Brasil holandês

Como já disse, durante o período da União Ibérica (1580-1640), em que as coroas portuguesa e espanhola estiveram unidas, o Nordeste brasileiro foi sujeito a várias incursões holandesas, primeiro em Salvador-BA, depois no litoral pernambucano, onde se fixaram por 24 anos.

Na Europa, a Holanda (os Países Baixos) viviam seu apogeu. O século XVII foi o século dourado neerlandês. Haviam se separado da Espanha, que até então dominava a região de Flandres e estabeleceram uma república protestante fortemente baseada no comércio marítimo. O Estado holandês era então, ainda, muito frágil e as companhias de comércio, baseadas nas confrarias burguesas, comandavam de fato a Holanda.

A mais importante delas era a Companhia das Índias Ocidentais, e foi ela, muito mais que o governo holandês – ainda incipiente – que patrocinou a conquista de um pedaço do litoral brasileiro.

Na Holanda do séc. XVII havia uma notável liberdade religiosa – exceto para os católicos – e, com isto, muitos judeus fugidos da Espanha e de Portugal lá se estabeleceram e vieram para o Brasil holandês. Em Recife está a primeira sinagoga das Américas, que hoje funciona como centro cultural judaico. Está situada na antiga Rua dos Judeus, rebatizada de Rua do Bom Jesus com a reconquista portuguesa. Esta rua é incrível porque os prédios inegavelmente lembram os prédios de Amsterdã, bem espremidos e alguns com até 4 andares. A influência holandesa é notável e que já foi a Amsterdã vai perceber.

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O Brasil holandês avançou enormemente com a vinda de João Maurício de Nassau (Jan Mauritius van Nassau), que planejou a cidade do Recife, implantou jardins botânicos, ruas arborizadas e trouxe cientistas e artistas para estudarem e retratarem todo o exotismo da nova conquista holandesa. Os lucros com o açúcar permitiram um avanço inegável na nova colônia, mas muito se deveu ao espírito de Nassau, um homem à frente de seu tempo, decidido a civilizar aquela terra selvagem.

Evidentemente, Nassau não agradou à Companhia das Índias e depois de algum tempo foi mandado de volta à Holanda.

Dois artistas holandeses que vieram com Nassau retrataram com vários óleos a paisagem do nordeste brasileiro de então, Frans Post e Eckhout. Há que se mencionar que a arte protestante proibia terminantemente qualquer pintura de imagens sacras, então os temas eram quase sempre a natureza ou o cotidiano. A paisagem do Recife era perfeita para desenvolver este estilo artístico.

Em Recife foi fundado no ano de 2002 um lugar sensacional: o Instituto Francisco Brennand, que possui o maior acervo de Frans Post do mundo com 15 quadros, mais até que o Rijksmuseum em Amsterdã. É um lugar imperdível e vou falar dele depois.

Para terminar o assunto do Brasil holandês, após a separação das coroas, Portugal decidiu reconquistar o que havia perdido. Mobilizou grande força militar e contou com o apoio de algumas tribos indígenas – outras, convertidas ao protestantismo, lutaram ao lado dos holandeses – e, por fim, conseguiram em 1653 expulsar definitivamente os holandeses do Brasil e recatequisar os índios.

Muitos judeus que moraram no Recife emigraram para a ilha da Nova Holanda, onde hoje é Manhattan, Nova Iorque, EUA.

Os portugueses então reconstruíram Olinda e as igrejas católicas e mantiveram as construções dos holandeses, inclusive um forte. 

Já ouvi muita gente desavisada falar que se a Holanda tivesse permanecido no Nordeste, ele seria diferente. Diferente, sem dúvida, e talvez pior. O método colonial holandês era tão explorador como o português e não interessava o desenvolvimento da colônia, mas sim, a extração das riquezas e o envio para a metrópole. Nassau foi uma pessoa com mais visão a este respeito, mas era integrante de uma companhia privada, que jamais permitiria que parte dos seus lucros fosse desviada para o desenvolvimento de uma terra que só servia para ser explorada.

Quem duvida, deve dar uma olhada no que hoje é o Suriname, colônia holandesa de longa data, um país marcadamente subdesenvolvido e mergulhado na corrupção e no tráfico internacional de drogas.

4 respostas para “Brasil holandês”

  1. Prezado Aender,

    o cronista da época, Frei Manuel Calado, disse que antes da destruição de Olinda pelos holandeses, aquela cidade era o terreal paraíso. Casas ricamente ornadas, palacetes, Igrejas belíssimas decoravam aquelas simpáticas colinas. Os holandeses, com sua tolerância típica, puseram fogo na cidade e a destruiu. Pessoas corriam pelos matos para salvarem suas vidas. Foram muitos abusos cometidos e, devido a uma sistemática perseguição religiosa, os católicos, liderados por Fernandes Vieira, implementaram aquela guerra que foi conhecida como Guerra da Luz Divina.

    1. Caro Antônio, de fato, os holandeses não pediram licença… A Igreja chegou, agora recentemente, a proclamar mártires um grande grupo de brasileiros/portugueses que foram trucidados no Nordeste durante a ocupação holandesa, também por motivação religiosa. Abraço.

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