Parque Nacional Histórico de Trakai

A Lituânia tem 4 inscrições na Lista dos Patrimônios da Humanidade, uma delas o Centro Histórico de Vilnius. Os outros três são: i) o Istmo da Curlândia (Curonian Spit em inglês e Kuršių nerija em lituano), uma faixa estreita e longa de areia que se estende desde o litoral da Lituânia até o território russo de Kaliningrado (a Rússia tem este exclave situado no Mar Báltico). O istmo é um Patrimônio Natural da Humanidade e dizem ser bastante bonito, mas fica longe de Vilnius e é melhor visitado no verão; ii) também possui pontos inscritos no Arco Geodésico de Struve; e iii) o Sítio Arqueológico de Kernavė. Este fica próximo da capital, mas, como é usual acontecer com sítios arqueológicos, é visualmente pouco atrativo, não havendo muito mais que alguns montes e um museu, contando a história da ocupação humana naquela região desde há milênios.

Assim, considerando tudo isto, resolvi gastar o meu tempo restante na Lituânia visitando uma Tentativa de PH chamado Parque Nacional Histórico de Trakai.

Acho que fiz bem. Trakai tem fácil acesso a partir de Vilnius (meia hora de ônibus) e é um local muito bonito, além de significativo para a história da Lituânia.

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Este castelo, situado em uma ilha (seu nome é “Castelo da Ilha”) no lago Galvė terminou de ser construído pelo Grão-Duque Vytautas, que governou  a Lituânia na chamada Era de Ouro de sua história (séc. XV), quando os lituanos dominaram grandes extensões no norte e no leste europeus. Um país que se pretendia forte precisava ter boas fortalezas e este maciço castelo dá mostras dos esforços lituanos neste sentido. A partir do séc. XVI, porém, a Lituânia passou a entrar na esfera de poder da Polônia e, posteriormente, da Rússia, apenas voltando a ganhar independência no séc. XX.

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Mais do que entrar para visitar as exposições sobre armas e armaduras dentro do castelo, é gostoso ficar passeando no seu entorno, que tem o belo cenário do lago e desta edificação com inequívocos traços do Norte da Europa. Até o clima no dia que eu fui estava bem típico: nublado e frio.

Outra coisa interessante em Trakai é a existência de uma comunidade de caraítas. Eu nunca tinha ouvido falar, mas no museu local tomei conhecimento deste grupo étnico-religioso que segue uma seita do judaísmo. Conta-se que durante a Era de Ouro Lituana, algumas famílias caraítas foram trazidas da Crimeia para servir como guarda-costas da nobreza e acabaram ficando por lá. Em Trakai, os caraítas (que são bem poucos atualmente, ressalte-se) têm até um templo, que chamam  de kenessa, fechado no dia em que lá estive para visitação (foto abaixo).

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De ter ido a alguns museus e ter entrado em contato com a história lituana, ainda que superficialmente, pude perceber que ao longo dos séculos, a Lituânia foi um país acolhedor de vários povos que lá se instalaram (como os judeus, perseguidos no mundo todo, mas que encontraram hospitalidade na Lituânia, os caraítas e mesmo alguns tártaros, de religião muçulmana). Para um país tantas vezes invadido por potências estrangeiras, é curioso notar este traço de tolerância na história (e no povo) da Lituânia.

Para quem for de ônibus, é bom saber que as principais atrações ficam a a mais de dois quilômetros da estação, então é uma boa caminhada para quem não quiser pagar um táxi. 

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No inverno, o Lago Galvė fica congelado. O cenário da foto acima deve ficar ainda mais bonito.

Centro Histórico de Vilnius–PH n.º 152

A capital da Lituânia merece ser visitada mesmo por quem já passou por Riga (Letônia) ou Tallinn (Estônia). Eu constatei que, embora sejam cidades próximas, a três capitais bálticas têm características histórico-culturais relativamente diferentes, o que impede a sensação de estar vendo “mais do mesmo” na visita a cada uma delas.

Enquanto Tallinn é marcadamente medieval e Riga é rica na arquitetura em estilo art nouveau, Vilnius é uma cidade em que o barroco se destaca e há muitas igrejas neste estilo espalhadas por todo o centro histórico. Um bom exemplo é a Igreja de São Casimiro (lit.: Šv. Kazimiero bažnyčia), que, durante o período soviético, abrigou um “museu do ateísmo”.

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Uma das entradas no centro histórico de Vilnius é pelo Portão do Amanhecer (lit. Aušros Vartu). Na parte superior do portão, há uma capela com um ícone da Virgem Maria.

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O barroco nas muitas igrejas de Vilnius é reflexo da forte presença dos jesuítas, que se estabeleceram na Lituânia e dela fizeram um dos bastiões da Contra-Reforma. São Casimiro é o padroeiro da Lituânia e está enterrado na Catedral de Vilnius – cujo estilo arquitetônico, porém, ao menos externo, é o neoclássico:

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Atrás da Catedral há uma colina onde se situa uma torre. Foi nesta colina que, segundo diz-se, Vilnius foi fundada em 1320 pelo grão-duque Gediminas. A subida pela Colina Gediminas é um bom exercício, mas há a opção do funicular.

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Também por esta região está o Palácio Real, recentemente reformado e transformado em museu nacional (lit. Lietuvos Nacionalinis Muzieujus) , bastante adequado para quem quiser saber sobre a história da Lituânia.

Outra marca distintiva de Vilnius é que a cidade abrigou, por séculos, uma grande e devota comunidade judia – chegando ao ponto de a cidade ser chamada de “Jerusalém do Norte”. Com a invasão nazista da Lituânia, porém, os judeus foram praticamente aniquilados do solo lituano, embora restem hoje muitos vestígios de sua presença lá, como a região do “gueto de Vilnius”, a sinagoga (a única que continua em funcionamento para atender à agora diminuta congregação judia) e o Museu do Holocausto.

O “gueto” hoje é completamente integrado à cidade, mas um mapa colocado em sua entrada indica quais eram as ruas da cidades nas quais os judeus vieram a ser confinados pelos nazistas durante a invasão alemã.

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Durante outra invasão, a napoleônica (a história da Lituânia é a história de suas sucessivas invasões, por alemães, poloneses, franceses, russos…), diz-se que Napoleão encantou-se com a Igreja de Santa Ana e chegou a cogitar “levá-la” para a França. Verdade ou não, para mim esta é a igreja que tem a mais bonita fachada em Vilnius:

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Digo isto porque o interior da Igreja Ortodoxa Russa do Espírito Santo é surpreendentemente verde (e bonito!). Foto extraída do site de turismo de Vilnius, pois é proibido fotografar dentro:

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Sede da Presidência da República da Lituânia:

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A Lituânia é uma grande produtora de âmbar, encontrado em suas praias do Mar Báltico. Fiquei com vontade de comprar alguma coisa, mas o âmbar é caro e a falsificação é muito comum.

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Para saber um pouco sobre a história da Lituânia no séc. XX (quando houve a proclamação de sua independência em 1918), a invasão soviética de 1939, a invasão nazista de 1941 e a nova invasão soviética em 1944, é interessante visitar a Casa das Assinaturas (lit. Signatarų Namai), onde o ato de independência do país foi assinado em 1918 – e novamente em 1991, quando a Lituânia se libertou em definitivo da União Soviética.

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Em 2 dias é possível ter uma boa ideia de Vilnius, que tem um centro histórico compacto.

Vilnius fica muito próxima da fronteira com Belarus (ou Bielorússia). A capital Minsk fica a meros 185 km, mas Belarus exige visto de quase todo o mundo para entrar em seu território e é duro conseguir um, de forma que não dá para conjugar a visita a estes dois países, exceto se o visto de Belarus for providenciado antes.

Fiquei satisfeito por ter conhecido Vilnius e fiz uma pequena incursão pelo interior da Lituânia, mas falo disto no post seguinte.

República da Lituânia – 2013

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Aproveitei uns preços promocionais de passagens para a Lituânia e vim para cá antes de seguir até os Bálcãs, objetivo principal desta minha viagem à Europa no segundo semestre de 2013. Há pouco tempo eu estive na Letônia e na Estônia e achei que fosse demorar até que eu pusesse os pés na Lituânia, para “completar” os países bálticos, pois, considerando que a Lituânia teve (e ainda tem) uma estreita ligação com a Polônia, pensei que fosse visitar os dois países juntos, mas cá estou. A Polônia fica para o futuro, para ser apreciada com bastante vagar.
A Lituânia tem 3 milhões de habitantes (sendo o mais populoso entre os três bálticos). Sua população também é a mais homogênea (90% de pessoas com origem lituana) ao contrário da Estônia e, principalmente, da Letônia, onde vivem muitos russos.
Historicamente, os lituanos foram o último povo europeu a abraçar o Cristianismo (isto só aconteceu no séc. XIV) e hoje são tão católicos quanto os poloneses. A Lituânia foi um importante reino no séc. XVI ocupando vastas porções de terra no Leste Europeu, mas, com o tempo, acabou entrando na esfera de influência polonesa (reino ao qual se uniu) e também russa, país que a invadiu e dominou umas quantas vezes. Em 1991, a Lituânia foi o primeiro país então integrante da União Soviética a declarar-se independente.
No idioma lituano, o nome do país é Lietuvos Respublika. O lituano é uma língua báltica indo-europeia, ramo do qual restam vivas apenas ela própria e o letão (estas duas línguas, porém, não são mutuamente inteligíveis). O idioma lituano é objeto de particular estudo entre os linguistas pois é uma língua extraordinariamente conservadora (isto é, mudou pouco ao longo dos séculos, sendo muito pouco permeável a influências de outras línguas bem como à criação de palavras novas). Por isto, é considerada, entre todas as línguas do tronco Indo-Europeu [que abarca os idiomas latinos (português, espanhol, francês, italiano, romeno, etc.), germânicos (inglês, alemão, holandês, etc.), eslavos (russo, polonês, servo-croata, búlgaro, etc.), o persa e as línguas do Subcontinente Indiano (hindi, urdu, etc) – 3 bilhões de falantes], a mais próxima do idioma original, o Proto-Indo-Europeu. Fascinante! Por enquanto, meus conhecimentos de lituano resumem-se a “obrigado”: Ačiū e “por favor”: Prašau e é provável que fique nisto mesmo.
Minha passagem pela Lituânia será rápida. Haverá tempo apenas de visitar a capital, Vilnius, cujo centro histórico é Patrimônio da Humanidade, embora eu esteja tentado a visitar um sítio arqueológico em Kernavė. Até amanhã eu decido.
Vilnius é repleta de atrações, quase todas bem concentradas no Centro Histórico, que pode ser facilmente percorrido à pé. Vou sair agora para jantar e experimentar um prato típico lituano, o cepelinai.