Parque Nacional Grand Étang e Gouyave, Granada

Não que alguém sinta falta de nada estando em Grand Anse. Mas é que o interior de Granada também oferece prazeres ao turista. Eu gostei de ter ido tomar banho em algumas cachoeiras no interior do país, que é acidentado (Granada é uma ilha de origem vulcânica) com altitude que ultrapassa os 500 metros em pouco tempo, mudando-se o clima de quente para fresco.

A cachoeira mais próxima (e mais visitada, em especial pelos turistas de cruzeiros) é a de Annandale (pagam-se alguns dólares do Caribe do Leste para acessá-la), mas é dentro do Parque Nacional Grand Étang que estão as ótimas Seven Sisters Falls, com poço delicioso para banho. É necessário fazer uma trilha fácil de uns 40 minutos para chegar lá e não é imprescindível ter guia (eu fui sem, já que o meu livro-guia da Bradt me era suficiente). No caminho, fiquei contente quando localizei árvores de noz-moscada, cujo fruto é símbolo de Granada (vide a bandeira do país)!

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Nas sextas-feiras há na cidade litorânea de Gouyave (uns 30 km acima de St. George’s por uma estrada assustadoramente sinuosa) o Fish Friday. Não é nada demais: umas barracas que vendem todo tipo de peixe e mariscos fritos ou preparados segundo a culinária caribenha em uma rua obscura de Gouyave. Não fosse a lagosta que eu comi (e que não foi barata!) talvez eu tivesse me arrependido de ir. Mas tudo é uma questão de proporção: em um país de 110 mil almas, aquelas barraquinhas ali são um grande evento e o Fish Friday foi instituído justamente para angariar recursos para reparar as casas destruídas pelo Furação Ivan. 

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Granada é uma ilha que oferece muito ao visitante. Eu curti muito meus cinco dias lá e teria apreciado ficar muito mais.

Matsuri de Saijō (Hiroshima)

Minha estadia em Hiroshima coincidiu com um dos principais festivais da região: o matsuri (festival) da pequena cidade de Saijō, cidade a meia hora de trem da estação de trens de Hiroshima. A Prefeitura de Hiroshima é uma grande produtora de saquê. O matsuri era, justamente, a festividade pela colheita do arroz (que ocorre no outono), ingrediente básico da produção da principal bebida alcoólica do Japão.

As barraquinhas de comida se espalhavam pela rua principal da cidade, havia inclusive uma de comida brasileira, na qual os japoneses podiam provar os misteriosos pastéis de carne e queijo e a exótica coxinha. O que valeu mesmo foi ter provado um takoyaki (bolinho de polvo) negro, com a tinta do próprio animal.

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Mas a animação estava no recinto onde ocorria a degustação de centenas de tipos de saquês, vindo de todas as partes do Japão, desde a setentrional Hokkaido até o meridional Kyushu. O participante, após pagar a quantia de ¥ 1.600 (R$ 50,00) recebia uma tacinha para ir degustando os saquês nas diferentes barracas, sempre dentro daquela organização afiada que caracteriza tudo no Japão. Além disto, recebia uma brochura com todos os saquês que estavam sendo oferecidos. Para mim, impossível ler a brochura e, então, minha tática era: eu chegava ao balcão escolhendo a região do saquê que gostaria de provar e pedia: おすすめ おねがいします! (Osusume, onegaishimasu! Sugestão, por favor!), ao que se seguia a pergunta: あまぇ? からえ? (Amae? Karae? Doce ou seco?) e estava tudo resolvido!

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Um cartaz na entrada advertia que o saquê não mais seria servido acaso se notasse que o participante já estivesse embriagado, mas esta regra claramente não foi respeitada (ou a percepção de embriaguez no Japão seja distinta da que eu tenho)…. Eu mesmo saí bastante, digamos, abalado, do matsuri.  

O saquê é bebida fermentada (não destilada), com teor alcoólico similar ao vinho. Mas de tacinha em tacinha faz o seu estrago… Na volta, cheguei a dormir e deixar a passar o trem na parada em Hiroshima e quase fui parar em Yamaguchi, muitos quilômetros à frente.

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O saquê é bebida que eu gosto, embora não a aprecie como os vinhos. Mas em Saijō pude perceber que, no Japão, o saquê atinge um grau de refinamento e sofisticação que possivelmente o iguale no trato a que é dado ao vinho na França ou na Itália.

Fui reconhecido por Yukari, que trabalha no hotel Reino Inn, onde eu estava hospedado e juntei-me à sua turma para dar prosseguimento à degustação de saquê. Foi muito divertido!

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Uma coisa que me chamou a atenção no matsuri foi a extrema preocupação dos japoneses com o lixo e o destinado que é dado a ele. Isto se percebe já no primeiro instante no Japão, mas num festival como este foi espantoso ver que a cidade continuava limpa e reciclando seu lixo, de acordo com suas diferentes modalidades. Abaixo, a foto da “Estação do Lixo”:

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O chão continuou, durante toda a festa, impoluto. Por que não conseguimos ser assim no Brasil? Não estou nem falando de reciclar o lixo produzido a qualquer momento (estágio do Japão), estou falando na extrema falta de educação e respeito de jogar lixo no chão!

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Foi muito legal ter tido esta experiência no Japão!

Wāshoku–A tradicional comida japonesa

A culinária japonesa é uma das mais difundidas no mundo. Suponho que em qualquer “área de alimentação” de qualquer shopping center que se preze no mundo haverá ao menos um estande de comida japonesa. Em minhas viagens pelos cinco continentes sempre me deparo com restaurantes de comida japonesa onde quer que seja.

No Brasil, dada a forte influência nipônica (há mais de 1 milhão de nipodescendentes), os lugares para se comer sushi e sashimi (por que fala-se sempre nesta ordem?), yakisoba ou mais recentemente, temakis (há centenas de temakerias em São Paulo) estão por todos os lados. Diz-se que em São Paulo já há mais restaurantes de comida japonesa que pizzarias e olhem que São Paulo é a capital da pizza!

As inovações são impressionantes: sushis de morango e cream cheese (!), temakis com manga e até com acarajé (!!)… Penso que as inovações até são bem-vindas. O triste, porém, é ver e principalmente comer a comida japonesa mal feita: arroz mal cozido ou cozido demais, arroz de sushi doce ou avinagrado (sem equilíbrio), peixes mal cortados, guiozás pingando óleo, etc. A popularização da comida japonesa trouxe a sua massificação e a perda de qualidade.

Por isto, uma viagem ao Japão vale inclusive pelo contato com a Wāshoku: a tradicional culinária japonesa. Ela, inclusive, foi inscrita na Lista dos Patrimônios Imateriais da Humanidade (que não se confunde com a Lista dos Patrimônios da Humanidade, que me interessa mais particularmente).

Segundo a UNESCO, a Washoku é uma prática social baseada em um conjunto de habilidades, conhecimentos e tradições relacionadas à produção, processamento, preparação e consumo de alimentos no Japão, com impressionante aproveitamento de ingredientes como arroz, peixes e frutos do mar, chá (com a folha da Camellia sinensis), soja, algas e outros produtos.

Fiz questão de transcrever a análise da UNESCO porque, de fato, uma refeição tradicional no Japão tem muita coisa além da comida: é quase um ritual, no qual outros sentidos humanos além do paladar são provocados: o que se vai comer deve ser belo e estar em belos pratos ou recipientes e o aroma é fundamental.

Tive duas grandes experiências com a washoku: a servida no restaurante do hotel Ranzan, na região de Arashiyama em Kyoto (primeira sequência de fotos) e em um pequeno mas maravilhoso restaurante também em Kyoto, onde pude experimentar ingredientes nobres e raros até mesmo para os consumidores japoneses (segunda sequência de fotos). Experiências sublimes e inesquecíveis. Se eu tivesse ido ao Japão apenas para comer, a viagem teria valido apena!

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Notem que a Washoku privilegia o sabor individualizado dos ingredientes, sem grandes misturas e as frituras são raras ou inexistentes. Há uma prevalência de produtos protêicos e a cada pequena porção há uma bebida específica para harmonização. Os recipientes são ajustados e visam incrementar visualmente a experiência gastronômica.

Na sushi-ya (restaurante especializado em sushis) do Sr. Sakamoto, onde tivemos uma recepção praticamente familiar, o banquete foi o que segue abaixo:

Não são azeitonas!, mas o fruto de um pinheiro japonês:

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O corte rosado é da barriga do atum (meu peixe predileto), a parte mais gordurosa e nobre. Nunca havia comido antes. Nunca vou esquecer o gosto.

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Chá feito com diversos produtos, inclusive alguns cogumelos raros. Depois de tomar o chá, pode-se comer o que há dentro do bule:

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Fica registrado o enorme agradecimento aos anfitriões:

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Feira Boliviana em São Paulo

Todo domingo acontece, na Praça Kantuta, no Canindé (zona norte de SP) a feira dos bolivianos residentes em São Paulo. Estima-se que o número deles ultrapasse 200 mil, o que corresponderia a 2% de toda a população boliviana. Boa parte destes bolivianos trabalha no setor de confecções e a feira da Praça Kantuta é o ponto de encontro deste contingente que provém de diversas partes da Bolívia.

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Na feira há barracas com comidas típicas da Bolívia (e também do Peru e de Cuba). Achei uma maravilha poder tomar uma autêntica chicha morada (suco de milho negro com abacaxi, canela e cravo) e comer papas a la huancaína e/ou ceviche, tudo isto por menos de R$ 20,00. Também há, à vontade, as salteñas bolivianas, inclusive a de “fricassé”, a que mais gosto.

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Também há barracas que vendem ingredientes andinos, inclusive as amplas variedades de milhos e batatas, desconhecidas dos brasileiros. Eu aproveitei para me reabastecer de chia – que é um produto andino e ali vendido por uma fração do preço que cobram nos supermercados – e também comprei milho negro (na esperança de fazer em casa a chicha morada) e chuño (um tipo de batata bem pequena desidratada segundo a técnica inca e que deve ser reidratada para ser consumida).

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Neste verdadeiro pedaço da Bolívia em São Paulo, os imigrantes também têm à disposição música, barracas com roupas típicas, música, corte de cabelo, futebol, etc. A feira começa por volta das 11:00 e vai até o fim da tarde. É fundamental levar dinheiro vivo, nenhum lugar aceita cartão de crédito ou débito.

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Maple Syrup

Maple é a árvore que fornece a folha que decora a bandeira do Canadá. Em português, seu nome seria “bordo”, planta do gênero “acer”. Desta árvore extrai-se um líquido levemente adocicado e, uma vez evaporado, obtém-se o xarope de bordo (maple syrup em inglês e sirop d’érable em francês).

 

Os canadenses são apaixonados por este produto, que é muito empregado nas panquecas do café-da-manhã e também produzem com ele balas e “manteiga” de maple syrup.

Eu também adoro e trouxe para casa uma boa quantidade deste xarope – até porque não é fácil achar no Brasil o maple syrup 100% puro como se vende no Canadá a preços acessíveis. Aliás, o mais comum no Brasil é encontrar produtos com ridículos percentuais de maple syrup, como 15% – o resto é de xarope de milho…

Em Ottawa tive a felicidade de ver o processo de extração do líquido com o qual se produz o xarope. É justamente no início da primavera que isto se dá: a árvore precisa de temperatura abaixo de zero à noite e acima de zero durante o dia para fornecer o produto.

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Perfura-se o tronco do bordo (uma perfuração de 10 cm em média) e este balde fica cheio em uma noite. Com 40 litros extraídos do maple, obtém-se, após evaporação da água, 1 litro de xarope de bordo.

Em Ottawa está uma das poucas florestas de maple em área urbana no Canadá e agradeço ao proprietário do B&B onde me hospedei, Pierre, por ter-me levado de carro lá para conhecer – além de explicar todo o processo. Aliás, ter-me hospedado no Auberge des Arts em Ottawa foi uma das minhas melhores decisões nesta viagem.

As crianças, naturalmente, adoram maple syrup: especialmente quando fazem “picolés” de maple, derramando o líquido doce e viscoso sobre uma plataforma com gelo.

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As propridades da árvore de maple já eram conhecidas dos habitantes originários do Canadá, que bebiam o líquido extraído da árvore – que é muito diurético – no início da primavera como forma de se desintoxicar após o inverno, no qual basicamente carnes eram consumidas.

Hoje, 90% do maple syrup canadense é produzido no Québec, mas também produz-se nos Estados Americanos de Vermont, New Hampshire e Nova York.

Achei muito legal tudo isso! E por muito tempo minhas panquequinhas no café-da-manhã serão banhadas com maple syrup canadenses. As balas e a manteiga, infelizmente, já acabaram…