Puerto Madryn, Trelew e Gaiman (Província de Chubut, Argentina)

Quase certamente, se a via escolhida fora a aérea, o visitante da Península Valdés chegará ao Aeroporto de Trelew, cidade de 100 mil habitantes, mas o ideal é sair dali o mais rápido possível em direção a Puerto Madryn. Trelew tem apenas uma coisa a ser visitada: o Museu Paleontológico Egidio Feruglio, que reúne de forma interessante fósseis de dinossauros que foram encontrados em várias partes da Argentina. Exibem com orgulho alguns ossos fossilizados que foram encontrados em 2013 em Chubut daquele que foi o maior dinossauro que existiu (e que, em massa, apenas foi suplantado pelo maior animal que já habitou a Terra: a baleia-azul). Trata-se do fêmur de um titanossauro gigante.

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Nos arredores de Trelew está a cidade que seria a “capital” galesa da Província de Chubut: Gaiman, onde abundam casas de chá com a torta negra galesa e construções que lembram a odisseia destas famílias que, em protesto contra o jugo inglês sobre Gales, abandonaram a Grã-Bretanha no séc. XIX e se instalaram nesta remota região do mundo, passando por todo tipo de adversidades.

Diana Spencer, Princesa de Gales que era, visitou Gaiman em 1995 e causou feroz competição entre as casas de chá para ver quem a serviria uma xícara de chá galês com bolo… A escolhida acabou sendo a Ty Te Caerdydd, mas eu achei outras mais pitorescas, como a Ty Cymraeg e a Ty Gwyn. O chá é, ahrnnn, inglês… mas a torta negra de Gales é boa (embora minha mãe faça um bolo parecido muito melhor).

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Perambular por uma hora em Gaiman permite ver edifícios que lembram a influência galesa sobre esta região. Deve-se ressaltar que os galeses não estabeleceram nenhuma outra colônia fora de seu país, sendo esta experiência patagônica única na história deste povo europeu de origem celta, integrados ao Reino Unido. Em 2013 estive no País de Gales, visitando dois PH no norte galês e, quem se interessar, pode buscar por este link na barra lateral.

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Gaiman fica no vale do Rio Chubut, que dá nome à Província. É uma região verde, em grande contraste com o resto de Chubut, que é muito seco.

Puerto Madryn é outra cidade de bom porte (deve ter algo em torno de 80 mil habitantes) e alguns museus e bons restaurantes e é a melhor base para se hospedar na região para quem não tem carro pois é dali que saem boa parte dos tours. Fica à beira-mar (também fui à praia lá), mas a atividade que eu mais curti fazer foi alugar uma bicicleta e seguir, por 20 km em estrada de chão irregular com muitas pedras, até Punta Loma, uma lobería para meu primeiro contato com a fauna local. Foi um exercício muito legal!

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Em Puerto Madryn hospedei-me em um B&B chamado El Patio, simples, pequeno e econômico e com uma proprietária encantadora chamada Carla, que conhece todo mundo e é capaz de encaixar o cliente nos melhores tours e dar as melhores dicas. Prometi a ela que divulgaria a sua pensão entre leitores de língua portuguesa então tá cumprida a promessa!

Aqueduto e Canal de Pontcysyllte, Gales–PH n.º 135

O Reino Unido valoriza muitíssimo o fato de ter sido o berço da Revolução Industrial, tanto que inscreveu nada menos que 7 Patrimônios da Humanidade ligados ao tema. Quase sempre, porém, estes PH não revelam lugares de beleza cênica excepcional e sua importância histórica dificilmente convence os turistas a inclui-los em seus roteiros de viagem.

Devo confessar que fui até o Aqueduto de Pontcysyllte apenas porque na estação de Conwy eu vi que se aproximava um trem que passaria próximo, no mapa, ao lugar onde se situa o aqueduto (Ruabon).

Saltando em Ruabon tomei um susto: parecia, por volta das 5 da tarde, um lugarejo fantasma. Mas como nas ilhas britânicas, por menor que seja o lugar, haverá sempre um pub aberto, fui até lá e, na porta do pub, indaguei a uma senhora como eu poderia chegar ao Aqueduto de Pontcysyllte.

Após corrigir completamente a minha pronúncia de “pontcysyllte” (em galês é algo como “pôn-kã-sãrr-lte, sendo o “rr” como o “ch” alemão), notei que a galesa ficou com pena de mim quando disse que o aqueduto estava longe para ir a pé e que não havia qualquer tipo de transporte público para chegar lá.

Então, ela me ofereceu uma carona, momento em que soube que seu nome era Tina e junto com seu marido, fomos no carro até o tal aqueduto. Durante a viagem, Tina estava intrigada com o fato de eu, vindo do Brasil, estar interessado em visitar um lugar de pouco interesse turístico perdido nos grotões de Gales. Enquanto isso eu mentalmente amaldiçoava a UNESCO por me meter numa roubada dessas.

Eles me deixaram, já bem caindo a tarde, próximo ao aqueduto e sugeriram que eu buscasse abrigo para aquela noite na cidade de Llangollen (pron. lãn-gorr-len) a uns 6,5 km dali.

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O Aqueduto de Pontcysyllte (em galês: Traphont Ddŵr Pontcysyllte) foi construído em 1805 e, para a UNESCO, tem importância mundial porque sua construção revelou um enorme avanço tecnológico para a época com a entrada em cena de um material extremamente resistente e maleável: o ferro fundido. O responsável pela construção foi o engenheiro Thomas Telford.

O aqueduto em ferro foi construído sobre uma estrutura de pedra, tem 300 metros de extensão, 3 de largura e quase 40 metros de altura. Foi necessário construi-lo para vencer o profundo vale do Rio Dee, devendo sempre lembrar que o fornecimento de água dependia da construção de aquedutos já que não se podia contar, à época, obviamente, com bombas d’água.

Além disto, o aqueduto permite a navegação destas embarcações aí abaixo, que hoje têm turistas como passageiros.

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Extraí do site da UNESCO esta foto para dar uma melhor dimensão:

Após a breve passagem pelo local, tentei achar um táxi que me levasse a Llangollen para dormir, mas logo vi que não iria encontrar. O jeito seria andar até lá: eram 6,5 km pela frente. Minha sorte é que na primavera o sol já se põe bem tarde e, no caminho, fiz fotos do entardecer nos verdíssimos campos galeses:

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Após esta caminhada toda, chegando em Llangollen, depois de um dia tão cheio, parei no primeiro pub e virei uma “pint” (450 ml) de cerveja quase de uma vez.

Ainda hoje tenho dúvidas se valeu a pena ir até este lugar. Mas, como se trata de um Patrimônio da Humanidade, tento ao menos me convencer de que foi interessante visitar um marco da Revolução Industrial, época histórica em que havia uma grande esperança na ciência e na capacidade do ser humano de, com base justamente no conhecimento científico, vencer todo tipo de dificuldade.

Este foi o mais recente PH inscrito pelo Reino Unido em 2009. 

Castelos e Fortificações do Rei Eduardo em Gwynedd, Gales–PH n.º 134

Os romanos não chegaram a apagar as raízes celtas de Gales, esta região montanhosa no centro-sudoeste da então chamada Britannia. Com a saída dos romanos, os povos que viviam na hoje Gales organizaram-se em vários reinos, sendo o mais importante deles o de Gwynedd, no norte.

Os galeses conseguiram manter, por um bom tempo, afastados os anglo-saxões e também tiveram sucesso contra os normandos, que conquistaram a Inglaterra a partir do ano de 1066. Mas no séc. XIII, a Inglaterra resolveu seriamente conquistar Gales. Em 1282, o Rei Eduardo I derrotou o último príncipe galês, Llywelyn ap Gruffydd.

Eduardo I, então, na posse de seus novos territórios, passou a construir fortificações que garantissem seu domínio tanto em face de eventuais insurgentes galeses quanto considerando a possibilidade de ataques vikings.

Quatro destas fortificações, construídas justamente na região de Gwynedd, foram inscritas pela UNESCO na Lista do Patrimônio Mundial em 1986. Trata-se dos castelos de Beaumaris e Harlech e as cidades fortificadas de Caernarfon e Conwy

Visitei apenas esta última, indo de Londres e fazendo uma conexão ferroviária na cidade inglesa de Chester. Conwy (pro. con-uái) é uma pequena cidade galesa de 15 mil habitantes, miúda a ponto de o trem só parar na estação se o passageiro fizer sinal para que pare.

Ali visitei o castelo e as fortificações que se estendem pela cidade. Os fortes e castelos do Rei Eduardo I foram construídos de forma inovadora no séc. XIII, tanto pela robustez quanto pela posição estratégia meticulosamente escolhida e serviram de modelo para muitos outros castelos e fortificações na Grã-Bretanha e na Europa nos séculos seguintes.

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O castelo de Conwy foi construído entre 1283 e 1289 e fica num promontório (formação rochosa elevada), com estratégica vista do mar e do Rio Conwy.

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A UNESCO considera que o Castelo de Conwy é um dos melhores exemplos de arquitetura militar europeia dos séculos XIII e XIV. Nele, percebe-se que dentro das grossas paredes de pedra com suas várias torres, havia vários setores como cozinha, salas, uma capela e vários ambientes que permitiam o alojamento seguro de uma quantidade razoável de pessoas, mesmo sob ataque, o que ocorreu, por exemplo, na revolta galesa liderada por Owain Glyndŵr no séc. XV.

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Vendo depois as fotos de outra fortificação inserida no PH, a de Caernarfon, me deu pena não ter planejado também visitá-la, porque parece ainda mais impontente que a de Conwy.Vejam a foto do Castelo de Caernarfon extraída da página do wikipedia:

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Embora os castelos e fortificações costumem deixar admirados os visitantes quando vistos de longe, a verdade é que não há muito o que se ver dentro deles, exceto se a pessoa for particularmente interessada em engenharia militar. Assim, a visita costuma ser breve e eu acabei desistindo de dormir em Conwy e decidi partir dali no mesmo dia para visitar um outro PH. 

País de Gales – Reino Unido – 2013

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Eu havia estado na Escócia em 1997 e na Irlanda do Norte em 2005, então desta vez eu quis dar uma olhada em Gales.

Boa parte dos 3 milhões de habitantes deste país constituinte do Reino Unido mora no sul, na capital Cardiff e seus arredores. Lendo a respeito de Gales fiquei, porém, mais interessado em visitar o norte do país, onde estão dois Patrimônios da Humanidade que exaltam duas fases históricas de Gales: a anexação promovida pelos ingleses no séc. XIII e sua industrialização nos séc. XVIII e XIX.

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Fui diretamente à pequena cidade de Conwy (pron. con-uái) para visitar um dos 4 castelos incluídos pela UNESCO no PH chamado Castelos e Muros do Rei Eduardo I em Gwynedd (nome desta região galesa).

De lá, com alguma dificuldade, cheguei até o Aqueduto de Pontcysyllte, o mais recente PH inscrito pelo Reino Unido na Lista da UNESCO em 2009.

Pontcysyllte fica próximo à encantadora cidade de Llangollen e pronunciar o nome destes dois locais é uma dureza. O galês é uma língua de origem celta e é oficial em Gales junto com o inglês, embora apenas algo em torno de 20% de sua população domine bem o galês.

Há um terceiro PH em Gales, na cidade de Blaenavon, no sul do país, mas ficou fora do meu roteiro.

De Gales eu segui para Liverpool, de volta à Inglaterra, onde visitei 14 Patrimônios da Humanidade, que serão detalhadamente abordados nas próximas semanas.