Ottawa, Canadá

A capital do Canadá foi estabelecida por um decreto da Rainha Vitória no séc. XIX para pôr fim à rivalidade entre Toronto e Montreal (algo similar ao que se passou na Austrália). Ottawa hoje é a quarta maior cidade do Canadá, depois de Toronto, Montreal e  Vancouver. Não parece, mas tem quase 1 milhão de habitantes.

Eu gostei muito de Ottawa. Os passeios previsíveis foram os ligados à condição de cidade de capital do país, como o (bem conduzido) passeio pelo Parlamento do Canadá e museus. Mas também curti muito o visual da cidade, à beira do quase congelado rio que deu nome à cidade, além do contato com a produção de maple syrup e o Canal Rideau, Patrimônio da Humanidade, ambos já tratados aqui.

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O Rio Ottawa separa a cidade de Ottawa (na Província de Ontario, de língua inglesa) da cidade de Gatineau (Província de Québec, de língua francesa). Na prática prevalece o bilinguismo dos dois lados.

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Assim que me instalei no Auberge des Arts saí para ir à pé até o Museu Canadense da Civilização, em Gatineau, cruzando uma ponte interprovincial. Ali eu fiquei contente ao ver uma coleção de tótens (típicos da arte indígena do oeste do Canadá), assim como peças e informações a respeito de como os povos indígenas do Canadá sobreviviam às durezas dos longos invernos boreais. Também havia uma exposição sobre um naufrágio que marcou o Canadá tanto quanto o Titanic marcou a Grã-Bretanha, o do Empress of Ireland, que afundou no Rio São Lourenço em 1914.  A arquitetura do museu, por si só, já vale a visita: ele é uma profusão de “ondas” e não há cantos pois (isto eu li no Lonely Planet) pela superstição dos povos originários, maus espíritos escondem-se nos ângulos das paredes.

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O Parlamento fica em uma colina (Parliament Hill) e mesmo que não estivesse seria sempre a referência pela notável Torre da Paz, a mais elevada estrutura da cidade. Saem com frequência tours guiados para visitar o seu interior, oferecidos, naturalmente, tanto em inglês quanto em francês.

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Outro museu que dizem ser imperdível em Ottawa é a National Gallery of Canada, frente ao qual há esta aranha gigante e esquisita. A arquitetura deste museu também é notável, mas eu não fiquei com disposição de ir a ele.

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Maple Syrup

Maple é a árvore que fornece a folha que decora a bandeira do Canadá. Em português, seu nome seria “bordo”, planta do gênero “acer”. Desta árvore extrai-se um líquido levemente adocicado e, uma vez evaporado, obtém-se o xarope de bordo (maple syrup em inglês e sirop d’érable em francês).

 

Os canadenses são apaixonados por este produto, que é muito empregado nas panquecas do café-da-manhã e também produzem com ele balas e “manteiga” de maple syrup.

Eu também adoro e trouxe para casa uma boa quantidade deste xarope – até porque não é fácil achar no Brasil o maple syrup 100% puro como se vende no Canadá a preços acessíveis. Aliás, o mais comum no Brasil é encontrar produtos com ridículos percentuais de maple syrup, como 15% – o resto é de xarope de milho…

Em Ottawa tive a felicidade de ver o processo de extração do líquido com o qual se produz o xarope. É justamente no início da primavera que isto se dá: a árvore precisa de temperatura abaixo de zero à noite e acima de zero durante o dia para fornecer o produto.

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Perfura-se o tronco do bordo (uma perfuração de 10 cm em média) e este balde fica cheio em uma noite. Com 40 litros extraídos do maple, obtém-se, após evaporação da água, 1 litro de xarope de bordo.

Em Ottawa está uma das poucas florestas de maple em área urbana no Canadá e agradeço ao proprietário do B&B onde me hospedei, Pierre, por ter-me levado de carro lá para conhecer – além de explicar todo o processo. Aliás, ter-me hospedado no Auberge des Arts em Ottawa foi uma das minhas melhores decisões nesta viagem.

As crianças, naturalmente, adoram maple syrup: especialmente quando fazem “picolés” de maple, derramando o líquido doce e viscoso sobre uma plataforma com gelo.

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As propridades da árvore de maple já eram conhecidas dos habitantes originários do Canadá, que bebiam o líquido extraído da árvore – que é muito diurético – no início da primavera como forma de se desintoxicar após o inverno, no qual basicamente carnes eram consumidas.

Hoje, 90% do maple syrup canadense é produzido no Québec, mas também produz-se nos Estados Americanos de Vermont, New Hampshire e Nova York.

Achei muito legal tudo isso! E por muito tempo minhas panquequinhas no café-da-manhã serão banhadas com maple syrup canadenses. As balas e a manteiga, infelizmente, já acabaram… 

Canal Rideau–PH n.º 190

O segundo PH canadense que eu visitei (o país tem 17 no total, com destaque para os parques nacionais da Província de Alberta) foi o trecho final do Canal Rideau (pron. ridô) situado na capital do Canadá: Ottawa.

Ottawa tem muitas atrações e o Canal Rideau poderia até passar despercebido do turista mais desavisado de sua importância histórica para o Canadá. Trata-se de uma notável obra de engenharia que culminou com a ligação hidráulica (extensão de 200 km) entre Ottawa e a cidade de Kingston, às margens do Lago Ontario.

A motivação para este duro empreendimento – inaugurado em 1832 – foi a preocupação com uma possível invasão dos norte-americanos e a ligação entre a capital canadense (Ottawa) e um dos grandes lagos, o Lago Ontario, sem a necessidade de passar pelo território estadunidense pareceu importante aos anglo-canadenses no séc. XIX.

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Quando ficou óbvio que os norte-americanos não representavam perigo, o Canal Rideau passou a ser usado para fins comerciais. Hoje em dia, serve mais ao turismo e, no inverno, é a maior pista de patinação no gelo do mundo; no verão, há passeios com barcos. Eu fui no degelo, ou seja, inadequado a ambas as atividades. Sequer pude, como planejei, alugar uma bicicleta para percorrer um trecho do Rideau pois ainda estava muito frio.

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Para a UNESCO, o Canal Rideau é o mais bem preservado exemplo de um canal na América do Norte, demontrando o uso de uma típica tecnologia europeia em larga escala. É o único canal do início do séc. XIX que permanece operacional, com seu traçado original e a maior parte de suas estruturas intacta.

Lembrei-me, visitando este PH, dos canais e elevadores hidráulicos que visitei na Bélgica em dez/2011.

Destinei pouquíssimo tempo ao Rideau, passeei ali embaixo um pouco, mas logo voltei para as demais atrações de Ottawa, que são muito mais interessantes.

Montreal, Canadá

Montreal (fr. Montréal, pron. môn-rêál) foi a minha parada entre Québec e Ottawa. Passei ali três noites, hospedado no centro da cidade, ligeiramente afastado da parte histórica. Mas há metrô em Montreal (a cidade é uma metrópole com 3,4 milhões de habitantes) que vai a praticamente todos os pontos de interesse turístico. No fim de semana há um cartão promocional do metrô que permite viagens ilimitadas por 13 dólares canadenses, um excelente negócio – mas só vale para viagens no sábado e domingo.

Montreal tem a estrutura de uma grande cidade da América do Norte: não fossem os letreiros em francês, seria possível imaginar-se em alguma metrópole dos Estados Unidos. Ali estão as avenidas largas e o traçado da cidade em forma de “grid” (quadriculado), arranha-céus modernos e intenso movimento de veículos e pessoas. Mas há o que se ver por lá.

De tudo o que eu mais gostei foi ter ido ao Estádio Olímpico que hospedou os Jogos em 1976. As Olimpíadas de Montreal ficaram famosas, dentre outras coisas, pela ginasta romena Nadia Comăneci, vencedora de três medalhas de ouro com a nota 10 (isto é, com a perfeição). Fui em um ensolarado sábado à tarde e deparei-me com uma multidão saindo do estádio (apenas terminara um jogo de baseball), mas boa parte do divertimento ocorre no alto da torre que caracteriza o Estádio: ela é incrivelmente inclinada (190 metros de altura a 45º). Lá em cima, além do visual incomparável da cidade de Montreal, há passeios guiados contando a história dos jogos.

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Outro lugar imperdível é a belíssima Basilique Notre Dame e seu “céu estrelado”. Assisti a missa da Vigília Pascal nesta Catedral, em francês. Uma bela celebração com coral e com a iluminação que realçava a glória deste famoso templo.

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Antes da missa eu estive na igreja para visitá-la como turista (paga-se uma taxa de 5 dólares canadenses). Atrás do altar-mor, há uma outra capela, toda em madeira e estilo contemporâneo pois foi reconstruída depois de um incêndio ocorrido em 1978. Este altar-mor, aliás, assim como praticamente todo o interior desta Catedral é construído em madeira, material adequado ao frio canadense. Poucas vezes, na América, estive em uma igreja tão bonita quanto a Basílica de Notre Dame de Montreal.

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Há um enorme museu em Montreal, o Musée de Beaux-Arts que é bastante procurado por quem quer conhecer arte canadense, inclusive dos povos originários (esquimós, inuits, etc.).

Um passeio que curti bastante foi ao Mont Royalum parque em uma região elevada de Montreal, ideal para caminhadas, mesmo em meio à neve e ao frio.

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Próximo ao Mont Royal está uma outra igreja (o Québec sempre foi o bastião católico do Canadá, embora o país tenha, nas últimas décadas, passado por um processo de secularização) muito impressionante: o Oratoire de Saint-Joseph, construído por iniciativa de um padre, Frère André, a quem se atribuem muitos milagres. Frère André foi canonizado em 2010. No dia em que fui, dia de Páscoa, a igreja estava tomada de gente.

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Há várias outras coisas a se fazer em Montreal, mas no terceiro dia eu já estava começando a me entediar. Felizmente, saí em direção à capital do país, a sensacional cidade de Ottawa.

Distrito Histórico de Vieux Québec–PH n.º 189

Quando acordei no avião que estava sobrevoando o Canadá rumo ao Québec, fiquei surpreso ao ver o cenário branco de neve ainda no início de abril. O frio e algumas nevascas me acompanharam durante toda viagem ao Canadá e, ainda que tenham trazido algum incômodo, fizeram com que o cenário dos lugares que visitei ficassem bonitos e, digamos, no clima que “combina” com a imagem que se tem do Canadá. 

Desembarquei em Québec, cidade com mesmo nome da província de que é capital, e fui ao centro histórico (Vieux Québec) que é muralhado – a única cidade colonial cercada por muralhas ao norte do México. Vieux Québec situa-se em um local extraordinariamente bonito: assim como Salvador da Bahia, tem uma parte “alta” e uma “baixa” (Haute Ville e Basse Ville) e do alto podia-se avistar o Rio São Lourenço (Fleuve Saint Laurence). Como já mencionei, próximo a Québec o Rio São Lourenço alarga-se enormemente, funcionando como a via de entrada natural no Canadá.

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Não poderia ser em outro lugar que os franceses viessem a fundar a Nova França na América do Norte. Samuel de Champlain lançou as bases da cidade em 1608 e hoje sua estátua adorna uma praça à borda do promontório, onde também está o majestoso hotel Château Frontenac, que é um dos pontos mais conhecidos de Québec. 

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Dali pode-se passear pela ampla e longa passarela de madeira, o belvedère Terrasse Dufferin para vistas espetaculares do São Lourenço, ainda com enormes placas de gelo. Seguindo-se até o fim, alcança-se a Planície de Abraão, palco da decisiva batalha que, em 1759, assegurou o domínio inglês sobre o Canadá em desfavor da França. Com o vento gelado e temperatura bem abaixo de zero, não era exatamente convidativo, mas eu, que raramente vou a lugares congelados, curti ficar passeando e tentando não escorregar.

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A Basílica de Notre-Dame de Québec é uma das primeiras catedrais do continente e abriga o túmulo de São François (Francisco) Laval, primeiro bispo canadense, canonizado em 2014, junto com a também québécoise Marie de l’Incarnation (ambos na fachada da Basílica). O passado fortemente católico do Québec também pode ser apreciado no Convento Ursulino.

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É legal fazer o passeio à pé pela cidade com a equipe do Les Tours Voir Québec (cobram algo em torno de 25 dólares canadenses por 2 horas de passeio guiado) e com eles vai-se até a parte baixa da cidade, onde está a Place Royale, que pouco mudou nos últimos 400 anos. Pode-se ir à pé à parte baixa ou pelo funicular (que cobra 2,5o dólares).

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Passeios interiores em Québec que fiz e gostei foram ao Parlamento da Província de Québec – achei muito curioso ver uma Casa de Leis funcionando de acordo com as regras inglesas mas em língua francesa – e ao Museu da Francofonia, para alguns insights sobre a experiência francesa na América. Dentre elas, a principal atividade econômica que motivou a vinda dos europeus: a caça de castores, cuja pele era almejada para a confecção de luxuosos casacos. Enquanto o Brasil começou com (ou por causa) de madeira (pau-brasil) e cana-de-açúcar; o México por causa da prata; o Canadá começou por causa das peles dos castores… (A tela abaixo não se encontra em Québec, mas no Musée des Beaux-Arts em Montreal).

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Outro lugar que é muito procurado é a Citadelle, a fortificação militar iniciada pelos franceses em 1750 e reforçada pelos ingleses com receio de uma possível invasão por parte dos norte-americanos, que nunca veio.

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Eu gostei de passear por dois dias e meio em Québec, que é uma cidade relativamente pequena (por volta de 170 mil habitantes) e todo o seu centro histórico pode ser percorrido à pé. Fiquei em um lugar que recomendo: o B&B Manoir de la Tour.