Centro Histórico da Cidade de Diamantina/MG – PH n.º 91

Algumas coisas me chamaram a atenção de imediato em Diamantina: o calçamento das ruas do centro histórico com enormes placas e lascas de rochas, chamadas capistranas, ao invés dos mais comuns paralelepípedos; a notável conservação dos prédios históricos, tanto públicos quanto privados – que merece elogios – e uma gigantesca “parede” rochosa que se vê a partir da cidade, tampando-lhe o horizonte e que faz lembrar que se está na Serra do Espinhaço.

A cidade fica a uma altitude média de 1.100 metros, o que temperou um pouco o sol forte que fez neste sábado. É impensável circular pela cidade com carro, o melhor é estacioná-lo e andar a pé.

Comecei pelo circuito de igrejas. Merece menção a Igreja de N.S. do Carmo, com belo altar em madeira policromada e folheada a ouro e o forro da nave central pintado em perspectiva. A madeira é praticamente o único material empregado, nada de pedra como em outros lugares. Há porém, um lampadário de prata, vindo da Boêmia (República Checa), que me fez lembrar algumas peças feitas de prata que vi na Catedral de São Vitor, em Praga.

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De lá, uma descida para a Igreja do Rosário. Eu não sei a razão, mas no período colonial, tradicionalmente, as igrejas frequentadas pelos escravos  eram dedicadas a N. S. do Rosário. No fundo, nota-se a serra.

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Dali para a simpática Capela Imperial do Amparo, na qual estão um presépio feito com conchinhas datado de mais de 200 anos e belas imagens de N. S. do Amparo (trajando um alvíssimo manto), Sta. Rita de Cássia, Sta. Ana (avó de Cristo) e Sta. Bárbara – só mulheres…

Por fim, a Catedral. A fachada é desinteressante e o interior confirma o fato de ter sido construída no séc. XX, com suas linhas austeras e quase desprovidas de decoração. Apenas duas pequenas capelas lateriais que restaram do templo antigo (que foi desfeito para a construção da Catedral) provocam algum contraste. Há uma pintura na Catedral que faz alusão ao diamante, causa da própria existência de Diamantina.

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As igrejas de Diamantina não têm a opulência das igrejas de Ouro Preto. São muito mais sóbrias, tanto externa quanto internamente, mas não deixam de ser interessantes. A do Carmo tem apenas uma torre e ainda no fundo, não na fachada. Todas menos a Catedral cobram a entrada para visitação – o que é correto – mas não oferecem qualquer tipo de informação ao visitante, nem sequer folhetos ou guias. Apenas na Igreja do Carmo havia um diminuto painel – ponto negativo para a Arquidiocese e para a cidade.

A partir dali uma íngreme ladeira para o museu dedicado a Juscelino Kubitschek de Oliveira, nascido em Diamantina. O museu está na casa onde JK viveu na sua infância e juventude. Não há praticamente mobília de época, mas há bastante informação sobre o filho mais ilustre da cidade, inclusive sobre sua família. Nos fundos da casa, montaram um anexo onde há uma biblioteca – onde, estranhamente, não se pode consultar os livros, nem sequer os recentemente editados e dedicados a JK – e uma área dedicada ao período em que JK exerceu a medicina. Há, ainda, debaixo da casa, um local onde se pode sentar e pedir uma bebida para aplacar o calor. Gostei bastante do museu e farei um post só sobre JK.

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Dali, para um dos pontos mais conhecidos da cidade – o Passadiço da Casa da Glória. Trata-se de uma passagem elevada de madeira que liga dois imóveis em lados opostos da rua e sua função era evitar que as internas de um colégio feminino tivessem que descer à rua no trajeto entre um prédio e outro. O passadiço é bem bonito e fora do comum. Nos imóveis ligados funcionam um museu relativo à história do lugar, inclusive com belas fotos e um instituto de pesquisas geológicas.

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Em seguida, o Museu do Diamante que, apesar do nome, dedica apenas uma sala ao tema. Só esta sala, porém, vale a ida. Lá estão pequenos fragmentos de diamentes e outras pedras preciosas, vários instrumentos utilizados no garimpo e muitas fotos de época sobre esta atividade. Ali aprendi que um quilate corresponde a 0,2 grama e que o mais famoso diamante já extraído no Brasil foi o Getúlio Vargas com 763 quilates (impressionantes 152 gramas). Também uma pequena explanação sobre como a notícia da descoberta do diamante chegou a Lisboa. O resto do museu é dedicado a imagens e peças sacras e a mobiliário de época.

Depois disto eu já estava esfomeado e fui em busca de algum lugar para comer comida mineira, claro. Gostei  do refogado de ora-pro-nobis, erva de que já tinha ouvido falar e fiquei contente em avistar um arroz-de-pequi…

Por fim, antes de encerrar as visitas para descansar um pouco, fui a uma casa reformada onde viveu Chica da Silva, famosa por ter vivido (não sei se foi efetivamente casada) com um figurão de seu tempo – João Fernandes de Oliveira – e viveu num padrão de vida incomum, na época, para uma mulher não-branca. A casa é ampla e dá a idéia do conforto usufruído por Chica, há umas telas de mau gosto alusivas a ela e nada mais que mereça destaque. Bonito mesmo estava um ipê amarelo florado bem ao lado da casa que rendeu belas fotos, aproveitando o céu sem nuvens.

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À noite, a vesperata. Ela ocorre duas vezes por semana exceto na estação chuvosa e consiste em apresentações de bandas nos balcões do casario da Rua da Quitanda. Embaixo, na rua, ficam o maestro e o público, sentado ou em pé. As músicas são previsíveis: Ó Minas Gerais, Peixe Vivo, Trem das Onze, etc. O ambiente da vesperata é bem gostoso e ela é famosa em MG, tanto que percebi que muita gente escolhe vir para Diamantina justamente nas datas de vesperata, o que explica o fato de eu ter tido dificuldade para reservar um quarto. No meu caso, foi sorte ter vindo neste fim-de-semana, eu não havia planejado isto.

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A vesperata trouxe um bônus extra: no domingo, pela manhã, na Igreja S. Francisco, tive o prazer de assistir ao “Sarau de Gente Miúda”, com chorinho, flauta, teclado e coral. O ambiente era excelente: a Igreja de S. Francisco – que rivaliza em beleza com a do Carmo e está impecavelmente restaurada – é fechada à visitação, mas abre para a apresentação do sarau. Ele é muito bem conduzido pela diamantinense Soraya Araújo Ferreira Alcântara. Alguns clássicos que haviam sido executados na Vesperata foram entoados, além de outros como Saudades de JK, Noites Cariocas, Brasileirinho e o “se essa rua fosse minha…”. Foi bem legal, principalmente o chorinho.  

Depois, para despedir, costelinha de porco com broto de samambaia, um achado… Eu gosto muito de broto de samambaia, mas só o conhecia preparado à moda japonesa (em japonês: わらび warabi). A versão mineira do broto de samambaia também é bem gostosa.

Diamantina é uma bela cidade colonial, com casario preservado, história interessante e tradição musical – e quanto a isto é importante que se visite nos fins-de-semana em que há a vesperata e o sarau na igreja. É um destino formidável para se passar uns dias. Eu gostei muito.

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