Cingapura

Assim que desembarquei no Aeroporto Changi, com mais de 20 horas de jet lag e com uma conexão suficiente para dar uma olhada em Cingupura, fui atrás do tour gratuito oferecido pelo próprio aeroporto. Cometi um erro que quase pôs tudo a perder: a reserva para o tour deve ser feita antes da imigração. Mas, com dois passaportes na mão, foi possível sair-entrar-sair-entrar na área internacional do aeroporto no mesmo dia.

A reserva para o tour precisa ser feita em um guichê em até uma hora antes do seu início. Chegada a hora, todos vão acompanhando uma guia até um ônibus e dali até o centro de Cingapura. A guia vai contando algumas curiosidades (como o fato de o país ter quatro estações bem definidas: verão, verão, verão e verão) e vai apontando alguns pontos de interesse pelo caminho. Há apenas uma parada na chamada Esplanada onde se situa o Merlion e de onde se tem uma impressionante vista do Marina Bay Sands e dos modernos prédios de Cingapura.

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O Merlion – metade peixe e metade leão – foi criado nos anos 1960 para ser um símbolo turístico do país. “Cingapura” em malaio (uma das línguas oficiais) significa “Cidade do Leão”. Lembrando que Cingapura tem 4 línguas oficiais…

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O Marina Bay Sands, inaugurado em 2010, rapidamente também se transformou em um símbolo de Cingapura. É um hotel-cassino-shopping, com 2.561 quartos e calcula-se que seja um dos prédios mais valiosos do mundo.

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O tour era cronometradíssimo e, após mais um passeinho pela cidade, tomou o rumo de volta ao Aeroporto. Como era de graça, tudo bem. Mas na volta, quando teria mais 10 horas para explorar Cingapura, eu planejei visitar a cidade-país por minha própria conta.

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Assim, mais uma vez desembarcando em Changi tomei um táxi e fui diretamente para os Jardins Botânicos de Cingapura, sobre os quais falei aqui.

Saindo dali visitei o Museu Peranakan em um bonito imóvel colonial e cujo acervo tenta explicar o que é ser um “peranakan”, isto é, descendentes dos primeiros imigrantes que foram a Cingapura (especialmente chineses, mas também malaios e indianos). Em suma: Cingapura é uma cidade que “resume” a Ásia e ali estão comunidades étnicas e religiosas das mais variadas. Templos hindus, mesquitas, igrejas, templos chineses estão às vezes lado a lado.

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Gostei de ter passeado pelo Hotel Raffles também em um imóvel colonial. O Raffles (batizado em nome do fundador de Cingapura) é um daqueles hotéis centenários e com uma lista de hóspedes famosos. No Raffles foi criado um coquetel chamado Singapore Sling, à base de gim e suco de abacaxi, que eu adorei.

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Cingapura me pareceu bastante ocidentalizada e a Orchard Rd (a avenida do comércio de luxo) poderia estar em Londres, Nova York ou qualquer outra metrópole desenvolvida do mundo. Isto me motivou ir ao Bairro Indiano para jantar. Fui andando mesmo (uns 30 minutos) desde a Esplanada.

A Little India é um barato! Músicas, produtos e cheiros que remetem à Índia, mas com a limpeza e a organização que são marca registrada de Cingapura.

Dali uma taxista me levou até o último ponto: o Gardens by the Bay, mais um “produto” fabricado por Cingapura sob medida para se tornar uma atração turística. À noite, há espetáculos com as altas “árvores” com luzes de led e música…

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Dali tomei um táxi de volta para o Aeroporto. Como Changi é o melhor aeroporto do mundo, por uns trocados, tomei um relaxante banho em um hotel que é acoplado ao aeroporto. De banho tomado e cansado, estava pronto para voltar para São Paulo.

Cingapura nunca será meu país preferido. Mas eu não vou achar ruim fazer uns “stops” lá quando for à Ásia. 

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Jardins Botânicos de Cingapura

No meu voo de volta para o Brasil, tive 10 horas para ir do Aeroporto Changi até o centro de Cingapura e visitar o que pudesse neste tempo. Para não desperdiçá-lo, tomei logo um táxi e pedi que me deixasse nos Jardins Botânicos de Cingapura. Saltei já dentro dos jardins, próximo da área mais famosa: o Orquidário. Ali está uma das maiores coleções mundiais de orquídeas e laboratório de inúmeras variedades híbridas. A entrada ao Orquidário, ao contrário de todos os outros pontos dos Jardins Botânicos, é paga (5 dólares de Cingapura).

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Os Jardins Botânicos de Cingapura me fizeram recordar imediatamente o dia que passei visitando os Jardins de Kew, em Londres, com os quais têm uma óbvia conexão histórica já que Cingapura foi colônia britânica e os dois jardins botânicos complementavam-se, tendo em vista a diferença de clima entre a Grã-Bretanha e Cingapura (que está muito próxima da Linha do Equador).

Foi nestes jardins botânicos que a Inglaterra fez experimentos com uma árvore nativa da Amazônia Brasileira, a seringueira, que obteve por contrabando. Após dominar a técnica do cultivo, os ingleses espalharam plantações pelo sudeste asiático (em especial na Malásia) levando o extrativismo brasileiro ao declínio e Manaus (a capital da borracha) à falência.

Em Kew Gardens havia estufas para abrigar plantas acostumadas ao clima quente. Em Cingapura havia recintos com ar condicionado para cultivar orquídeas menos adaptadas ao calor, que é úmido, intenso e sufocante neste pequeno país.

Fui a outras partes dos Jardins Botânicos de Cingapura, inclusive uma parte dedicada ao gengibre e assemelhados (Ginger Garden). Há também uma parte dedicada às plantas medicinais, que eu mal visitei pois minha camisa já estava completamente suada e eu precisava buscar algum lugar com ar condicionado.

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Soube que há performances de orquestas em um lugar especialmente construído para isto dentro dos jardins e acabei encontrando-o, meticulosamente cuidado, como tudo, aliás, em Cingapura.

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Monumento a Chopin:

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Os Jardins Botânicos de Cingapura, embora fundados ainda no período britânico (séc. XIX) foram preservados e embelezados após a independência (em 1965) para, inclusive, cumprir com a meta do todo-poderoso Primeiro-Ministro Lee Kuan Yew de transformar Cingapura em uma “Cidade Jardim”, título que até hoje ela divulga.

A visita aos Jardins Botânicos de Cingapura é agradável e eu, se morasse em Cingapura, iria visitá-lo com frequência. Não são tão extensos como os Kew Gardens mas também não são tão longe do centro da cidade (há estação de metrô próxima de uma das entradas).

Cingapura, que ratificou a Convenção do Patrimônio Mundial apenas em 2012, já apresentou os Jardins Botânicos para consideração do Comitê do Patrimônio Mundial e em 2015 há boas chances de que eles venham a ser inscritos como Patrimônio da Humanidade. 

República de Cingapura – 2014

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Minha visita à República de Cingapura vai se dar da seguinte forma: tanto na ida para a Tailândia quanto na volta do Camboja faço conexão no Aeroporto de Changi, em Cingapura. De forma proposital, fiz com que ambas as conexões demorassem muitas horas de modo a que pudesse ter contato com este pequeno notável país asiático. Tudo aqui soa excelente: a Singapore Airlines (companhia que escolhi a dedo para esta viagem) é considerada uma das melhores do mundo (3.º lugar no ranking Skytrax 2014), o Aeroporto de Changi foi considerado, em 2014, também pela Skytrax o melhor do mundo, Cingapura tem a 3.ª maior renda per capita do mundo de acordo com o FMI (atrás apenas de Luxemburgo e do Catar) e está sempre no topo (ou quase no topo) das listas de países mais competitivos, com melhor educação, etc. Enfim, Cingapura é um caso de sucesso!

Moram lá 5,5 milhões de habitantes em apenas 718 km², o que o torna o segundo país soberano mais densamente povoado no mundo (atrás apenas de Mônaco). Três quartos da população têm origem chinesa e o restante é composto de malaios, indianos e expats do mundo todo. Cingapura era uma pequena e pantanosa cidade situada em uma ilha no Estreito de Johor, que separa a Malásia da Indonésia e teve seu destino mudado para sempre quando o inglês Sir Thomas Stamford Raffles ali chegou em 1819 para assegurar a localização estratégica deste lugar para o Império Britânico. Após ter drenado os pântanos e projetado o centro urbano (até hoje o traçado urbano corresponde ao lançado por Raffles), Cingapura começou a enriquecer com a atividade portuária e comercial e nunca mais parou. Durante a II Guerra Mundial, Cingapura foi invadida pelos japoneses, mas depois de um breve retorno aos ingleses, juntou-se à Federação Malaia, da qual se desligou em 1965 para tornar-se definitivamente independente. As línguas oficiais de Cingapura são o inglês (predominante), o mandarim, o malaio e o tâmil. A moeda do país é o forte Dólar de Cingapura, que circula livremente também em Brunei Darussalam.

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Cingapura segue o padrão de alguns países asiáticos que conciliam um ambiente extremamente favorável à economia e aos negócios com um regime político que, aos olhos ocidentais, poderia ser considerado autoritário. O Partido da Ação Popular lidera o país desde a independência com líderes fortes como Lee Kuan Yew e seu filho, atual Primeiro-Ministro, Lee Hsien Loong. O país é conhecido por leis que castigam severamente infrações como cuspir no chão ou andar com durian (uma fruta parecida com a jaca, popular na Ásia, mas que tem um cheiro absurdamente ruim) no metrô. A venda de chicletes é proibida no país e ai de quem levar chicletes para lá e cuspi-los no chão! O tráfico de drogas é punido com a morte e pichações causam punições corporais: os pichadores levam uma surra determinada por um juiz. Esta última pena eu apoiaria (e aplicaria) com muita satisfação em São Paulo!

Algo que me deixou bastante impressionado foi o fato de que o Aeroporto de Changi (que não fica muito longe das principais atrações de Cingapura) tem tours que levam passageiros em conexão para passeios de duas horas pela cidade, passando por vários lugares. Estes tours ocorrem várias vezes por dia e também à noite e são completamente gratuitos. Changi, aliás, não é o melhor aeroporto do mundo à toa: ali há piscina, cinema, uma área verde para relaxar, etc., tudo à disposição dos passageiros.

Cingapura não tem lugares inscritos na Lista dos Patrimônios da Humanidade da UNESCO. Sua paisagem é marcadamente urbana (mal há espaço para qualquer outra coisa) e moderna, embora alguns prédios históricos ainda existam. O país apresentou uma Tentativa, porém, à UNESCO: os Jardins Botânicos de Cingapura, que eu pretendo visitar possivelmente fora de um destes tours, para ir com um pouquinho mais de tempo. Considerando que a UNESCO tem uma não-declarada política de que todo país deve ter ao menos um PH, é possível que estes jardins um dia entrem para a Lista do Patrimônio Mundial.

Considerando que Cingapura é a conexão quase que obrigatória em muitas rotas pelo Sudeste Asiático, tenho a impressão de que esta primeira ida a Cingapura não será a última. Da próxima vez, prometo a mim mesmo passar um pouco mais de tempo lá.

Por fim, a questão do nome: em português escreve-se Cingapura ou Singapura?

Em inglês ou espanhol esta dúvida não existe: o país é Singapore ou Singapur. Mas em português, ambas as grafias são admitidas (com “s” no Dicionário Aurélio e com “c” no Dicionário Houaiss). Em Portugal predomina o uso de Singapura, mas é perfeitamente admissível e escorreito escrever Cingapura na língua portuguesa culta do Brasil. Eu opto por Cingapura e explico o porquê: muito antes de ingleses e holandeses se aventurarem pela Ásia, os portugueses já haviam desbravado a Índia, a região de Málaca, a China e até o Japão no séc. XVI. Em suas andanças foram batizando e/ou adaptando à língua portuguesa o nome dos diferentes lugares. Assim, historicamente, a pequena ilha no Estreito de Johor foi grafada como Cingapura pelos lusos. Posteriormente, a versão inglesa Singapore passou a influenciar Portugal que abandonou o “c” e passou para o “s”, tendo esta sido a sua proposta na Reforma Ortográfica de 1945 que foi rejeitada pelo Brasil.

Portanto, eu tenho que a adoção de Singapura (que é perfeitamente válida, repita-se) nada mais é que curvar-se a um anglicismo injustificável, já que a língua portuguesa grafou Cingapura antes de a língua inglesa grafar Singapore. A

Eu não estou sozinho: o Manual de Comunicação do Senado Federal adota Cingapura e a Embaixada deste país em Brasília chama o seu próprio país de… Cingapura!

Para saber mais:

http://www12.senado.leg.br/manualdecomunicacao/faq/cingapura-ou-singapura-ecos-ecoam-aqui-da-tv-o-nome-de-cingapura-seria-grafado-com-201cs201d-apos-o-acordo-ortografico-2014-singapura-2014-como-em-portugal.-o-nome-original-me-dizem-aqui-e-singapore-com-201cs201d.-como-o-assunto-foi-tema-de-discurso-hoje-1

http://www.mfa.gov.sg/content/mfa/overseasmission/brasilia/bp.html