Monumentos Históricos de Novgorod e arredores–PH n.º 150

Visitei a cidade de Veliky Novgorod (rus. Великий Новгород, ou Novgorod, a Grande) em um day trip a partir de São Petersburgo. Os monumentos históricos desta cidade são Patrimônio da Humanidade desde 1992. A cidade foi fundada entre os séc. IX e X e foi o berço da nação Rus (junto com Kiev, hoje na Ucrânia), origem da Rússia tal qual a conhecemos. Ir a Velily Novgorod (“novgorod” em russo, ironicamente, significa “cidade nova”) é entrar em contato com monumentos e igrejas que evocam as raízes da civilização russa.

Ao andar a partir da estação ferroviária até a parte histórica da cidade, a primeira visão que se tem é a do kremlin (Кремль) de Novgorod. Sempre supus que “o Kremlin” era uma construção situada em Moscou, mas aprendi que existem muitos kremlins por toda a Rússia e que a palavra significa “fortaleza”, referindo-se às partes fortificadas das cidades russas. Então, existe o Kremlin de Moscou, o Kremlin de Novgorod e por aí vai. Quatro destes kremlins são Patrimônio da Humanidade (justamente o de Novgorod e o de Moscou, além do de Kazan e um situado nas Ilhas Solovetsky, no Mar Branco). A Rússia pretende, ainda, ver inscritos vários outros kremlins na Lista da UNESCO (vide em  http://whc.unesco.org/en/tentativelists/5517/).

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Dentro do kremlin está aquela que é considerada a mais antiga catedral de toda a Rússia (construída entre 1045 e 1050), notem bem, antes do cisma de 1054 que separou a Igreja Ortodoxa da Igreja Católica: a Igreja de Santa Sofia (Софийский собор).

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A Catedral de Santa Sofia, que continua em pleno funcionamento, serviu de modelo arquitetônico para a construção de inúmeras outras igrejas ortodoxas em toda a Rússia (e mesmo fora da Rússia) ao longo do tempo. No seu interior, está um espetacular iconostasis, isto é, a parede de ícones característica de toda igreja ortodoxa. Não consegui fazer nenhuma foto que capturasse a integralidade da iconostasis (muito pouca luz), mas fotografei o ícone mais importante que está ali: o de Nossa Senhora do Sinal, um dos mais antigos e caros a toda a Ortodoxia.

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Bem em frente à Catedral está o Monumento Milênio da Rússia (1862), de bronze, pesando 100 toneladas, com alusão a vários momentos históricos e personagens relevantes russos.

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Ali próximo passa o Rio Volkhov (Волхов). Do outro lado do rio também há importantes igrejas ortodoxas – igualmente multicentenárias – como a Igreja da Transfiguração do Salvador e a Catedral de Nossa Senhora do Sinal (cujo ícone, recorde-se, está na Catedral de Sta. Sofia).

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Na Igreja da Transfiguração do Salvador estão raríssimos afrescos de Teófanes, o Grego, que, segundo o meu guia, é um dos mais importantes pintores de ícones de todos os tempos.

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Quem gosta de ícones, aliás, não deve perder o Museu de Novgorod, com 260 peças dispostas em ordem cronológica, que permite ver a evolução do estilo ao longo da história e o emprego de novas técnicas por parte dos artistas. Fascinante! Uma pena é que quase nada no museu está escrito em inglês (isto ocorre até em museus em São Petersburgo e, pelo que me disseram, mesmo em Moscou). Acho que países muito grandes e com muito turismo interno (como Rússia, Brasil, Estados Unidos, etc.) não se preocupam muito em traduzir as informações turísticas para outros idiomas…

Os ícones são unidimensionais para transmitir, pelo que li, uma estabilidade etérea a quem os vê. A intenção disto é demonstrar que, enquanto as coisas terrenas estão sujeitas a transformações constantes (movimento), as coisas celestiais são permanentes, estáticas, imutáveis.

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Eu gostei bastante de ter ido a Veliky Novgorod e recomendaria muito separar um dia em São Petersburgo para ir até lá (lembrando que SPet demanda vários dias para ser visitada…). Ou, alternativamente, quem visita Moscou e vai até SPet, pode visitar Novgorod, que fica no caminho. Novgorod está a 180 km de SPet e a 520 km de Moscou.

Centro Histórico de São Petersburgo e Grupo de Monumentos Associados–PH n.º 149–4.ª parte

Museus temáticos e ainda sobre bebidas típicas têm tudo para ser um tourist trap (armadilha para turista). Mas o Lonely Planet foi tão enfático quanto ao Museu da Vodka Russa (Музее Русской Водки) que, mesmo desconfiado, eu fui. Vale a pena e é muito divertido. Ali conta-se a evolução desta bebida, cujo nome é o diminutivo da palavra “água” (voda, водa, em russo). A vodka embora não seja um produto exclusivamente russo, acabou virando um símbolo deste país. 

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Achei muita graça ao lembrar que o primeiro presidente da Rússia pós-soviética Boris Yeltsin não raro aparecia em público notoriamente sob efeito desta bebida, apreciada, diga-se, também pelos presidentes seguintes (Vladimir Putin e Dmitri Medvedev).

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Ao fim da exposição, o turista é convidado a uma degustação de vodka, acompanhada de picles, pão com gordura animal e peixe. Não sei se a moça lá estava de brincadeira, mas ela disse que a regra é tomar o copinho aí (e eram 3 copinhos…) de uma vez.

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Um lugar que considero importante de ser visitado é a Fortaleza de S. Pedro e S. Paulo, na ilha de Zayachy, do outro lado do Rio Neva, facilmente alcançável por metrô. Ali está a Catedral de S. Pedro e S. Paulo, local onde repousam os corpos de muito integrantes da dinastia Romanov, inclusive Pedro I e Catarina, a Grande, além do último czar, Nicolau II, assassinado pelos comunistas, junto com toda a sua família, na cidade de Yekaterimburgo em 1918. 

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Após identificação do corpo do czar por exames de DNA, seus restos e de sua família foram sepultados na catedral 80 anos após sua execução e, em 2000, Nicolau II foi canonizado pela Igreja Ortodoxa Russa.

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Na região da fortaleza há muitos museus ligados à história política e militar da Rússia, assim como antigas prisões, etc. Entre os vários lugares que visitei, não poderia deixar de mencionar o Museu da História Política, com muita informação sobre o período soviético, tema sobre o  qual o museu trata com muita franqueza, mostrando inclusive a irracionalidade e as atrocidades cometidas no período em que a União Soviética existiu.

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A mesquita de SPet (não aberta para visitantes) chama a atenção de quem passa pela região de Petrograd.

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Mas o que não falta mesmo em SPet são igrejas ortodoxas! Quando você acha que já viu o suficiente, aparece mais uma incrivelmente bonita. Abaixo, a Catedral de São Isaque (Исаакиевский Собор), neoclássica, e atualmente funcionando apenas como museu.

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Catedral da Trindade (Троицкий собор):

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Catedral Naval de S. Nicolau (Никольский морской собор):

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Fui a muitos outros lugares em São Petersburgo e deixei de ir a vários outros, mas disse aqui no blog o que eu mais gostaria de falar sobre a cidade. São Petersburgo foi o meu primeiro contato com a Rússia (e espero não seja o último, pois ainda gostaria muito de visitar Moscou e arredores) e fiquei verdadeiramente impressionado com a opulência da cidade, construída há meros 300 anos, com o objetivo de mostrar ao mundo a grandeza da Rússia, função esta que ela cumpriu (e cumpre) plenamente.

Спасибо Санкт-Петербург!

O alfabeto cirílico

O alfabeto cirílico é utilizado por muitas línguas no Leste Europeu e na Ásia, incluindo-se o russo, o búlgaro, o ucraniano, o mongol e o sérvio (embora, na Sérvia, ocorra o fenôneno da digrafia, ou seja, a mesma língua pode ser escrita em 2 alfabetos diferentes). Alguns linguistas dizem, que, a rigor, não existe o “alfabeto” cirílico, mas a “escrita” cirílica, já que o cirílico sofre adaptações nas várias línguas em que é escrito, mas, eu friso, o mesmo ocorre com o alfabeto latino (acentos, cedilhas, diacríticos, etc.).

O nome provém de São Cirilo que, segundo consta, junto com seu irmão, São Metódio, criaram no séc. IX este alfabeto a partir do alfabeto grego, tendo o cirílico se espalhado entre os povos eslavos.

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Para quem utiliza o alfabeto latino, o cirílico talvez seja o mais fácil de todos os alfabetos para se aprender pois muitos sons são representados por letras iguais ou similares. O cirílico é, naturalmente, um alfabeto fonético (assim como o latino).

Considerando esta facilidade, é altamente útil e recomendável que quem vá a um país que utilize o alfabeto cirílico em sua língua local, que o aprenda, ao menos o básico. Falo por mim: tanto na Sérvia quanto na Rússia aumentei bastante a minha autonomia por conseguir compreender os sons das letras em cirílico.

Na condição de alguém que aprendeu o alfabeto cirílico apenas com o objetivo de “me virar”, vou tentar estimular os interessados a também aprendê-lo, como segue abaixo (tomo por padrão o cirílico usado na Rússia e, no caso do alfabeto latino, os sons da língua portuguesa):

1 – letras que transmitem o mesmo som (ou quase isso) no alfabeto latino e no alfabeto cirílico:  

A = A;

K = K;

M = M;

O = O;

T = T; fácil até agora, não é?

2– letras encontradas no alfabeto latino e que transmitem outro som no alfabeto cirílico (à esquerda cirílico, à direita, latino):

B = V;

E = IE ou E;

H = N;

P = R (no caso, o ‘r’ como em “caro” e não como em “rato”);

Y = U;

C = S (“s” sempre como em “sapato” e nunca como em “casa”);

X = RR (ou o “h” do inglês)

3 – letras típicas do cirílico e desconhecidas no alfabeto latino:

Б = B;

Г = G (sempre como em “gato” nunca como em “gente”);

Д = D;

Ё = IO;

Ж = J;

З = Z;

И = I (obs.: o Й é usado quando o I funciona como semivogal. Para os falantes de português isto tem pouca importância. Na prática, é só entender que o Й é falado mais “rápido” que o И).

Л = L;

П = P;

Ф = F;

Ц = TS (ou como o “z”  de “pizza”);

Ч = TCH (como em “tcheco”);

Ш = X (como em xícara);

Э = É;

Ю = IÚ;

Я = IÁ.

Algumas letras são um pouquinho mais complexas. Grosseiramente falando:  Щ (é um ‘x’ mais alongado), Ъ (muda); Ы (próximo de I) e Ь (muda).

Com pouco de prática é perfeitamente possível ler placas como as abaixo:

Centro Histórico de São Petersburgo e Grupo de Monumentos Associados–PH n.º 149–3.ª parte

A outra grande atração de São Petersburgo é uma das mais espetaculares igrejas que já visitei até hoje – embora ela tenha sido secularizada (isto é, dessacralizada) durante o período soviético e hoje funcione apenas como museu: a Igreja sobre o Sangue Derramado (rus. Церковь Спаса на Крови) ou  Catedral da Ressurreição de Cristo.

Ela foi construída entre os anos 1883 e 1907 exatamente sobre o local onde o Czar Alexandre II foi assassinado em uma emboscada terrorista em 1881, enquanto passeava por ali. Seu filho, Alexandre III, mandou construir a Catedral como memorial para seu pai. O “sangue derramado”, portanto, é o do czar.

O edifício é de uma beleza estonteante, tanto por fora quanto por dentro:

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As abóbadas em forma de “cebola” são traços inconfundíveis da arquitetura religiosa russa. Pelo que me contaram, esta forma impede o acúmulo de neve e, consequentemente, o risco de colapso das torres.

Os comunistas fecharam todas as igrejas na Rússia e confiscaram seus templos para os quais foram dadas novas funções, algumas verdadeiramente humilhantes. A Igreja sobre o Sangue Derramado chegou a servir como depósito de batatas… Com o fim da União Soviética, a Igreja Ortodoxa Russa voltou a ter um papel importante no país e recuperou muitos imóveis, enquanto outros foram mantidos pelo Estado e se transformaram em museus. No caso desta igreja, houve necessidade de uma ampla reforma que restaurasse a sua glória original e esta reforma foi concluída em 1997.

Entrar na Igreja sobre o Sangue Derramado é uma experiência impactante:

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As pinturas, com predominância do azul, cobrem o interior da igreja do chão ao teto. Não há espaços sem pinturas religiosas que retratam passagens da Bíblia e santos ortodoxos. Além de pinturas, fiel à tradição oriental, há muitos mosaicos.

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Sobre o local exato do assassinato de Alexandre II foi construída esta estrutura com mármore rosa. Aliás, pedras das mais variadas cores enfeitam a igreja-museu. É difícil parar de fazer fotos lá dentro.

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Centro Histórico de São Petersburgo e Grupo de Monumentos Associados–PH n.º 149–2.ª parte

São Petersburgo (SPet) é a segunda maior cidade da Federação Russa. Incluindo-se sua região metropolitana, vivem ali 5 milhões de pessoas. Considerando isto, achei importante ficar em um hotel que fosse estrategicamente localizado na principal avenida da cidade, a Nevsky Pr., próximo a uma estação de metrô, o que também é útil.

A principal atração turística de SPet é o Museu Hermitage (Эрмитаж), que sempre figura na lista dos mais esplêndidos do mundo tanto por se situar em um belíssimo imóvel barroco às margens do Rio Neva quanto por seu gigantesco acervo. Grosseiramente falando, comparando-se com a França, é como se o acervo do Louvre fosse colocado no Palácio de Versailles e o Palácio de Versailles fosse trazido para as margens do Rio Sena.

O Hermitage, cuja fachada está em reformas, fica na grande Praça do Palácio, (Dvortsovaya Ploshchad), basta seguir pela Nevsky Pr. para chegar lá. Em seu centro está uma coluna que recorda a vitória do czar Alexandre I sobre Napoleão em 1812.

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Do outro lado do Rio Neva, outra perspectiva deste imóvel que foi, na época dos czares, o Palácio de Inverno e era uma das principais residências da família imperial.

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É preciso fôlego para visitar o Hermitage. Normalmente, o turista enfrentará longa fila para entrar. No meu caso, que visitei a cidade em um feriado, a fila durou duas horas e isto que eu cheguei lá antes que o museu estivesse aberto. Uma vez lá dentro, há tanto e tanto o que se ver, que eu fiquei até o museu fechar, tendo feito apenas uma pequena pausa para um lanche, embora muita paciência seja necessária para se conseguir um café dentro do Hermitage.

Deve-se compreender que o Museu Hermitage não se circunscreve ao Palácio de Inverno – embora este seja o seu maior edifício –, mas se espalha por outros lugares em SPet também. No total, são quase 3 milhões de obras de arte, entre telas, esculturas e objetos de interesse histórico e cultural. No Palácio de Inverno são 120 salas dedicadas às exposições e é impossível visitá-las bem de uma vez só. Procurei focar naquilo que mais me interessava:

A Escada do Jordão (rus. Иорданская лестница, dedicada ao batismo de Cristo no Jordão) era por onde a família imperial descia para embarcar no Rio Neva.

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Fiquei impressionado com a quantidade de quadros relativos à arte europeia que o Hermitage possui. O acervo é tão vasto que o museu pode se dar ao luxo de dedicar uma sala a cada um dos pintores mais famosos como Van Gogh, Cézanne, Monet e Renoir, etc.  Vou elencar aqui apenas algumas que eu mais gostei de ter visto:

O Retorno do Filho Pródigo, obra-prima do holandês Rembrandt, considerada pelo historiador Kenneth Clark (autor da excelente série Civilisation, transmitida pela BBC) uma das obras de arte mais importantes e comoventes de todos os tempos. Foto da wikipedia (a minha ficou um desastre):

File:Rembrandt Harmensz van Rijn - Return of the Prodigal Son - Google Art Project.jpg

Também gostei do quadro A Dança de Matisse, que, segundo o guia, é uma de suas mais importantes obras. Foto minha:

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Das poucas telas de Leonardo da Vinci que restam, duas estão no Hermitage. Madonna Litta e Benois Madonna, respectivamente (fotos da wikipedia):

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Ficheiro:Leonardo da Vinci Benois Madonna.jpg

De Caravaggio está uma das três versões que ele fez sobre Apolo tocando alaúde. De acordo com o meu guia, o próprio Caravaggio considerava esta tela uma das que ele produziu de melhor:

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Meu foco foi a arte europeia, mas o Hermitage tem coleção de arte de praticamente o mundo todo, inclusive do Egito Antigo (mas não tive tempo de visitar).

Lembrando que o Hermitage está no Palácio de Inverno dos Imperadores Russos, estão lá, naturalmente, os Apartamentos Imperiais, com toda a extravagância que seria de se esperar. Ali residiu o último czar, Nicolau II (foto abaixo) e ali os líderes da Revolução Russa de Abril de 1917 (que derrubou a monarquia) foram presos pelos comunistas que tomaram o poder na Rússia em Outubro de 1917.

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A decoração atinge o seu ápice na chamada Sala Malaquita, que tem este nome em razão da grande quantidade de pedra malaquita (verde) usada:

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Tentei aqui expor alguma coisa sobre este museu, que é um dos maiores do mundo (há quem diga que é o maior). Mas para entender o Hermitage, há que se ir ao Hermitage. E é necessário ir preparado, porque o lugar é extraordinariamente grande, em especial para quem tem apenas poucos dias em São Petersburgo.