Novas tentativas de Patrimônios da Humanidade da Tailândia: Chiang Mai e Wat Suthat, Bangkok

A Tailândia fez inserir em sua lista de Tentativas para PH a cidade de Chiang Mai, com o título: Monumentos e Paisagem Cultural de Chiang Mai, a capital dos Lanna http://whc.unesco.org/en/tentativelists/6003/.

Comentei sobre Chiang Mai aqui: http://www.aender.com.br/?p=6863 

Também noticia-se que a Tailândia apresentará em breve a proposta de inclusão de Wat Suthat e o Pórtico Gigante (Sao Ching Cha) em Bangkok, o que seria o primeiro PH em Bangkok, a esplêndida capital da Tailândia. É curioso que Wat Suthat não está entre os mais famosos e visitados templos budistas de Bangkok, como Wat Phra Kaew, Wat Pho ou Wat Arun.

Não entrei em Wat Suthat embora tenha-o visto por fora no caminho de volta para o meu hotel e também lembro-me de ter passado os olhos no Sao Ching Cha, uma estrutura em madeira situada em uma praça em frente ao templo e antigamente dedicada a festividades hinduístas. A região onde estão Wat Suthat e o Sao Ching Cha, aliás, concentra a comunidade hindu de Bangkok e cheguei a entrar em um templo hindu ali.

http://thainews.prd.go.th/centerweb/newsen/NewsDetail?NT01_NewsID=WNSOC5802220010042

Eu gostaria de retornar um dia a Bangkok.

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O “alfabeto” tailandês

Durante meses eu tentei decifrar o alfabeto tailandês. Para mim é um grande barato descobrir que som faz uma determinada letra e como estas letras se combinam para formar sons de palavras (mesmo que eu não entenda o significado da palavra). Se isto iria ajudar ou não na Tailândia, era algo que eu estava pagando para ver.

Já no meu primeiro dia em Chiang Mai, perdido, consegui entender que o wat (templo) onde eu estava não era o wat que eu procurava lendo a placa em tailandês na entrada. Neste mesmo dia, dentro de um outro templo, tornei-me o centro das atenções de um grupo de monges budistas que me viram tentando ler umas coisas escritas em tailandês. Em Nakhon Si Thammarat consegui pegar o ônibus certo apenas lendo a placa กระบี่ e volta e meia algum tailandês puxava assunto comigo espantado por ver um farang (estrangeiro) lendo estas letras. 

É bom que se diga que, a rigor, a escrita tailandesa não é um alfabeto. Nas escritas fonéticas (isto é, quando um símbolo representa um som) o alfabeto é a escrita na qual consoantes e vogais têm o mesmo status e são símbolos autônomos. É o caso do alfabeto latino, do cirílico, do grego, do georgiano, armênio, etc.

Ocorre que também há escritas fonéticas em que as vogais são omitidas ou são opcionais ou é de se presumir o som vocálico a partir da leitura da consoante. A isto se chama um abjad e é o sistema, por exemplo, do árabe e do hebraico. No caso do hebraico, até há símbolos que representam as vogais, mas elas são usadas apenas por crianças (niqqud). Com o tempo, espera-se que o leitor da língua hebraica consiga ler as palavras sem a maioria das vogais. A palavra “SEFER” (livro, em hebraico) é escrita assim: ספר, isto é “SFR” (lembrando que o hebraico escreve-se da direita para a esquerda), cabendo ao leitor presumir as vogais entre as consoantes. Isto é um abjad e não um alfabeto.

Há ainda a escrita silabárica, na qual um símbolo tem o som não de um fonema mas de uma sílaba (compreendida enquanto uma consoante + uma vogal). Os dois “alfabetos” fonéticos da língua japonesa (há, ainda, a escrita logográfica ou pictográfica, na qual os símbolos transmitem “ideias” e não necessariamente sons), hiragana e katakana são silabários: portanto para escrever “kimono” usam-se três símbolos: ki + mo + no (きもの). Acaso as sílabas fossem ka + ma + na, seriam usados símbolos completamente diferentes.

Por fim, e aqui se enquadra o tailandês, há a escrita abugida. Nela, o elemento principal é a consoante e as vogais vão sendo acopladas de forma secundária às consoantes. Às vezes, em uma abugida, as vogais acabam sendo omitidas também. São abugidas, além da escrita tailandesa, os diversos alfabetos brâmicos (usados nas línguas da Índia), a escrita amárica (usada na Etiópia) e o coreano.

Portanto, a primeira coisa a se aprender no tailandês são as consoantes. Elas são 44, muito além do necessário para os sons consonantais do tailandês (isto tem uma razão histórica) e isto faz com que, por exemplo, haja nada menos que 6 letras para representar o som “t” aspirado (‘th’, como em time do inglês e não como o ‘t’ de tempo em português): ฑ, ฒ, ฐ, ท, ถ e ธ.

Também há 4 letras para o som “s” (como em sapato) e 5 para o “kh” (o som “k” aspirado como em can do inglês), etc.

Daí que chega-se à primeira e óbvia conclusão: na melhor das hipóteses, alguém que estude apenas a escrita tailandesa e não a língua tailandesa jamais conseguirá ter competência ativa para escrever corretamente palavras em tailandês. Isto porque não é possível saber qual letra escolher para representar o som, pois são plurais as possibilidades. O máximo que se pode almejar, estudando apenas o alfabeto, é a aptidão passiva para ler a abugida tailandesa: Isto é, ao ver ทะ eu sei que o som será “tha”, mas se me pedirem para escrever uma palavra cujo som seja “tha”, eu tenho apenas uma chance em seis de acertar…

Portanto, para se conseguir apenas esta competência passiva, o ideal é agrupar as letras que fazem o mesmo som e estudá-las em conjunto. Assim, aprender que o som de “l” pode ser obtido pelas letrase , ao passo que o som de “h” (aspirado, como em inglês) é representado porou, etc.

As vogais… bem, as vogais são 28 e dividem-se entre as longas e as curtas: é o som “a” alongado e é o som “a” curto. As vogais jamais podem ser escritas como eu fiz aqui, isoladas. Tratando-se de uma abugida, elas precisam estar conectadas a uma consoante.

Algo estarrecedor no tailandês é que as vogais podem vir depois da consoante, embaixo da consoante, em cima da consoante, na frente na consoante (!) ou gravitar em torno da consoante (mais de um símbolo vocálico para produzir um único som vocálico). A própria palavra: THAI escreve-se ไทย, isto é, AI-T-I, sendo que a vogal (ditongo) “ai” vem na frente da consoante “th” à qual é acoplada. É árduo aprender as vogais em tailandês porque, por exemplo, é necessário combinar vários símbolos vocálicos para formar um único som. Eu aprendi apenas os mais fáceis e úteis como o som “a” que pode vir em cima ou na frente, o som “e” que vem antes da consoante, o som “i” que normalmente vai em cima, o som “o” que pode vir antes, depois (ou nem vir) e o som “u” que vai embaixo da consoante.

Tudo isto que eu já disse não é nem o início da dificuldade da abugida tailandesa: as consoantes podem mudar de sons dependendo de sua localização, na palavra: exemplo, o “r” vira “n” se vier escrito na final da palavra, etc. Além disto, o tailandês é uma língua tonal e há sinais (diacríticos) indicativos do tom que aquela sílaba deve ter: ascendente, descendente, etc. Errar o tom significa não se fazer compreender, simples assim.

Mais ainda, vários sons da língua tailandesa não correspondem exatamente aos sons que, tipicamente (ao menos nas línguas da Europa Ocidental) são representados pelo alfabeto latino: assim pode ser “g” ou “k”, mas a bem da verdade é um som entre “g” e “k”… E como se não bastasse, os tailandeses não são lá muito propensos as separar as palavras, isto é, é comum escrevertudojuntoassimdessejeito.

Há quem considere que a abugida tailandesa é o mais complexo sistema escrito fonético do mundo (não há termo de comparação, porém, com o sistema logográfico), ao passo que a escrita coreana é considerada a mais fácil (eu tenho a tendência a concordar com isto, o “alfabeto” coreano é tão fácil que pode ser aprendido em algumas horas).

Não é minha intenção aqui “ensinar” a escrita tailandesa, até porque eu mal a conheço. Mas, uma vez obtida a tábua com as consoantes e as vogais do tailandês, é possível com algum esforço ir compreendendo e memorizando os sons que fazem, de tal modo que, eu garanto!, vai-se conseguir ler alguma coisa na Tailândia e a sensação de “conquista” valerá todo o esforço.

Por exemplo, eu queria visitar um templo em Ayutthaya e acabei chegando lá “entendendo” os sons desta placa abaixo: Luang Pho Lokayasutha (Phranan). O que significa isto eu não faço a menor ideia: mas cheguei ao Wat Lokayasutharam…

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Não que seja fundamental aprender o alfabeto tailandês para “se virar” na Tailândia. Longe disto. Mas saber, ainda que rudimentos, do alfabeto tailandês aumenta a qualidade da viagem à Tailândia.

Se alguém tiver o mesmo interesse que eu tive, minha sugestão é: para começar assistir a alguns tutoriais no YouTube e, para treinar, pode-se acompanhar as legendas de videoclips de músicas em tailandês, em especial, as “sad songs” (cantadas de forma mais devagar) que os tailandeses tanto amam…

https://www.youtube.com/watch?v=NbWe8rHvAlQ

É impossível não valer a pena aprender mais um alfabeto, mesmo que seja por hobby.

Railay, Tailândia

Ir ou não ir à praia na Tailândia? Esta dúvida me atormentou por muito tempo durante o planejamento da viagem e mesmo durante ela. O argumento contrário: ir ao outro lado do mundo para ir à praia, quando se mora no Brasil? O argumento a favor: Não há praias assim no Brasil.

O intenso calor fez pesar a decisão a favor de ir e a temporada na praia foi um dos pontos altos da viagem.

Ao escolher a praia, eu desde logo descartei aquelas que são mais famosas e propensas a atraírem mochileiros europeus bêbados. Daí que Phuket e Ko Phi Phi ficaram para trás, embora esta última talvez não seja bem assim. A facilidade de acesso à região de Krabi pelo aeroporto desta cidade me levou a esta região que fica na Costa de Andaman.

As duas cidades mais importantes ali são a própria Krabi e Ao Nang, com praias razoáveis, mas as cidades não são interessantes. Felizmente, optei por ficar num pedaço de paraíso: Railay (ou Railey), recôndido e alcançado apenas por barcos (15 minutos a partir de Ao Nang; 40 minutos a partir de Krabi).

Em Railay estão aquelas rochas calcárias incríveis que emergem do mar e formam um visual inconfundivelmente ligado à Tailândia (embora haja similares também no Vietnã). A vantagem de Railay é que o lugar é bem pequeno, não há carros e há várias praias em diferentes regiões, todas alcançáveis facilmente à pé.

Experimentei chuvas todos os dias durante a estadia em Railay, mas estas chuvas ocorreram durante a tarde (tive as manhãs e o início das tardes ensolaradas) e não duravam muito tempo.

Eu gosto muito de praia. Um dia inteiro relaxando em uma praia é uma das imagens mais recorrentes que tenho ligadas às férias. Então, e acrescentado-se o diferencial destas praias idílicas da Tailândia, teria sido uma péssima decisão deixar passar a oportunidade de conhecer Railay.

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Embora haja um fator que dificulte a chegada a Railay, os turistas que se hospedam em Ao Nang ou Krabi costumam vir a Railay para passar uma parte do dia. Daí que quem se hospeda em Railay costuma ter estas praias quase com exclusividadade bem no início na manhã e depois do meio da tarde.

As “barracas” de praia em Railay são barcos que servem inclusives pratos da culinária tailandesa. Genial.

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Em Railay tive meu primeiro banho de mar no Oceano Índico (que eu havia, até então, apenas visto em Eilat, na costa do Mar Vermelho. O Índico tem outros grandes destinos de praia, basta lembrar: Seychelles, Maldivas, Moçambique, etc.

Wat Phra Mahathat Woramahawihan, Nakhon Si Thammarat, Tailândia

A Tailândia tem planejado apresentar à deliberação do Comitê do Patrimônio Mundial em 2015 e 2016 duas tentativas para inscrição como Patrimônios da Humanidade: mais umas reservas de florestas tropicais (Complexo Kaeng Krachan, na Província de Phetchaburi) e um dos mais antigos e importantes templos budistas do sul da Tailândia: Wat Phra Mahathat Woramahawihan, situado na cidade de Nakhon Si Thammarat. Ambos têm boas perspectivas de inscrição já que a Tailândia é sub-representada na Lista da UNESCO.

Estando em Railay (Província de Krabi) curtindo algumas das praias mais lindas que já vi na vida olhei o mapa da Tailândia e vi que Nakhon Si Thammarat não parecia muito longe. Bastava cruzar o estreito istmo e ir do Mar de Andaman para próximo do Golfo da Tailândia. De fato, menos de 200 km separam Krabi de Nakhon Si Thammarat então decidi ir… mesmo morrendo de pena de perder um dia que seria dedicado ao mais prazeroso dolce far niente nas cálidas águas de Railay…

A viagem revelou-se uma aventura e tanto: barco de Railay até Ao Nang, tuk tuk de Ao Nang até a rodoviária de Krabi e uma van dali até Nakhon Si Thammarat. Ao sair de Krabi imediatamente saí da área onde há turistas nesta parte da Tailândia e, portanto, nada de inglês, nada de alfabeto latino e constantes olhares dirigidos a mim como que indagando “o que este cara está fazendo aqui?”…

Viagens com vans pela Tailândia envolvem, invariavelmente, música tailandesa em altíssimo volume (tampões de ouvido são essenciais para evitar uma crise nervosa). Em três horas cheguei a N. S. Thammarat e me deixaram em frente ao templo, que é bastante extenso.

O  Wat Phra Mahathat Woramahawihan (tai. วัดพระมหาธาตุวรมหาวิหาร) foi e é um importante templo budista em uma região em que, embora seja Tailândia, o Islã fez incursões e veem-se mesquitas com muito mais frequência que em outras partes do país. Há mesmo, mais ao sul, na fronteira com a Malásia, províncias que são majoritariamente muçulmanas com insurreições locais (e atividade terrorista) contra o governo central.

Além dos templos propriamente ditos, há um notável chedi branco em estilo do Sri Lanka, o Chedi  Phra Baromathat, com 78 metros de altura, construído no séc. XIII e rodeado por 173 outros chedi. Abriga, segundo diz-se, um dente do Buda e sua base é ladeada por corredores que abrigam estátuas do Buda. É um interessante wat embora não possa ser considerado o mais impressionante da Tailândia em seu estilo.

A importância do Wat Phra Mahathat Woramahawihan reside no fato de que foi o principal centro propagador do Budismo no sul da Tailândia durante séculos, afirmando-se a identidade tailandesa nesta região. O templo é um dos mais antigos no estilo do Sri Lanka a abrigar relíquia do Buda.

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Este templo ganhou fama em toda Tailândia, nos últimos tempos, em razão de uns amuletos ali fabricados, que se dizem milagrosos, chamados de Jatukham Rammathep, mas eu não entendi bem o que eles são e exatamente para que eles servem…

Após a visita ao wat imediatamente busquei retornar a Railey (mais três horas de van, mais um tuk tuk, mais um barco…), uma jornada cansativa e apreensiva porque não sabia até que hora os barcos estariam disponíveis para o retorno ao meu hotel. No fim e ao cabo, até hoje tenho uma pontinha de arrependimento de ter deixado de passar um dia na praia para alcançar esta Tentativa de Patrimônio da Humanidade. Mas acho que, se em 2016, esta inscrição ocorrer, este meu arrependimento deixará de existir.

Complexo de Florestas Dong Phayayen-Khao Yai–PH n.º 184

Como se vê pelo nome, este Patrimônio da Humanidade engloba várias áreas de florestas preservadas que se estendem desde o oeste da província de Nakhon Ratchasima até a fronteira com o Camboja. Fui ao Parque Nacional Khao Yai, um dos integrantes deste complexo, um dos mais antigos e mais visitados parques naturais da Tailândia.

Tem-se aqui uma das últimas florestas tropicais de monções, com grande biodiversidade vegetal e animal. Toda esta biodiversidade é reflexo da grande variedade do terreno: há desde planícies até elevados superiores a 1000 metros.

Khao Yai também apresenta muitas cachoeiras, inclusive a famosa Tok Haew Suwat que foi mostrada no filme A Praia (filme este que foi responsável, em parte, pela explosão do turismo na Tailândia). Há muitas possibilidades de trekkings e de observação de animais. As estrelas são, claro, os elefantes asiáticos (há 200 no parque) e os raríssimos tigres da Indochina.

A melhor forma de visitar Khao Yai (digo isto porque tive que pesquisar profundamente a melhor forma de fazê-l0) é contratando uma agência de turismo que se encarregue de buscar o visitante na estação de trens de Pak Chong (cidade-base para o parque), do alojamento e do passeio de dia inteiro. O Lonely Planet é enfático em recomendar a agência Greenleaf e eu endosso a recomendação: http://www.greenleaftour.com/

Além de agência de turismo, a Greenleaf tem alojamento situado nos arredores de Pak Chong (e restaurante também). Fiz dois passeios com eles: um que começa às 15:00 e outro de dia inteiro.

Este passeio mais curto passa por uma caverna, em uma piscina natural e vai a um local, onde, no cair da noite, uma quantidade assombrosa de morcegos sai de uma caverna para sua refeição noturna em um voo sincronizado, como que uma serpente alada e barulhenta:

https://www.youtube.com/watch?v=qG2rPWgYBiw&feature=youtu.be

No passeio de dia inteiro é que se ingressa efetivamente no Parque. Os guias têm um olhar treinado para localizar serpentes, aves e macacos que, de fato, pudemos ver. A grande expectativa era encontrar algum elefante selvagem e, após uma extensa caminhada por dentre a floresta (na qual não encontramos nenhum elefante), acabamos por visualizar um próximo à estrada quando já estávamos na condução.

Não se deve alimentar esperança de ver um tigre selvagem: é mais fácil ganhar na loteria que avistar um.

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Já fui a outros Patrimônios da Humanidade Naturais que têm ecossistemas parecidos com os que sou habituado no Brasil (Florestas de Gondwana e Wet Tropics of Queensland, na Austrália, por exemplo), o que os torna relativamente monótonos para mim (bem ao contrário de PH Naturais com ecossistemas radicalmente diferentes, como os Glaciares e Península Valdés, na Argentina). Ter avistado um elefante selvagem, portanto, fui crucial para que eu curtisse o Khao Yai.