De Sarajevo a Mostar

Da capital bósnia até Mostar, cidade de 70 mil habitantes na região da Herzegovina, leva-se pouco mais de duas horas de ônibus. O cenário no caminho é muito bonito, em especial a partir do momento em que a estrada vai margeando o Rio Neretva.
Este rio corta a cidade de Mostar e é sobre ele que o sultão Suleiman mandou construir a Stari Most (bósnio: Ponte Antiga) em 1567, uma obra que, à época, representou um grande feito em termos de engenharia.
A ponte construída pelos otomanos aguentou firme até 1993, quando, no contexto da Guerra da Bósnia, foi bombardeada por tropas croatas e afundou no Neretva, um dos momentos mais tristes e sem sentido de todo o conflito.
Em 2004 ela foi “recuperada” (como preferem dizer os bósnios, ao invés de “reconstruída”), utilizando-se as pedras da mesma jazida de onde retiradas as da ponte original e seguindo-se a mesma técnica de construção e as mesmas ferramentas. A réplica é perfeita.
Em 2005, a Stari Most e a parte antiga de Mostar foram inscritas pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade.
Vou fazer um post específico e mais detalhado sobre este PH e, por hora, deixo uma foto noturna da ponte, que acabei de fazer:

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Mostar é muito mais turística que Sarajevo e a ponte estava lotada de turistas no meio da tarde. Agora, à noite, acho que boa parte dos turistas voltou a Dubrovnik e Mostar está tranquila e sossegada, felizmente.

Sarajevo – 1

Sarajevo, a capital da Bósnia e Herzegovina, é uma cidade incrivelmente interessante e acredito que foi injusta a decisão da UNESCO de rejeitar a sua inclusão na Lista do Patrimônio Mundial em 1999, embora ela continue na Lista de Tentativas do país.
Sarajevo faz lembrar imediatamente Istambul e também se parece um pouco com Belgrado e isto tem tudo a ver com os laços históricos com o Império Otomano e com a Iugoslávia. Há ainda muitos prédios do período Austro-Húngaro.
É delicioso ficar perambulando de dia ou à noite pela área “turca” da cidade, a Baščaršija, pelas margens do Rio Miljacka, vendo suas pontes históricas, assim como andar pela principal artéria turística da cidade, que emenda as avenidas Sarači, Ferhadija e Maršala Tita (Marechal Tito).
Tudo isto sem contar os pontos alusivos às tragédias que esta cidade viveu, a começar pelo assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono austro-húngaro, em 1914, pelo terrorista sérvio Gavrilo Princip, que foi o estopim da I Guerra Mundial. Isto aconteceu em Sarajevo ao lado da Ponte Latina (Latinska Ćuprija). E, claro, a cidade ainda possui as marcas da Guerra da Bósnia, terminada há 18 anos apenas.
No caminho do aeroporto para o hotel Bejturan pude ver vários imóveis ainda cravejados de balas, herança dos 3 anos em que Sarajevo ficou sitiada por tropas sérvias, mas minha expectativa maior é com o tour de 3 horas que reservei e que vai aos pontos emblemáticos deste conflito que marcou a década de 1990, chamado Times of Misfortune.
Ao lado da Catedral Católica de Sarajevo está a exposição Galerija 11/07/95, com fotos e vídeos sobre o Massacre de Srebrenica, no qual, nesta data mencionada, 8 mil bósnios-muçulmanos foram mortos, no pior massacre ocorrido na Europa desde o fim da II Guerra Mundial.
Sarajevo é uma cidade salpicada de mesquitas com seus minaretes pontiagudos, mas o chamado islâmico à oração compete com os sinos das igrejas católicas e ortodoxas, sem descuidar de algumas sinagogas. Fascinante a mistura de Europa com Oriente Médio.
Ainda vou comentar bastante sobre Sarajevo, mas não contive minha empolgação e já adiantei este post.

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Bósnia e Herzegovina – 2013

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Estou na Bósnia e Herzegovina (BeH), país que, ao menos no Brasil, ainda é lembrado pela sangrenta guerra lá ocorrida entre os anos de 1992 e 1995. Vou falar bastante sobre isto, mas, por ora, é necessário compreender o seguinte:
A Bósnia e Herzegovina (nome oficial em bósnio/alfabeto latino: Bosna i Hercegovina; bósnio/alfabeto cirílico: Босна и Херцеговина) tem por volta de 4 milhões de habitantes e área de aproximadamente 50 mil km² (tamanho do Estado do Rio Grande do Norte). O seu nome se dá em razão de duas regiões históricas do país, mas, atualmente, a distinção entre o que é a “Bósnia” e o que é a “Herzegovina” é pouco importante.

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O que importa mesmo é a divisão que foi traçada nos Estados Unidos no chamado Acordo de Dayton, de 1995, pelo qual conseguiu-se pôr fim à Guerra da Bósnia, que já se arrastava por 3 anos e que já havia consumido a vida de 100 mil pessoas. Por este acordo, a antiga República da Bósnia e Herzegovina passaria a ser composta por duas unidades federadas: a Federação da Bósnia e Herzegovina (o nome é infeliz por causar confusão), habitada pelos bósnios muçulmanos (bosniaks) e pelos bósnios-croatas e a República Srpska, habitada pelos bósnios-sérvios. Além disto, também compõe o país o distrito autônomo de Brčko. Pelo Acordo de Dayton, o país mudou de nome, tirando a “República” e ficando só “Bósnia e Herzegovina”.
A Bósnia e Herzegovina hoje é assim:

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A capital do país, Sarajevo, fica na Federação da BeH, ao passo que a cidade de Banja Luka funciona como a capital da República Srpska (“srpska” signifca “sérvia”, mas evita-se traduzir o nome porque logo acima está a República da Sérvia, país soberano, cuja capital é Belgado).
As duas entidades federadas, compostas de povos que acabaram sendo separados depois de séculos vivendo juntos, funcionam com alto grau de autonomia, quase como se fossem independentes, embora usem a mesma língua (o bósnio, que, como direi depois, apenas por razões políticas é um idioma separado do sérvio, do croata e do montenegrino) e a mesma moeda (o marco conversível).
Os três povos que habitam a BeH (sérvios, muçulmanos e croatas) não têm diferenças étnicas. .
Sua diferença é histórico-religiosa. Os sérvios seguem a religião ortodoxa sérvia, os croatas são católicos e os bosniaks descendem das famílias que, durante o período em que a Bósnia integrou o Império Otomano, converteram-se ao Islã. Hoje, na BeH, 45% da população é muçulmana (um percentual notável considerando que este país está quase no coração da Europa), 36% é ortodoxa sérvia e 15% católica.
Eu adoraria ter muito tempo para visitar a fundo a BeH, mas vou limitar-me às duas cidades mais turísticas do país: Sarajevo e Mostar, talvez visitando alguns de seus arredores.
A Bósnia tem apenas 2 Patrimônios da Humanidade: as áreas adjacentes à Stari Most (Antiga Ponte) em Mostar e, curiosamente, outra ponte, situada em Višegrad (República Srpska), a Ponte Mehmed Paša Sokolović. Mas há várias Tentativas de Patrimônios da Humanidade, incluindo a própria capital, além de muita coisa nos arredores de Mostar. Nos arredores desta cidade, aliás, encontra-se Međugorje, lugar de peregrinação mariana, que meus pais visitaram em 1988, ainda nos temos da Iugoslávia (junto com Mostar e Dubrovnik, na Croácia).
A Bósnia e Herzegovina tem, na minha opinião, um belíssimo hino nacional. Quem quiser ouvir: