva biológica”, não pode ser ordinariamente visitada (exceto para fins de pesquisa e/ou educação). Mas, ironicamente até, embora não se possa visitá-la, uma estrada federal (nada menos que a BR-101) corta-a ao meio, não raro causando a morte de animais silvestres, que são atropelados.  Para quem não sabe, a BR-101 é uma das principais ligações rodoviárias entre o Nordeste e o Sudeste do Brasil, o tráfego ali, inclusive de cargas, é pesado. Inúmeras foram as vezes que passei por este lugar e é impossível ficar indiferente à Reserva de Sooretama nos vários quilômetros que se trafega visualizando-a em ambos os lados da estrada. O meu pai sempre fala que quem vem de regiões mais secas do norte do Brasil deve se emocionar quando passa por ali ao ver uma mata tão fechada e exuberante.

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Resta, então, a Reserva Particular do Patrimônio Natural de Linhares, de propriedade da empresa Vale. Na verdade, esta reserva é adjacente à Reserva Biológica de Sooretama e têm, obviamente, o mesmo bioma. O que lhes diferencia é, apenas, o regime jurídico, pois uma é privada e a outra pública (não ficou claro para mim, embora eu tenha procurado saber, se a propriedade é da União ou do Estado do Espírito Santo…).

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A entrada para a Reserva da Vale é na própria BR-101. Tudo ali é muito organizado e há estrutura não só de visitação, mas também de alojamento e refeições. Há um centro de interpretação da reserva, feito de modo a atrair o interesse de crianças.

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O que interessava a mim e a meu pai era, claro, fazer uma trilha pelo interior da mata protegida. Isto só é possível com um guia que é disponibilizado pela própria reserva, além de haver algumas exigências quanto ao vestuário.

Para mim – e muito mais para o meu pai –, o cenário da Mata Altântica é absolutamente familiar porque frequentamos ambientes assim desde sempre, inclusive meu pai (e meu avô) já lidaram com extração e beneficiamento de madeira há muitos anos. 

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A trilha permite a visualização de muitas espécies de árvores endêmicas da Mata Atlântica capixaba, algumas delas cuja madeira era (e é) de muito valor. Meu pai lembrou-se de praticamente todas e acho que ele acabou prestando, a este respeito, muito mais informação ao guia turístico do que o contrário.

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Eu anotei o nome de algumas destas árvores: brejaúba, braúna preta, bomba d’água (!), guaiti, jacarandá, dentre outras.

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A trilha conforme o traçado delimitado pela Vale é curta e em menos de 1 hora é percorrida, sem nenhuma dificuldade. Para quem nunca teve contato mais próximo com uma mata tropical, este passeio deve trazer alguma novidade. Para nós, foi mais um exercício de recordação: para mim, dos tempos em que brincava em uma propriedade do meu avô, próxima dali, em uma mata tão exuberante quanto esta e com o acréscimo de uma nascente; e para o meu pai, dos tempos em que ele, segundo o que me disse, adentrava em matas como esta, com o meu avô, em busca de madeira de boa qualidade.

Visitar Patrimônios da Humanidade, para quem mora na América do Sul, dada a escassez deles aqui, quase sempre requer longos deslocamentos, vôos, planejamento, etc. Neste caso aqui, bastou pegarmos o carro e irmos lá passear.

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