(Meu) Roteiro das Missões

Tive a sorte de encontrar a guia Vera, entusiasmada e incansável, que topou fazer comigo, em um dia, um puxado roteiro de visita a vários locais da região missioneira. Recomendo buscarem a Vera, que é altamente capacitada para guiar os visitantes pelas ruínas da região (ela me autorizou a colocar o nome dela aqui. O seu telefone pode ser facilmente obtido na Pousada das Missões ou na entrada do sítio arqueológico de São Miguel).

Começamos cedo, saindo de São Miguel das Missões e fomos direto para São Nicolau, a pouco mais de 100 km, já bem próxima do Rio Uruguai, que separa o Brasil da Argentina. São Nicolau é uma cidade bem pequena, daquelas em que se vai buscar a chave do museu municipal na casa da funcionária responsável.

As ruínas de São Nicolau são interessantes e eu digo que vale a pena o esforço para chegar lá. Em especial, o que mais encanta é a grande quantidade de assoalho ou piso original, que se encontra onde um dia foi a igreja. Também há vestígios bastante notáveis do “cabildo”, local onde os caciques indígenas administravam a comunidade indígena sob supervisão e orientação dos padres.

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(abaixo, foto dos restos do “cabildo” de São Nicolau, ou “prefeitura”, digamos assim, da redução):

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É bom que se diga que os jesuítas nunca obrigaram os índios a integrar as reduções – mesmo que quisessem, eram tão poucos que não poderiam fazê-lo. Os índios é que buscavam “reduzir-se” (no sentido de passar a integrar as reduções), pois lá encontravam um sistema eficiente de produção de alimentos, aprendiam meios de se defender de bandeirantes e submetiam-se a uma disciplina incomparavelmente mais benévola do que nas mãos dos fazendeiros espanhóis, que empregavam o sistema servil das encomiendas. Os líderes indígenas tradicionais eram admitidos nas reduções e mantinham sua precedência sobre a comunidade, embora, naturalmente, devessem observar a disciplina jesuítica.

Em São Nicolau há uma boa mostra do sistema de armazenamento de água e, ainda, uma “adega” na qual alimentos e vinho eram estocados abaixo da terra, em condições mais propícias à sua preservação. A tradição vinícola nestas terras missioneiras, porém, praticamente se perdeu, ao contrário do ocorrido na Serra Gaúcha.

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No retorno a São Miguel, almoçamos em São Luís Gonzaga, cidade que se situa no local da redução de mesmo nome, mas que não guarda mais vestígios da época. A seguir, paramos em São Lourenço Mártir, com importantes vestígios da fachada da igreja e também, supõe-se, dos aposentos dos padres, que normalmente ficavam adjacentes à igreja.

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Em seguida, paramos no Santuário do Caaró e ali eu tomei conhecimento da história dos Mártires das Missões, os padres jesuítas espanhóis Roque González, Alfonso Rodríguez e Juan de Castillos, que foram, ainda na primeira tentativa de estabelecimento das reduções jesuíticas (em 1628) martirizados a mando do cacique guarani Nheçu, que viu com maus olhos o crescente número de índios que se convertia ao Cristianismo.

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Conta-se que González foi assassinado com golpes de machadinha na cabeça, também sendo morto o padre Rodríguez e que os índios esquartejaram os corpos e atearam fogo a eles e também à capela onde ocorrido o crime. Castillos também foi morto, mas em outra localidade. Ainda segundo a tradição, no dia seguinte, os índios retornaram ao local e viram que o coração de González não havia se queimado, motivo pelo qual perfuraram-no com flechas. O coração de González foi trasladado para Assunção, no Paraguai (onde o padre nasceu) e encontra-se lá exposto como relíquia em uma igreja, pois, misteriosamente, não se corrompeu com o tempo. Os três padres foram canonizados por João Paulo II em 1988 e o Santuário do Caaró foi construído no local do martírio. O local onde se situa o Santuário é muito bonito, há uma fonte de água tida como milagrosa. 

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Seguindo viagem, chegamos ao sítio arquológico de São João Batista, local onde consta que os jesuítas implantaram, imaginem!, uma fundição de ferro e aço. Nesta região do Rio Grande do Sul abundam rochas com alto teor de ferro.

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Em São João Batista vi pela primeira vez uma árvore de erva-mate (Ilex paraguaiensis). Eu gosto bastante de chimarrão (gosto muito de chás, em geral), então desta vez acabei comprando, sob a supervisão de Vera, um kit para chimarrão (a cuia, a bomba e a erva) e trouxe para São Paulo. No hotel, houve imensa boa-vontade de várias pessoas para me ensinar a preparar o chimarrão, o que não é exatamente fácil. Eu não imaginava que a erva-mate fosse procedente de uma árvore grande assim, sempre imaginei que se tratasse de um arbusto. E ela produz frutinhos escuros:

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Ainda em São João Batista há um monumento dedicado a Antônio Sepp von Rechegg, padre austríaco fundador da redução e dotado de incríveis capacidades como arquiteto, escultor, minerador e produtor de instrumentos musicais.

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No dia do retorno a Passo Fundo, parei para conhecer a Catedral “Angelopolitana” em Santo Ângelo, que também era um dos 7 Povos. A catedral tem uma bela fachada e foi construída exatamente sobre o local onde havia a igreja da redução jesuítica de Santo Ângelo Custódio. Há, nas laterais da catedral, o que chamam de “museu aberto” com as escavações da estrutura da igreja original. Eu achei curioso saber que existe uma catedral dedicada ao Anjo da Guarda

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Com isto e com a inestimável ajuda da Vera, consegui visitar 6 (contando ainda São Miguel das Missões, claro) dos 7 Povos das Missões. A exceção foi São Borja, que fica bastante afastada dali e que, da mesma forma que São Luís Gonzaga, não tem vestígios das reduções, que é o que mais me interessaria.  São Borja é a terra de muitos políticos, como Getúlio Vargas e João Goulart.

Com isto termino o relato do meu fim-de-semana prolongado na Região das Missões Gaúchas. É um passeio que vale muito a pena, pela história e pela hospitalidade gaúchas.Tenho a lamentar o fato de que, justamente no fim-de-semana da minha visita, ocorreu a maior tragédia da história do Rio Grande do Sul (e uma das maiores do Brasil), em Santa Maria. Enterei-me do tema logo cedo, ao pegar o carro para ir embora, pelo rádio. Na estrada, acabei passando por cidades que não ficam muito longe de Santa Maria.

Os 7 Povos das Missões e as Guerras Guaraníticas

Os jesuítas em duas ocasiões tentaram estabelecer-se à margem oriental do Rio Uruguai, região conhecida como El Tape, de propriedade espanhola, com o objetivo de catequizar os índios guarani pelo sistema das reduções.

O chamado Primeiro Período da História Missioneira se deu entre 1609 e 1641 e teve como protagonista e idealizador o Pe. Roque González de Santa Cruz, nascido em Assunção, quem, a partir da primeira missão, em San Ignacio Guazú (hoje no Paraguai) lançou as bases do sistema reducional. Em 1626, no lado oriental do Rio Uruguai, fundou a missão de São Nicolau, acompanhado de outros dois jovens padres jesuítas espanhóis: Juan de Castillo e Alfonso Rodríguez. Nos anos seguintes, outras missões foram implantadas no hoje Rio Grande do Sul, nas proximidades das atuais cidades de São Borja, Ijuí, além da redução de Caaró (em guarani: erva amarga).Em 1628, estes três padres foram martirizados por ordem do cacique guarani Nheçu.

Outros jesuítas, porém, deram prosseguimento à implantação das reduções, trazendo uma novidade, que mudaria para sempre a região: o gado bovino.

As reduções, porém, eram sujeitas a um grande flagelo: os bandeirantes provenientes de São Paulo. Os bandeirantes eram verdadeiros caçadores de índios, mão-de-obra mais barata do que a importada da África. O fato de os índios passarem a adotar um estilo sedentário (e não mais nômade) com as reduções, facilitava o trabalho dos bandeirantes, que conseguiam, assim, capturar muitos índios de uma vez só e levá-los para São Paulo.

Havia hesitação por parte da Coroa espanhola em permitir que armas fossem entregues aos índios e jesuítas, de forma que as investidas paulistas eram crescentes. O bandeirante Raposo Tavares (cujo nome foi dado a uma importante rodovia paulista) foi um destes que assolaram as missões jesuíticas do Tape. Em meio a este cenário, houve dispersão generalizada dos índios guarani e a experiência das reduções frustrou-se.

Apenas a partir de 1682 é que os jesuítas ganharam novo fôlego para empreender o projeto reducional, do qual eram entusiastas. Inicia-se assim o Segundo Período da História Missioneira, com a fundação de 30 povos espalhados entre os atuais territórios do Paraguai, Argentina e Brasil, sendo que em 1732, quase 150 mil guarani estavam, voluntariamente, integrando alguma destas reduções.

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Na margem oriental do Rio Uruguai, 7 destes povos foram implantados e as missões estavam assim dispostas (o mapa apresenta algumas inconsistências na localização exata das missões, mas é claro ao enquadrá-las no que depois veio a ser o Brasil):

Os Sete Povos

Os jesuítas eram metódicos e estabeleciam regras claras para o funcionamento das reduções. Durante dois dias da semana, os índios homens trabalhavam para a produção de alimentos para a coletividade (tupambaé) e nos outros quatro dias trabalhavam para a produção de alimentos para a sua família (abambaé). No domingo, era proibido trabalhar, devendo assistirem à missa e a catequese (que era ministrada em língua guarani). Havia grande fartura alimentar, em especial de carne bovina e ovina, milho, trigo, cevada e algodão.

No início, chegou-se a proibir a utilização da erva-mate (Ilex paraguaiensis), conhecida desde tempos imemoriais pelos guarani, uma vez que a erva era utilizada em cultos animistas. Mas os jesuítas perceberam, com o tempo, que era melhor que os índios consumissem o mate do que o cauim, um fermentado alcóolico.

Todas as reduções eram estabelecidas em uma grande praça na qual estavam a igreja, as casas dos índios, as casas dos padres, a casa do cabildo (as lideranças tradicionais, os caciques ou pajés, foram mantidas), o cotiguaçu, o cemitério e o local das hortas.

Havia escolas e aos índios era oferecido o contato com a arte (arquitetura, pintura, escultura, música). Conta-se que finos instrumentos musicais eram produzidos nas missões e que os corais de índios em nada deviam aos melhores corais europeus. Até experimentos com imprensa e astronomia chegaram a ser realizados.

A administração da justiça era decidida pelos líderes indígenas sob a supervisão dos jesuítas. Aos (raros) casos de homicídio e outros delitos atrozes era aplicada a pena de prisão perpétua. Delitos de menor importância acarretavam, em uma primeira vez, apenas a advertência. Na reincidência, a pena era de 10 chibatadas em praça pública.

Havia estrita fidelidade dos jesuítas e dos guarani à Coroa Espanhola.

Mas eis que, em especial pela astúcia portuguesa, os dois países ibéricos sentaram-se para renegociar os limites entre seus domínios na América do Sul, dada a obsolescência do Tratado de Tordesillas.

Em 1750, portanto, assina-se o Tratado de Madrid, pelo qual, dentre outras disposições, Portugal cedia à Espanha a Colônia do Sacramento, no Rio da Prata e, em compensação, receberia as terras à margem oriental do Rio Uruguai. Estabelecia-se que os padres jesuítas espanhóis e os índios deveriam sair das agora terras portuguesas, abandonando todos os seus bens, exceto os de uso pessoal.

MAPA - HISTÓRICO - BRASIL - POVOS DAS MISSÕES

Esta notícia foi devastadora para as missões. Os padres e também os guarani sentiram-se traídos pela Espanha, a quem sempre juraram fidelidade e decidiram que não iriam arredar os pés das reduções, compreendendo os guarani que aquelas terras não eram portuguesas nem espanholas, mas eram suas (daí a famosa frase pronunciada pelo guerreiro guarani Sepé Tiaraju: Ko yvy oguereko yara, “esta terra tem dono”).

Deu-se início às guerras guaraníticas (que eclodem em 1754), tendo, de um lado, os indígenas liderados por Sepé Tiarajú e, do outro, espanhóis vindos de Montevidéu e Buenos Aires aliados aos portugueses vindos do Rio de Janeiro.

Os indígenas, que conheciam muito melhor os campos de combate, ofereceram inesperada e tenaz resistência às incursões ibéricas, mas, em 1756, Tiajaru foi assassinado, na Batalha de Caiboapé, causando a derrota das tropas guaranis.

Os jesuítas, em 1759, foram expulsos de todas as terras portuguesas e, em 1767, de todas as terras espanholas. As reduções entraram em profundo declínio até que desapareceram. No séc. XIX, houve a repovoação das áreas dos 7 Povos, inclusive com imigrantes alemães, italianos e poloneses.

Na entrada da cidade de São Miguel das Missões há um portal com muitas alusões às guerras guaraníticas, inclusive a estátua de Tiaraju e sua famosa frase:

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Missões Jesuíticas dos Guaranis: San Ignacio Miní, Santa Ana, Nuestra Señora de Loreto e Santa María Mayor (Argentina); Ruínas de São Miguel das Missões (Brasil)–jul/2009 e jan/2013

Do minúsculo aeroporto de Passo Fundo até a cidade de São Miguel das Missões são quase 260 km, praticamente todos eles na BR-285, que corta horizontalmente o centro-norte do Rio Grande do Sul e é uma das favoritas dos argentinos rumo às praias catarinenses.

Saí às 13:00 de São Paulo e às 18:00 já estava em São Miguel, a tempo de me alojar na Pousada das Missões, passear pelo Sítio Arqueológico (eu retornaria a ele no dia seguinte) e assistir ao espetáculo Som e Luz que é diariamente realizado no verão às 21:30. No verão o sítio fica aberto até às 20:00.

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O Som e Luz, basicamente, é uma narrativa poética (e às vezes um pouco confusa) sofre os eventos históricos que ocorreram na região dos 7 Povos da Missões, mesclando-se com jatos de luz na preservada fachada da Igreja e em outros pontos das ruínas. Estando em São Miguel, penso que vale a pena ir a este show, mas conhecer um pouco da história do lugar traz qualidade à experiência. O ingresso para o espetáculo custa R$ 5. 

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Os 7 Povos da Missões (“povo” aqui tem o sentido de “povoado”, “vila”, da mesma forma que a palavra espanhola pueblo) eram as sete reduções jesuíticas fundadas à margem oriental do Rio Uruguai – motivo pelo qual também são chamadas de Missões Orientais. Todas se situavam no que hoje é o Rio Grande do Sul, mas foram implantadas quando o território ainda pertencia formalmente à Espanha, em razão do Tratado de Tordesillas.

Os jesuítas implantaram, a partir do final do séc. XVII as seguintes reduções (ou povos): São Francisco de Borja, São Luís Gonzaga, São Nicolau, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista e Santo Ângelo Custódio (o “custódio” refere-se à idéia de “anjo guardador” ou “anjo da guarda”).

Em São Miguel estão as ruínas da redução de mesmo nome e que são as mais bem preservadas dos 7 povos e, no que tange à fachada da igreja, eu diria que trata-se da mais preservada de todas as reduções (incluindo as paraguaias e argentinas). O sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo foi inscrito como Patrimônio da Humanidade em 1983 – e, no Brasil, apenas ele.

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Embora as reduções brasileiras (com a ressalva de que não foram padres portugueses e/ou brasileiros que as criaram e que sequer o território era português) sigam o padrão das demais reduções jesuíticas da região dos Rios Paraná e Uruguai, com mesma arquitetura, sob o mesmo comando e sob a mesma filosofia jesuítica (trato disto tudo no blog, procurar nas categorias “Paraguai”, “Argentina” e “Bolívia”), elas apresentam um fascinante diferencial.

É que apenas os 7 Povos foram palco das Guerras Guaraníticas, a respeito das quais discorrerei em apartado, pois o tema é muito interessante e merece um pouco mais de minúcia. 

Há muito o que ver no Sítio Arqueológico de São Miguel. Ele se situa nas franjas da pequena cidade homônima e, além da igreja, cuja estrutura impressiona muito, dois outros elementos também são destaque: a torre da igreja (25 metros de altura) e o cotiguaçu.

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O cotiguaçu (em guarani: casa grande) era a parte das reduções jesuíticas que abrigavam as viúvas, as mulheres que não se casaram e os órfãos (os meninos só podiam ficar até a adolescência). Homens não podiam entrar. Esta foi a forma que os jesuítas encontraram para proteger as mulheres vulneráveis das reduções.

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A cruz que compõe com a fachada da catedral uma foto-postal do sítio arqueológico (acima) é a única remanescente dos 7 Povos. Não há certeza se o sino que se encontra no adjacente Museu é o que foi colocado na torre da Igreja de São Miguel.

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Falando do Museu (situado dentro do sítio arqueológico), para ele foram levadas várias peças de madeira e argila recolhidas das missões e, posteriormente, das casas dos repovoadores (habitantes que reocuparam esta parte do Rio Grande do Sul a partir do séc. XIX). A casa onde se situa o museu foi projetada por Lúcio Costa, o mesmo que projetou Brasília. O acervo lá é bastante interessante:

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Embora ensinados pelos jesuítas, os índios com o tempo acabaram transferindo um pouco da estética guarani para as imagens. Notem como isto é evidente neste rosto:

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Uma (rara) imagem de Deus (a Primeira Pessoa da S. Trindade), com a declaração “Ego Sum” (“Eu Sou”, Exôdo 3,14).

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A fachada da Igreja de São Miguel é espetacular. Nela é possível notar vestígios da pintura original, conforme relatado pela Vera, que me guiou por quase todos os 7 Povos. Fiquei surpreso por saber que a pintura era branca! Imaginem como isto devia ser bonito…

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Até gárgulas os jesuítas ensinaram os guarani a esculpir:

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Alguns europeus que visitaram as Missões (tanto durante quanto após a sua vigência) ficavam estupefatos em ver templos como este construídos pelos índios, igrejas comparáveis às da Europa, inclusive no tamanho! E isto que as reduções abrigavam, cada uma, não mais que 6 ou 7 mil índios. Os jesuítas entendiam que suplantar este número comprometeria a ordem e o desenvolvimento. Então, quando uma redução crescia muito, logo os jesuítas deslocavam parte da população para fundar outra redução. Estas igrejas comportavam, possivelmente, 4 mil pessoas…

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Continuo a tratar do tema nos próximos posts.

Rio Grande do Sul no feriado

Esta escapada em janeiro (no feriado municipal paulistano do dia 25) foi para concluir o circuito de visitas a todos os Patrimônios da Humanidade ligados às missões jesuíticas na América do Sul – faltava, justamente, a parte brasileira deles.

Em jul/2009 visitei as ruínas de San Ignacio Miní, na Província de Misiones, Argentina, onde estão os restos arqueológicos mais impressionantes de todas as missões argentinas que compõem, junto com São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, este PH inscrito pelos dois países, em conjunto, em 1983. A bem da verdade, o Brasil foi quem inscreveu primeiro São Miguel das Missões em 1983, mas a Argentina conseguiu a extensão do PH em 1984 para incluir as suas 4 outras localidades.

Minha ida até San Ignacio Miní envolveu o aluguel de um carro em Foz do Iguaçu, Paraná e um longo trajeto pelas planícies da Província de Misiones até quase a sua capital Posadas (San Ignacio Miní fica antes para quem vem do Brasil). Lembro-me de que fez um belo dia de sol e que a visita guiada foi muito interessante.

Em jun/2011 fui à região de Córdoba, na Argentina, onde há várias igrejas ligadas ao trabalho dos jesuítas. Aqui para visualizar. 

Depois, em out/2011 fui ao Paraguai para visitar as ruínas de Trinidad e Jesús de Tavarangue (Departamento paraguaio de Itapúa), cuja descrição completa está aqui. As ruínas paraguaias, como expliquei lá, fundamentalmente inserem-se no mesmo contexto histórico-geográfico das ruínas no Brasil e da Argentina. Mas, por outros motivos, foram inscritas pela UNESCO separadamente, de forma que compõe um PH separado, reconhecido em 1993.

Ainda em out/2011 e nov/2011, estive na Bolívia (Departamento de Santa Cruz) para ir às sensacionais missões jesuíticas dos chiquitos (Concepción e San Xavier), inscritas em 1990,  com suas marcantes diferenças, descritas aqui.

Portanto, para “fechar” este circuito, era necessário ir ao Rio Grande do Sul (Estado onde já estive antes outras vezes, na capital e na Serra Gaúcha) para visitar as ruínas de São Miguel das Missões. Há mais ruínas jesuíticas no RS, mas apenas as de São Miguel são Patrimônio da Humanidade. Fico contente em poder voltar à região Sul do país, após tantas idas praticamente seguidas ao Nordeste.

O fato de os restos arqueológicos brasileiros terem ficado por último não foi casual: do ponto de vista logístico, são as mais difíceis de serem alcançadas a partir de São Paulo. Para chegar lá tenho que embarcar em um vôo regional (São Paulo – Passo Fundo/RS), pela companhia Avianca e, no aeroporto de Passo Fundo, alugar um carro e conduzir por mais de 250 km até a cidade de São Miguel das Missões,  no noroeste do Rio Grande do Sul. Definitivamente, não é o mais fácil dos PH a ser alcançado…

De toda forma, eu fazia questão de visitar a parte brasileira do PH, embora já tenha visitado a parte argentina anteriormente. Com isto, as Ruínas Jesuíticas de São Miguel das Missões são o 17.º Patrimônio da Humanidade no Brasil que visito, num total de 19. São, ainda, o último dos 12 PH culturais do Brasil que eu ainda não havia visitado.

Patrimônios da Humanidade no Brasil

O Brasil tem 19 lugares reconhecidos como PH, dos quais 12 são patrimônios culturais e 7 patrimônios naturais. A lista é a seguinte, com a ordem de inscrição feita pela UNESCO e a bandeira do Estado onde se localiza. Com a exceção do Parque Nacional do Pantanal, visitei todos os Patrimônios da Humanidade no Brasil.

CULTURAIS:

1 – Cidade Histórica de Ouro Preto – 1980 MG;

2 – Centro Histórico da Cidade de Olinda – 1982    PE;

3 – Missões Jesuíticas dos Guaranis – São Miguel das Missões – 1983 Flag of Rio Grande do Sul  RS (em conjunto com a Argentina);

4 – Centro Histórico de Salvador da Bahia – 1985  BA;

5 – Santuário de Bom Jesus de Matosinhos – Congonhas– 1985 MG;

6 – Brasília – 1987 –Bandeira do Distrito Federal (Brasil).svg DF;

7 – Parque Nacional da Serra da Capivara – 1991 – PI;

8 – Centro Histórico de São Luís – 1997 – MA;

9 – Centro Histórico da Cidade de Diamantina – 1999 – MG;

10 – Centro Histórico da Cidade de Goiás – 2001 – – GO;

11- Praça de São Francisco – São Cristóvão – 2010 – – SE;

12 – Rio de Janeiro: paisagem carioca entre a montanha e o mar – 2012 –  – RJ.

NATURAIS

1 – Parque Nacional do Iguaçu – Foz do Iguaçu – 1986 –  PR;

2 – Reservas da Mata Atlântica do Sudeste – 1999 – SP e  PR;

3 – Reservas da Mata Atlântica da Costa do Descobrimento – 1999 – BA e  22px-Bandeira_do_Esp%C3%ADrito_Santo_svg ES

4 – Área de Conservação do Pantanal – 2000 – MT e  MS;

5 – Complexo de conservação da Amazônia Central – 2000 – AM;

6 – Ilhas Atlânticas Brasileiras – Fernando de Noronha e Atol das Rocas – 2001 – PE;

7 – Áreas Protegidas do Cerrado – Parques Nacionais da Chapada dos Veadeiros e das Emas – 2001 – GO.