Praça São Francisco – São Cristóvão/SE – PH n.º 90

São Cristóvão é uma cidade com quase 80 mil habitantes que integra a Região Metropolitana de Aracaju e foi a capital da Província de Sergipe até o ano de 1855. 

O Brasil conseguiu, depois de 9 anos de jejum, inscrever um novo PH em 2010, justamente a praça principal desta cidade, e olhem que na Lista de Tentativas do Brasil estão lugares como Paraty, Rio de Janeiro, o conjunto arquitetônico da Pampulha, o arquipélago fluvial de Anavilhanas, etc.

Mas o que é que esta praça, afinal de contas, tem de tão interessante assim para que a UNESCO a declarasse um PH? Desde logo cabe ressaltar que quem vier aqui em busca de uma beleza cênica como a de Salvador ou de Olinda sairá decepcionado: a cidade não está à beira mar e tem um jeitão meio de cidade sonolenta do interior do Nordeste.

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A praça tem importância histórico-cultural porque é o único exemplar, no Brasil, de uma plaza mayor ou plaza de armas, tão típicas da arquitetura e planejamento urbano colonial espanhóis e que eram disciplinadas pela Espanha conforme o Ato IX das Ordenações Filipinas, aplicáveis também aos territórios portugueses durante a União Ibérica. A normativa chegava a estabelecer o tamanho da praça, com comprimento e largura, posição dos prédios públicos e religiosos, e isto foi observado à risca em São Cristóvão.

São Cristóvão foi fundada em 1590, exatamente na metade do período da União e, portanto, acabou por receber influência espanhola, no que se diferencia de outras cidades coloniais fundadas no Brasil. Do alto, vê-se a extensa praça (foto extraída do site da UNESCO):

Aerial View, the city and the rivers Vaza-Barris and Paramopama, S?o Francisco Square in the town of S?o Cristov?o

A Espanha era rigorosa em estabelecer regras urbanísticas que deveriam ser observadas na implantação dos povoamentos nas colônias americanas, ao passo que Portugal preferia ir se adaptando às condições de cada local, por isto não havia regras rígidas para o início das novas vilas. São Cristóvão, no contexto brasileiro, foi uma exceção ao modus operandi português, em razão do momento histórico vivido com a União Ibérica, com aplicação das regras filipinas (espanholas).

A relevância da praça, ademais, é que seu traçado é original do séc. XVI, ou seja, a praça tem o mesmo formato de há 421 anos, o que é notável no Brasil – Ouro Preto, por exemplo, que tem a bela Praça Tiradentes, comemorou por estes dias “apenas” 300 anos. Outras cidades muito antigas do Brasil como São Vicente/SP ou Vitória/ES não guardam nada ou quase nada do séc. XVI, muito menos o traçado urbano da época de sua fundação.

Segundo a UNESCO, “a praça reflete a excepcional vitalidade de um espaço público aberto, completo em sua configuração urbana, ilustrando sua história por mais de 400 anos e adaptando seu uso às manifestações culturais e celebrações ao longo da evolução histórica de sua sociedade”.

Na praça está a Igreja de São Francisco, que é o destaque, mas é muito simples em seu interior. Ao lado está o Museu de Arte Sacra, com um rico acervo e bem exposto. Onde hoje é o museu funcionava o convento dos frades franciscanos – motivo do batismo da praça em nome do santo de Assis. Os franciscanos, é bom que se diga, foram os primeiros a chegar ao Brasil e durante bastante tempo esta foi a única congregação religiosa na terra recém-descoberta. O padre que rezou a primeira missa no Brasil, foi o frade (i.e franciscano) Henrique de Coimba, em 26 de abril de 1500.

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Do outro lado da praça está o Museu do Estado de Sergipe, com acervo histórico muito modesto, mas gostei de ver a exposição que fizeram sobre o esforço que o Estado de Sergipe fez para conseguir inscrever um PH em seu território, o que incluiu uma espécie de “campanha”, além da contratação de um arquiteto que coordenou trabalhos que auxiliaram na inscrição de outra cidade história, Goiás/GO, em 2001.

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Por fim, no outro canto da praça, bem ao lado do museu, está, em reforma, a igreja de N. S. da Visitação anexa ao antigo orfanato das freiras da Congregação das Irmãs Missionárias Lar Imaculada Conceição, que vendem um biscoito típico chamado “bricelete”. Quando fui lá comprar, uma simpática freira fez questão de me mostrar as obras de restauração da igreja e dos prédios que se prestarão aos trabalhos sociais que realizam e à construção de 9 quartos para hóspedes. Atualmente, não há onde se hospedar em São Cristóvão e esta será uma opção interessante de alojamento, com vista para a praça em um agradável convento reformado.

De resto, já fora da Praça e, portanto, fora do PH, há a Igreja Matriz de N. S. da Vitória – curiosamente a Igreja Matriz não fica na Praça São Francisco, mas em outra praça da cidade. Há, ainda, a Igreja do Carmo e a Igreja do Carmo pequena – uma colada na outra -, onde a Beata Irmã Dulce foi ordenada e mais algumas igrejas. Em todas elas, há guias que ficam de prontidão para atender os visitantes, o que já é certamente resultado da intervenção da UNESCO pois é muito comum no Brasil que as igrejas fiquem fechadas durante o dia em cidades pequenas, impedindo a visitação.

Enfim, tenho dúvidas sobre se a decisão da UNESCO foi acertada. O acervo arquitetônico da cidade de São Cristóvão é bonito, mas não se compara com outras cidades que sequer são patrimônios da humanidade (Tiradentes/MG; Paraty/ RJ, etc.). A praça, por sua vez, tem sua beleza, mas não é nada de extraordinário, ao menos visualmente.

Vale como passeio, mas não esperem sair daqui extasiados como depois de ir à Igreja de São Francisco em Salvador ou depois de subir e descer as ladeiras de Olinda ou de visitar as igrejas barrocas de Minas Gerais.

2 respostas para “Praça São Francisco – São Cristóvão/SE – PH n.º 90”

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