As Reduções Jesuíticas

A palavra “redução” aqui empregada não tem o sentido de “diminuir”, mas de “redirecionar” (do latim: re-ductio), no caso, as populações indígenas da América ao Cristianismo, encargo assumido pelo Rei da Espanha – a separação do Estado da Igreja é um fato histórico muito posterior.

Já desde o séc. XVI as reduções foram implantadas em terras espanholas na América e significavam, quase sempre, vilas indígenas próximas aos povoamentos de espanhóis, nas quais os índios eram catequizados e sua mão-de-obra era utilizada pelos novos soberanos, não raro no regime de encomiendas – que, na prática, significava regime escravagista. Os espanhóis sempre tiveram mais pudores com a palavra “escravidão” que os portugueses ou brasileiros, então lançavam mão  destes eufemismos.

Os missionários jesuítas, conforme já mencionei em posts anteriores, chegaram mais tarde à América do que os dominicanos ou franciscanos e tiveram que se contentar com áreas menos exploradas da vasta possessão espanhola na América, no caso, a bacia do Rio da Prata.

Em 1609, seguindo orientação do Rei Filipe III, os jesuítas fizeram um acordo com o governador espanhol em Assunção para estabelecerem reduções ao longo do Rio Paraná, nas quais os índios seriam agrupados e cristianizados e as reduções gozariam de isenção de impostos.

Interessava à Coroa Espanhola toda a ajuda que os missionários pudessem prestar-lhe para assegurar suas fronteiras que iam de onde hoje são os Estados Unidos (bem acima da atual fronteira com o México) até a altura de Santiago ou Córdoba na América do Sul. A região do Rio Paraná era sensível pois era disputada com os portugueses, muito pouco dispostos a respeitarem os limites traçados pelo Tratado de Tordesilhas.

Os jesuítas, ardentes e destemidos missionários que eram, começaram com a redução de San Ignacio Guazú e novas reduções foram sendo fundadas, pois os guaranis, embora não fossem obrigados a integrá-las, notavam que seu destino era muito mais promissor nas reduções do que nas mãos dos temidos bandeirantes. Os jesuítas deram um novo sentido àquilo que se conhecia por “redução”. 

É de se notar que os jesuítas não pretendiam transformar os guaranis em “europeus”. Levaram o Cristianismo, que foi abraçado pelos índios, mas, de uma forma geral, toda a cultura guarani foi preservada, inclusive com a manutenção dos caciques e da língua guarani. Apenas os hábitos guaranis que se contrapunham ao Cristianismo, como a poligamia ou o canibalismo foram proibidos.

Esta era a utopia dos jesuítas: que os guaranis fossem salvos por abraçarem a verdadeira fé – este, afinal de contas, era o trabalho dos padres –, sem estarem sujeitos à escravidão e em um sistema de produção econômico, digamos, socialista – no qual a produção era partilhada em comum pelos índios. Aos padres cabia a catequese, a orientação e a supervisão das reduções. Nem se quisessem, os jesuítas poderiam obrigar os guaranis a integrarem as reduções – não raro eram 2 ou 3 padres para milhares e milhares de índios.

Por outro lado, os jesuítas receberam autorização expressa da Espanha para se prepararem para combater os bandeirantes e as reduções também serviam para que os índios fossem treinados para enfrentar, militarmente, os caçadores de mão-de-obra escrava.

As reduções prosperaram enormemente, com gado, erva-mate (até hoje consumida em massa pelas populações da região), produtos agrícolas como a mandioca e o milho e as reduções interagiam no comércio destes produtos, destinando os resultados à melhoria da infra-estrutura das reduções. Estas, por sua vez, eram dotadas de grandes templos, casas para os índios, escolas, refeitórios, cemitérios, etc. Logo que se implantava a redução, as construções eram em madeira, mas, à medida em que prosperavam, iam sendo substituídas por pedra.

Os jesuítas levaram a música aos guaranis, que se mostraram exímios fabricantes de instrumentos musicais, bem como cantores e músicos – um traço disto permanece nas missões jesuíticas da Chiquitânia, no leste da Bolívia. Também se destacaram os guaranis nos trabalhos em pedra (como pude ver em Trinidad) e na madeira, tendo criado até mesmo aquilo que alguns chamam de estilo “barroco guarani”.

Vejam no mapa como as reduções se espalharam (sem contar as da Bolívia). As que hoje se situam no Brasil foram construídas quando estas terras ainda eram espanholas:

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A utopia se tornava realidade. Até o filósofo Voltaire, um ácido crítico do Cristianismo, disse que “as reduções são um triunfo da humanidade que faz expiar a crueldade dos primeiros conquistadores”. 

Tudo isto chamou muito a atenção das metrópoles na Europa e era evidente que os colonos estabelecidos em terras espanholas e portuguesas estavam incomodados com a perda de mão-de-obra indígena e com o comércio realizado pelas reduções. Também os líderes locais achavam que os jesuítas eram demasiadamente poderosos, em especial por não se sujeitarem à autoridade civil colonial– a Companhia de Jesus respondia apenas ao Papa e ao Rei.

Na França e em Portugal os jesuítas sofreram grandes derrotas. No caso português, o Marquês de Pombal, profundamente antipatizado com aquilo que considerava insubmissão dos jesuítas à Coroa Portuguesa, expulsou-os de todas as terras de Portugal, inclusive do Brasil, em 1759.

Da Espanha, também por esta série de fatores, também foram expulsos em 1767. As reduções foram, assim, desativadas, os guaranis dispersos para serem subjugados e hoje restam as ruínas como testemunho de “uma utopia que tem lugar”, nas palavras de Bartolomeu Meliá inscritas, em espanhol e guarani, na entrada das ruínas de Trinidad.

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