Manágua, Nicarágua

Todos – todos – dizem que não vale a pena perder nem um minuto na Nicarágua ficando na capital Manágua. Eu discordo. Claro, Manágua é uma típica metrópole latinoamericana com subúrbios mal cuidados, tráfego pesado e o risco (quase sempre superestimado) de ser vítima de assalto. Talvez contribuiu para enriquecer minha passagem por Manágua o fato de eu estar lá justamente no dia em que o Partido Sandinista estava em polvorosa: era o 81.º aniversário de morte de ninguém menos que o General Sandino. Aliás, morte não porque bolivariano não morre, mas sim transita a la inmortalidad…

Sandino liderou, na década de 1930, um movimento popular guerrilheiro que se opunha à forte interferência norte-americana na Nicarágua. O principal apoiador dos Estados Unidos, Anastacio Somoza, convidou Sandino para um jantar visando negociar no palácio presidencial e Sandino acabou sendo sequestrado e assassinado. Seu corpo nunca foi encontrado e talvez isto tenha inspirado essa “sombra” de Sandino que se avista desde Manágua.

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Assim que cheguei ao centro da capital, vi filas de gente com flores na mão indo depositá-la em um memorial dedicado a Sandino, em um ritual com notório caráter propagandístico para o regime de Daniel Ortega. À noite vi pela TV que Ortega ficou horas discursando contra os Estados Unidos… O bolivarianismo tem esta coisa de criar heróis para culto nacional: o que ocorre com Bolívar na Venezuela também ocorre com Sandino em Nicarágua.

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Manágua é uma cidade estranha: o centro da cidade, que deveria ser o ponto nevrálgico da nação, tem um ar de quase abandonado e isto se explica: em 1972 Manágua foi devastada por um terrível terremoto de 6,2 pontos na Escala Richter, que matou 6 mil pessoas, feriu 20 mil e deixou pouca coisa de pé na cidade. É que o centro da capital fica justamente em cima de uma falha geológica e não se descarta que novos terremotos possam ocorrer a qualquer momento. Isto explica o fato de a parte nobre da cidade ter se deslocado no sentido sul.

O marco mais visível do terremoto de 1972 é a Catedral de Manágua, hoje em dia abandonada e irremediavelmente abalada. É um imenso monumento fantasma e o relógio de sua torre parou exatamente no momento do sismo e assim se encontra até hoje. Fascinante!

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A nova catedral foi inaugurada em 1993 em uma zona mais segura e é radicalmente diferente da antiga. Se algum dia houver um concurso para escolher a catedral metropolitana mais esquisita do mundo, a de Manágua será uma forte concorrente:

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Ilha de Ometepe, Nicarágua

O ponto alto de minha viagem à Nicarágua foi a Ilha de Ometepe. Fiz a coisa certa: fixei minha base na praia de Santo Domingo, hospedei-me na sensacional pousada Xalli e fiquei ali três dias.

Ometepe é uma ilha formada por dois vulcões (Concepción e Maderas) que emergiram no Lago Nicarágua. Seu nome provém do náhuatl “dois vulcões” e sua área é de 276 km² – mesmo tamanho de São Cristóvão e Névis, o menor país soberano das Américas). Vários ferries e lanchas ligam Ometepe ao povoado de San Jorge (1 hora), mas também há serviços menos frequentes (e muito mais demorados) a Granada ou a San Carlos. A melhor coisa a se fazer é ir até San Jorge (que fica ao lado de Rivas, capital departamental). Negociando em Granada, é possível conseguir que um táxi leve até San Jorge por algo em torno de 40 dólares.

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O vulcão Concepción consegue ter uma forma cônica ainda mais perfeita que o Momotombo e muita gente vai a Ometepe para fazer a duríssima subida até seu cume. Outros optam por ir – o que não é menos difícil – ao vulcão Maderas. Eu preferi fazer um passeio até uma cachoeira no interior da parte sul da ilha (3 horas de bicicleta e 3 horas de trekking) e para mim esta atividade física já estava de bom tamanho.

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O resto do meu tempo dediquei-me a ficar tomando banho no Lago Nicarágua e a ficar estirado na areia da praia bem em frente ao Xalli. É uma verdadeira experiência: a Praia de Santo Domingo parece, em tudo, uma praia de mar, inclusive a cor da água e as ondas. Tudo, menos pelo fato de que a água é doce e a areia é ligeiramente acinzentada (origem vulcânica).

A partir da água do mar era possível ver, um ao lado do outro, os dois vulcões de Ometepe. O Lago Nicarágua é incrível por seu tamanho (8.264 km2 – para se ter uma ideia, a área do Distrito Federal, no Brasil, é de 5.779 km2), sendo quase do mesmo tamanho que o Lago Titicaca (fronteira Peru e Bolívia) que visitei em fev/2014. Ao contrário do Titicaca, porém, o Ometepe tem águas mornas e para banho. O Titicaca, a 4.000 metros de altura, tem águas geladas.

Na maior parte do tempo em Ometepe experimenta-se a mais plácida tranquilidade e silêncio, mas há muitas outras atividades, como buscar sítios rupestres ou ir passar a manhã banhando-se no Ojo de Agua, uma piscina natural de água mineral que escorre a partir do vulcão.

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Granada, Nicarágua

Granada é a capital do turismo na Nicarágua. Fica convenientemente a 45 minutos do Aeroporto Internacional, às margens do Lago Nicarágua e tem um bonito centro colonial com casario de época e igrejas centenárias. Muita coisa na cidade é voltada para o atendimento a estrangeiros anglo-saxãos e muitos deles compraram propriedades na cidade, tornando os imóveis ali muito mais caros que a média nacional. 

Minha visita coincidiu com um festival de poesia que agitava a cidade. Durante vários dias, poetas de várias partes da América Latina se encontraram ali para diversas atividades. A poesia é algo caro à Nicarágua: poetas têm status de heróis nacionais. Até sentei na praça central para ouvir as declamações, mas logo me entediei e fui embora.

Granada pode ser alcançada a partir do Oceano Atlântico por meio do Rio San Juan e pelo Lago Nicarágua. Isto fez com que, no início da colonização, a cidade fosse saqueada por piratas ingleses e franceses. Ao contrário de León, porém, Granada permaneceu no mesmo lugar de sua fundação e, considerando a vista que se tem da catedral com o lago ao fundo (a partir da torre da Igreja de La Merced) tenho que fizeram muito bem!

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É muito gostoso ficar perambulando pela parte histórica de Granada e o centro fica a um quilômetro do lago, que, porém, não é apto para banho em razão da poluição.

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Enquanto eu estava na torre da igreja fazendo a primeira foto acima, vi que uma equipe de televisão estava fazendo uma reportagem sobre o festival de poesia (eles também aproveitaram como pano de fundo a Catedral amarelada e o lago) e o repórter mencionou que Granada está se esforçando para fazer ir adiante sua tentativa de inscrição na Lista do Patrimônio Mundial, o que é provável que ocorra nos próximos anos.

Ruínas de León Viejo–PH n.º 188

Em 1524, enquanto os portugueses ainda não davam muita importância às terras descobertas na América, os espanhóis já estavam a estabelecer cidades no Novo Mundo. León (batizada em homenagem à cidade homônima em Castela, Espanha) teve suas bases lançadas por Fernando Hernández de Córdoba para servir de capital desta região ao norte do Panamá (onde também já haviam se estabelecido). O lugar parecia promissor: às margens de um imenso lago de água doce e com abundância de mão-de-obra indígena, rapidamente subjugada.

León cresceu durante o século XVI e chegou a abrigar mosteiros e uma catedral. León teve uma história muito turbulenta: Hernández de Córdoba foi decapitado por ordem do governador Pedrarias Dávila, que não estava disposto a disputar o poder com o fundador da cidade. Dávila era cruel nos castigos aos índios, inflingindo-lhe, inclusive, o castigo do aperramiento (os índios eram devorados vivos por cães famintos). Ante os protestos do bispo Antonio de Valdivieso, Dávila também não perdeu tempo: mandou matar o bispo.

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Segundo acreditam os nicaraguenses, as barbaridades praticadas em León foram tão absurdas, que os céus resolveram intervir: a cidade foi chacoalhada fortemente por terremotos e o vulcão Momotombo entrou em erupção, cobrindo a cidade de cinzas. Os espanhóis resolveram abandonar León em 1610, fundando outra cidade a uns 30 km de distância do vulcão Momotombo, levando para lá a imagem do Cristo crucificado (na catedral) e a da Virgem das Mercês (na Igreja de la Merced).

O passeio em León Viejo custa 5 dólares e é guiado. Há dois museus bem montados: um trata da fase pré-hispânica (ali moraram índios Nicarao – que acabaram dando nome ao país – falantes do náhuatl, a língua dos astecas) e outro trata da fase colonial.

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Não há muito o que ver em León Viejo: sem conhecer a história do lugar, a visita certamente será decepcionante. Mas a guia que me acompanhou fez um excelente trabalho, apontando fatos relevantes e curiosos ocorridos nestas hoje ruínas de uma cidade que foi abandonada há 400 anos.

Na década de 1960 começaram os trabalhos de escavação no local, sendo descobertos os corpos de Hernández de Córdoba e de Pedraria, que hoje se encontram embaixo deste memorial, que também alude à crueldade do aperramiento praticada com os índios.

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Os restos da Igreja das Mercês podem ser claramente vistos e a imagem da Vírgen de la Merced retorna para cá uma vez por ano para festividades.

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Se as ruínas não são lá grande coisa, a vista do Vulcão Momotombo é linda e já valeria o passeio por si só:

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O lugar é muito sujeito a sismos. Segundo a guia me contou, pode-se sentir chão tremer ali com frequência, algumas vezes com intensidade. Este é o mesmo lago que banha Manágua (Xolotlán).

É possível ir a León Viejo a partir de León com transporte público (a entrada para as ruínas fica na estrada León-Manágua), mas isto envolve ter que parar na cidade de La Paz e dali tomar outro eventual ônibus para o lugarejo de Puerto Momotombo e dali ainda caminhar em torno de 1 km. Preferi combinar com o proprietário da pousada Fuente Castalia – altamente recomendada – que me levasse com seu próprio carro até as ruínas, gastando um pouco mais de dinheiro, mas economizando tempo e paciência.

Catedral de León–PH n.º 187

Ao contrário do que ocorre na Europa, onde são muitas as catedrais inscritas por direito próprio na Lista da UNESCO, na América, o mais comum é a inscrição do “centro histórico” ou da “cidade antiga” de lugares representativos do passado colonial. Apenas dois são os outros casos de  igrejas que se destacam a ponto de serem inscritas per se –  Santuário do Bom Jesus (MG/Brasil) e Santuário de Jesus Nazareno de Atotonilco (Guanajuato/México). Então eu supunha que a Catedral de León, Nicarágua, fosse algo verdadeiramente fora do comum, o que ela é, em parte.

Inicialmente, chama a atenção o tamanho: considerando que a Nicarágua é um pequeno país e que León é uma cidade média para padrões do continente, sua catedral é, de fato, desproporcional em tamanho e a razão histórica para isto é que Manágua foi instituída como capital da Nicarágua apenas em meados do séc. XIX, tendo León ocupado, em grande medida, esta função nos primeiros 350 anos da Nicarágua.

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A Catedral de León tem traços marcadamente neoclássicos, com alguma influência barroca e é um formidável exemplo, como aponta a UNESCO, justamente de transição do barroco para o neoclássico. Seu nome completo é Insigne e Real Basílica Catedral da Assunção da Bem Aventurada Virgem Maria e foi construída entre 1747 e 1814.  Abriga uma das mais antigas imagens cristãs da América, o Cristo Negro de Pedrarias, originariamente colocada na igreja situada em León Viejo e posteriormente trazida para León.

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Na Catedral de León está enterrado um dos heróis nacionais nicaraguenses: Rubén Darío, uma unanimidade tanto para sandinistas como para não-sandinistas. Rubén Darío (1867-1914) é chamado de El príncipe de las letras castellanas e foi o principal representante do modernismo literário em língua espanhola. Recordo-me que, quando fiz um curso em Madrid/Espanha em 2005, saltava na estação de metrô Rubén Darío e não fazia a menor ideia de quem seria este personagem.  Seu túmulo é guardado por um leão notoriamente entristecido – há outros fora da catedral muito menos amistosos que este:

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O guatemalteco Diego José de Porres y Esquivel foi o responsável pelo projeto e por boa parte de sua execução. Houve preocupação com a atividade sísmica – que é um problema generalizado na parte ocidental da Nicarágua –, de modo que no subsolo da catedral podem ser visitadas as criptas projetadas para servirem, segundo contam, para absorver parte da energia destrutiva dos terremotos. Vê-se, ali, rachaduras que parecem confirmar a informação. Também favorece a catedral neste sentido, é evidente, a robustez de suas grossas paredes.

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A visita à nave central da Catedral é gratuita e deve ser feita naturalmente fora dos horários de missa para não disturbar os assistentes. A catedral oferece 3 tours ao preço de 80 córdobas (ou 3 dólares) cada um: o tour para conhecer as criptas, em algumas das quais enterradas pessoas de importância na Nicarágua; outro para visitar o claustro e, o melhor de todos, o tour para visitar o teto da Catedral.

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Após a inscrição da Catedral de León na Lista da UNESCO e até por exigência da UNESCO, iniciaram-se os trabalhos de restauração do templo, o que começou pelo teto. Dali avista-se praticamente toda a cidade – são raras em toda a Nicarágua qualquer construção mais elevada pelo risco de desabamento em caso de terremotos – e, ainda, da cadeia de vulcões que corta a região.

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Trata-se da Cordilheira dos Maríbios, com muitos vulcões ativos como o Momotombo, o Cerro Negro e o Telica. Sensacional! Ao fundo na foto acima, o cone quase perfeito do Momotombo, o mesmo que expulsou León Viejo de suas encostas e levou León a se estabelecer onde está hoje.

Com a reforma que fizeram no teto, tudo está pintado com o mais ofuscante dos brancos e ali é possível ver os detalhes dos campanários, de algumas estátuas e as bóvedas.

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É evidente que a Catedral de León, Nicarágua (faço questão de frisar o país porque León também é nome de uma importante cidade na Espanha onde também há uma estupenda catedral) não é o maior, nem o mais importante, nem o mais bonito templo cristão das Américas. Mas talvez seja tudo isto no contexto da América Central e, em razão disto, penso que se justifica sua inclusão na Lista dos Patrimônios da Humanidade.

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