Parque Nacional da Serra da Capivara: informações práticas

De todos os Patrimônios da Humanidade que já visitei no Brasil, o PNSC foi o mais difícil para conseguir alcançar. Por isto, achei por bem, com base na minha experiência (que considerei bem-sucedida), deixar aqui algumas dicas para o caso de alguém delas precisar.

1 – Aéreo: o aeroporto mais próximo é o de Petrolina-PE, servido por vôos da TAM, Gol e Avianca, com conexão em Recife quase sempre. O outro aeroporto viável é o de Teresina, mas fica a 100 km a mais. Fala-se da construção de um aeroporto em São Raimundo Nonato – a base para visitar o Parque Nacional –, mas quem estiver seriamente interessado em conhecê-lo deve esquecer esta possibilidade no curto prazo;

2 – De Petrolina, a melhor forma de alcançar São Raimundo Nonato é alugando um carro no próprio Aeroporto de Petrolina e dali já sair em direção a Afrânio (BR-407), cidade pernambucana próxima à divisa com o Piauí.

3 – Passando-se Afrânio e entrando-se no Piauí, o desafio é não perder a entrada da estrada estadual (PI-459). A sinalização é muito fraca e a entrada à esquerda a partir da BR-407 para alcançar a PI-459 é num vilarejo por volta de 12 km após a divisa e não há placa indicativa.

4 – A partir dali seguir pela pista novinha em folha da PI-459. Alguns trechos são sinuosos, mas a viagem é tranquila. O perigo são os animais da pista e é totalmente recomendável viajar só durante o dia por causa disto. Chega-se até a cidade de São João do Piauí e, ali, pela BR-020 seguir até São Raimundo Nonato. O trajeto total é de 400 km. As pistas são boas, há muitas retas longas e dá pra fazer em 4,5 ou 5 horas.

5 – Em São Raimundo Nonato, a melhor opção de hospedagem é o tradicional Hotel Serra da Capivara, com ar condicionado e piscina. Acreditem em mim, vocês vão precisar destas duas comodidades.

6 – Um guia é necessário para visitar o parque (que fica, vejam, a 40 quilômetros de São Raimundo). O meu guia foi o Rafael Morais, eu o recomendo bastante (ele me autorizou a colocar o nome dele aqui), ele tem profundo conhecimento sobre o Parque Nacional.  O guia vai diariamente até o hotel e de lá se segue, no próprio carro alugado, em direção ao parque. Qualquer outra opção (táxi, motocicleta ou o carro do guia) parece-me menos cômoda.

7 – Três dias é um tempo adequado para ficar lá, três dias inteiros, porque será possível realizar três circuitos. Quem tiver um dia a mais vai ter o que fazer, voltando ao parque ou indo a outro Parque Nacional no Piauí, a Serra das Confusões. Com apenas dois dias perde-se bastante. Os guias se encarregam de montar (e pelo que vi montam bem) os passeios pelos circuitos.

8 – Pode-se comer bem no próprio restaurante do hotel, mas aproveitem uma das noites para ir ao Bode Assado comer a típica comida sertaneja, com churrasco de bode ou carneiro, tapioca, feijão fradinho, manteiga de garrafa, mandioca (no caso lá, “macaxeira”) e muita, muita cajuína.   

9 – Paga-se R$ 11,00 por pessoa por dia para entrar no Parque, no caso dos brasileiros. Estrangeiros pagam o dobro. O valor cobrado pelos guias é fixo e por dia para o grupo (R$ 75,00).

O Parque Nacional da Serra da Capivara vale muito a pena!

O ambiente natural da Serra da Capivara: a caatinga

O PN da Serra da Capivara foi inscrito pela UNESCO na categoria “cultural”, em função de suas pinturas rupestres, uma riqueza incomparável que o Brasil possui. Mas a visita a este PH cultural é bem diferente do usual: para chegar às pinturas, há que se embrenhar na caatinga, um bioma tipicamente brasileiro.

Para mim foi uma grande experiência!

A carência de umidade, ou melhor, a irregularidade na existência dos recursos hídricos é a grande característica da caatinga e isto afeta todo o ecossistema, assim como a vida dos sertanejos que lá vivem.

Trata-se, assim, de um clima semi-árido, que pode ver volumes consideráveis de água durante alguns períodos do ano, de forma a viabilizar a atividade agropecuária, mas, também, pode ingressar em longos períodos de seca, que podem durar 2, 3, 4 anos. Por isto é que Euclides da Cunha disse que o sertanejo é antes de tudo um forte”, já que conviver com o drama da escassez de água não é para qualquer um.

DSC00095

Este ano, pelo que me disseram, foi um ano bem seco, choveu muito pouco na estação das chuvas, em cujo final justamente eu visitei o sudeste do Piauí. Falou-se de uma “seca verde”, isto é, houve chuva suficiente apenas para que as árvores se cobrissem de folhagem, mas não para irrigar suficientemente o solo.

Caatinga é uma palavra cuja origem tupi-guarani remete a “mata branca”, em alusão ao cinza esbranquiçado da vegetação ressecada durante a temporada seca. Segundo o guia Rafael, este cinza da caatinga seca sob a luz da lua é que foi cantado por Luíz Gonzaga quando ele se referia ao “luar do sertão”.

DSC00347

Ao andar horas a fio sob um sol inclemente (afinal estava no paralelo 8°S), às vezes sem uma nuvem sequer, fiquei pensando que em andanças similares na Mata Atlântica ou no cerrado, quase sempre a caminhada seria recompensada ao final com um banho de cachoeira ou de rio ou de mar. Na caatinga não há nada disso. Os córregos não são perenes e mesmo os que deveriam estar cheios em abril, neste ano, estavam completamente secos.

A despeito de tudo isto, o contato com a fauna aconteceu em várias ocasiões. Vi araras, periquitos e andorinhas voando, as pegadas de uma onça na areia, os onipresentes “mocós” (foto) – um roedor bem menor que uma capivara –, sem contar com as cabras, jegues e bois, que andam tranquilamente pelas rodovias.

DSC00045

As árvores são adaptadas ao clima seco e poucas são frutíferas. Os cactos, claro, estão por todos os lados, mas fiquei feliz quando conheci um juazeiro, árvore cujo nome evoca muito a caatinga e o sertão. O juazeiro não se desfolha mesmo na seca. Segundo o meu guia, o sertanejo tem “respeito” por três árvores e não as corta, salvo em último caso: o juazeiro (foto), o umbuzeiro e o mandacaru.

DSC05782

Aliás, a caatinga é uma enciclopédia sobre os cactos: ali se conhece e se aprende a diferença entre o xique-xique, o mandacaru, cabeça-de-frade (foto), dentre outros que esqueci.

DSC05759

As formações rochosas na região da Serra da Capivara são também muito impressionantes e justificam, na minha opinião, plenamente, a inscrição também do Parque Nacional da Serra da Capivara como um Patrimônio Natural da Humanidade, de forma a se tornar um PH misto. Esta já é uma antiga tentativa do Brasil junto à UNESCO.

DSC00191

DSC00229

DSC00293

Parque Nacional da Serra da Capivara – Piauí – PH n.º 112 – 3.ª parte

Um dos temas pintados na área da Serra da Capivara pelo homem “brasileiro” primitivo mais frequentes é o que envolve a representação de pessoas “dançando” ao redor de uma árvore. De acordo com a interpretação de Rafael, o  meu guia na Serra da Capivara, é possível que se trate da  “jurema preta”, árvore endêmica na região, e cujo chá da raiz traz efeitos alucinógenos.

DSC00111

DSC00158

São também comuns as pinturas alusivas a atos sexuais, inclusive com animais (zoofilia).

DSC00194

DSC00248

DSC00233

DSC00484

Os falos eretos, porém, não necessariamente indicam atos sexuais já que em boa parte das civilizações, esta representação está ligada à idéia de fertilidade:

DSC00275

DSC00449

Nos outros sítios de pinturas rupestres do mundo, são bem raras as representações de temas que fujam do assunto de caça e guerra. Na Serra da Capivara, estes temas são abordados, mas muitos outros também e nisto o sítio arqueológico brasileiro se destaca.

Por exemplo, algumas pinturas de temática lúdica. Abaixo, brincadeiras com bolas, danças e rituais

DSC00255

DSC00438

DSC00273

DSC00547

Nesta duas pessoas parecem brincar com uma criança, jogando-a de um para outro:

DSC00384

Tirando mel de uma colméia:

DSC00352

Um parto:

DSC00436

Na minha opinião, como os homens primitivos da Serra da Capivara viviam em condições muito favoráveis, podiam dedicar-se à pintura e, ao pintarem, podiam representar não só cenas de caça ou guerra, mas também sobre sexo, brincadeiras e outros temas, como visto acima. A hoje severa caatinga há 10.000 anos era uma floresta tropical úmida, generosa em frutos e caça. Além disto, desafios à sobrevivência comuns em outras regiões do mundo inexistiam ali: não fazia frio nunca, a água era abundante e não havia grandes predadores.

Para terminar o assunto relativo ao Patrimônio da Humanidade do Parque Nacional da Serra da Capivara, eu não poderia deixar de falar das gravuras que também se encontram lá. A interpretação, porém, é muito mais difícil.

DSC00211

DSC00214

DSC00282

Cajuína

Uma pausa nos posts sobre o Parque Nacional da Serra da Capivara para falar de uma coisa que eu gostei muito no Piauí: a cajuína.

Não é alcoólica, nem gaseificada, nem é adocicada pelo acréscimo de açúcares ou adoçantes. Mas também não é (só) um suco de caju. É um líquido cor âmbar, doce apenas pelo açúcar da fruta e com um forte “retrogosto”, digamos assim, de caju.

Nada que lembre os taninos (aquilo que “amarra” a boca) tão abundantes no caju, porque no processo de fabricação da cajuína eles são eliminados. Este processo inclui o acréscimo de gelatina, uma etapa de clarificação e até um cozimento em banho-maria.

É muito bom. Tem poucas calorias e muita vitamina C. Tomei litros e litros porque é a melhor forma possível de se manter hidratado no calor intenso do Piauí. 

A origem da cajuína é controversa. Alguns defendem que os índios já produziam-na, mas prevalece a versão de que o farmacêutico Rodolfo Teófilo criou-a no início do séc. XX com o objetivo de oferecer uma alternativa saudável e nutritiva ao consumo de álcool. Comigo funcionou, viu…

Apesar de já ter ouvido falar que o Piauí era a “terra da cajuína”, eu não sabia o que era isto até ir até lá. A distribuição de cajuína fora deste Estado é muito limitada. Vou sentir saudades em São Paulo.

Parque Nacional da Serra da Capivara – Piauí – PH n.º 112 – 2.ª parte

É surpreendente a variedade de temas que foram pintados pelos homens que viveram na Serra da Capivara há mais de 5 mil anos e, a partir deles, é possível ficar imaginando como seria viver em uma época tão remota.

Os temas relativos aos animais e à caça, claro, são muito frequentes e as pinturas possivelmente serviam para a transmissão de informações sobre os hábitos dos animais a serem caçados ou técnicas de caça. Alguns animais que foram pintados já não são encontrados na caatinga (como a própria capivara), mas existiam na região na época o hoje sertão nordestino era tropical e úmido (por volta de 10.000 atrás), com rios perenes e vegetação exuberante.

Pelas pinturas, não foi possível, ao menos para mim, identificar que o homem primitivo cultuasse os animais (como ocorreu em outras culturas, como a egípcia antiga), embora várias pinturas sugiram que a “convivência” entre humanos e animais era próxima, pois em cenas de “festejos” ou mesmo de sexo os animais eram representados nas redondezas.

Colaciono algumas fotos sobre pinturas rupestres de animais e de caça.

– pássaro:

DSC00540

– emas?:

DSC00504

– jaguar, onça?:

DSC00500

– lagartos:

DSC00476

– jacarés?:

DSC00466

– (o que será isso? um tatu?):

DSC00464

– cervídeos (são muito frequentes). Esta pintura abaixo é uma das mais famosas do PNSC. Observem a sofisticação do emprego de duas cores no animal maior e a impressão de “movimento” dada pelos membros do animal menor quase na horizontal. 

DSC00457

DSC00236

– caranguejo:

DSC00439

– capivara?:

DSC00270

– seria uma lhama?:

DSC00276

– caça ou “criação” de animais?:

DSC00196

Continuo no próximo post com novas figuras, de outros temas. Não sei quanto a vocês, mas eu não me cansava de ver estas pinturas, pois atiçam minha imaginação quando penso que foram feitas entre 12.000 e 6.000 anos atrás.