Esplendores do Vaticano no Parque do Ibirapuera

Aproveitei o domingo de sol para fazer uma das melhores coisas que há para se fazer em São Paulo: ir ao Parque do Ibirapuera. Em um fim-de-semana prolongadíssimo como este (resultado da emenda dos feriados do dia 15 e do dia 20 na capital e em muitas cidades do interior), eu normalmente teria embarcado em alguma viagem, mas a reforma do meu apartamento me prendeu aqui.

A ideia era ver a 30.ª Bienal de São Paulo no pavilhão que fica ao lado do Museu de Arte Moderna (MAM). Eu nunca tinha entrado neste pavilhão. Projetado por Niemeyer, as partes internas são (claro) espantosamente curvilíneas, dando graça e leveza ao lugar. As exposições de arte moderna (neste caso, melhor dizendo, arte contemporânea) não chegam a me empolgar, normalmente eu gosto só de coleções de fotografias e telas abstratas.

escadas_bienal

Saindo de lá, justo ao lado, na Oca (também projetada por Niemeyer) vi e me lembrei de uma exposição muito bem falada aqui em São Paulo, com peças originais e réplicas mandadas diretamente do Vaticano – proprietário de todas elas –, a maioria pela primeira vez, apenas para serem expostas aqui. O nome da exposição é Esplendores do Vaticano: uma jornada através da fé e da arte.

A entrada tem o europeu preço de R$ 44 (mais os R$ 10 do audioguia), mas vale cada centavo e o preço é justo pela magnífica exposição que montaram – uma viagem pela história do local onde se situa o Vaticano e, como não poderia deixar de ser, também pela história da Igreja. Um trabalho realmente impressionante!

Eu fui ao Vaticano uma única vez, em out/2003. Durante a metade de uma dia visitei a Basílica de São Pedro e áreas externas do país (o Vaticano, com 440 mil metros quadrados e por volta de 900 habitantes fixos, é um país soberano reconhecido por quase todos os países-membros da ONU e, na ONU, tem status de observador permanente) e, em um outro dia inteiro, visitei os Museus do Vaticano.

A exposição em São Paulo começa com a história do martírio de São Pedro em Roma, no Circo de Nero, e seu sepultamento nas colinas próximas onde construiu-se, sobre seu túmulo, um pequeno e clandestino altar.

Com a conversão do Império Romano ao Cristianismo, o Imperador Constantino fechou o antigo cemitério romano e, no local onde Pedro havia sido enterrado, mandou construir uma Basílica, com formato e dimensões pouco usuais para os padrões romanos, pois o templo cristão permitiria a entrada dos fiéis, não só dos sacerdotes. Esta Basílica, que passou a ser conhecida como Basílica de Constantino é hoje muito pouco lembrada, mas ela esteve lá onde hoje é o Vaticano por quase 1.200 anos (consagrada pelo Papa Silvestre I em 326).

A exposição trouxe ícones medievais e outras formas de arte que existiram dentro da Basílica de Constantino (como o Mosaico do Oratório do Papa João VII) e os impressionantes cibórios da cruxificação de S. Pedro e da decapitação de S. Paulo – aqui um parêntese: no brasão do Estado de São Paulo está a espada representativa do martírio do santo que dá nome ao estado.

spaulo

Brasao_SP

Também lá está a réplica da Pietà, de Michelangelo (uma das grandes atrações da Basílica de São Pedro), produzida em 1499, antes da Basílica nova, portanto, cuja construção iniciou-se em 1506. O Papa Júlio II ficou bastante impressionado com o trabalho do jovem Michelangelo e a partir dali nasceu uma “parceria” fundamental para a realização da impressionante obra que é a Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Michelangelo's_Pieta_5450_cropncleaned

Embora seja réplica, a trazida pelo Vaticano a São Paulo é uma réplica, digamos, perfeita. Em 1972 um lunático atacou a original da Pietà, causando danos consideráveis. Para o trabalho de restauração, foi fundamental a cópia existente (de 1930). A réplica em SP é de 1975.

A mostra fala que Júlio II ascendeu ao trono papal já sexagenário e era de personalidade enérgica, difícil, extremamente detalhista e muito ambicioso. Júlio II decidiu fazer o que para muitos foi um sacrilégio: derrubar a Basílica de Constantino e fazer outra muito maior…

441px-Pope_Julius_II

A Basílica demorou 126 anos para ficar pronta e atravessou 21 papados, sendo consagrada por Urbano VIII em 1626 (1.300 depois da consagração da Basílica de Constantino).

800px-Petersdom_von_Engelsburg_gesehen

A exposição fala e expõe alguns objetos relativos à construção da Basílica (inclusive um compasso usado por Michelangelo) e detalha algumas das muitas dificuldades (como ter que remover de lugar o obelisco que hoje está no meio da Praça da Basílica, com suas 330 toneladas, para o que necessários 13 meses).

Achei interessante o paralelo que traçaram entre os Papas e os arquitetos que trabalharam nesta obra singular (Michelangelo,  Rafael, Bramante, Bernini) e sua relação nem sempre amistosa. Diz-se que Júlio II perturbava Michelangelo para saber quando a Capela Sistina ficaria pronta, ao que lhe respondeu: “Ficará pronta quando eu conseguir fazê-la ficar pronta!”… O linha-dura Paulo IV, por sua vez, ficou horrorizado quando viu, na Capela Sistina afrescos de nus e brigou com Michelangelo, que, contrariado, apenas cobriu os nus quando o papa lhe cortou os pagamentos…

sistine-chapel-picture-600x452

O baldaquino (aquela extraordinária estrutura em bronze retorcido que fica exatamente sobre o altar-mor) foi obra de Bernini (assim como a colunata externa). Esta estrutura em bronze é tão alta como um prédio de 5 andares. Urbano VIII (nome de família Barberini) não teve dúvida: mandou arrancar as placas de bronze do Panteão Romano (um imponente marco imperial em Roma) e derretê-las para produzir o baldaquino. Na época, comentou-se em Roma: “O que nem os bárbaros se atreveram a fazer, Barberini fez”. Não custa lembra que o túmulo de Pedro está abaixo do altar central, coberto pelo baldaquino.

431px-Het_Baldakijn_van_Bernini_-_The_Baldachinno

Há várias telas na exposição, algumas muito conhecidas como “Veronica de Guercino” ou “A Virgem Maria e o Menino Jesus com Livro” (também de Guercino) – esta última revelando o que o audio-guia descreveu como “iconografia humanizada e comovente intimidade” entre mãe e filho.

185478-600x600-1

The Virgin Mary with Child and Book

Ainda há, sob o título “Diálogo com o Mundo”, uma série de objetos ligados à expansão da Igreja pelos 5 continentes, uma galeria com quadros de papas, bastante material sobre o Beato João Paulo II e, por fim, uma projeção da Capela Sistina. Eu me lembro que não foi nada fácil apreciar a Capela Sistina in loco: é que multidões buscam entrar ali diariamente. Pode-se ficar poucos minutos lá dentro e a musculatura do pescoço sofre para visualizar o teto. Aqui em SP o problema é que projetaram os afrescos também no teto… No link abaixo, noticio que o Vaticano estuda limitar o número de turistas que visitam a Capela Sistina.

Eu gostei bastante da exposição e acho que ela agrada tanto a quem já foi ao Vaticano quanto a quem ainda não foi.

A Cidade do Vaticano, inteira, é Patrimônio da Humanidade desde 1984 e também são PH todas as propriedades da Santa Sé que gozam de direitos extraterritoriais (estão fora da Cidade do Vaticano, dentro da Itália, mas sob soberania vaticana), como a Igreja São Paulo Fora dos Muros.

Site da exposição: www.esplendoresdovaticano.com.br. A exposição ocorrerá até o dia 23 de dezembro de 2012.

Veja também: http://www1.folha.uol.com.br/turismo/1178302-vaticano-estuda-limitar-visitas-a-capela-sistina.shtml