Universidade de Coimbra–Alta e Sofia–mai/2012

Inscrito em 2013, este é o 151.º Patrimônio da Humanidade que visitei, ainda em mai/2012, quando excursionei por Portugal. 

Cheguei a Coimbra vindo de Fátima e passei uma noite lá. O relato que fiz durante a viagem está aqui.

Não há muitas universidades incluídas na Lista da UNESCO por direito próprio, sequer são Patrimônio da Humanidade as famosas Universidades de Oxford ou Cambridge, na Inglaterra. As duas universidades que são PH, pelo que me lembro, são o Campus Central da Universidade Nacional Autônoma do México e a Cidade Universitária de Caracas, na Venezuela. Também merecem menção as cidades universitárias de Salamanca e Alcalá de Henares, na Espanha.

Foi muito justa a inscrição da Universidade de Coimbra. Para a UNESCO, “os edifícios da Universidade tornaram-se referência no desenvolvimento da educação superior no mundo lusófono, onde ela também exerceu grande influência no ensino e na literatura. Coimbra oferece um excepcional exemplo de integração de uma universidade a uma cidade, com uma tipologia urbana específica, tendo, ainda, perservado cerimônias e tradições culturais que se mantiveram vivas ao longo de séculos”.

Tudo isto é muito “palpável” quando se visita Coimbra. A mim, pareceu que a Universidade é o eixo ao redor do qual a cidade gira e as tradições estudantis confundem-se com as próprias tradições da cidade. Vi isto de perto: tanto ao presenciar uma enorme festa dos estudantes pelas ruas em razão de sua formatura quanto quando fui a uma apresentação de fado, conduzida por antigos alunos.

A Universidade de Coimbra foi fundada em 1290 por Dom Dinis. É, portanto, uma das mais antigas do mundo. Por lá passaram numerosos expoentes da intelectualidade portuguesa (como Eça de Queirós). Coimbra foi a grande referência para as famílias brasileiras endinheiradas na época da Colônia e do Império, que para lá enviavam seus filhos. Um exemplo de estudante brasileiro em Coimbra é José Bonifácio, figura decisiva no processo de independência do Brasil.

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As disciplinas da Universidade de Coimbra, tradicionalmente, eram teologia, medicina e direito, mas após reformas produzidas pelo Marquês de Pombal, outros cursos passaram a ser ministrados.

Um elemento marcante nos prédios da Universidade é o campanário ou a “torre do relógio” (concluído em 1753), conhecido como “a Cabra”. Consta no guia do Lonely Planet que isto se dava pela forma como que os calouros fugiam dos veteranos assim que os sinos tocavam indicando o fim das aulas. Se é verdade, não sei.

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O grande destaque do conjunto arquitetônico que compõe o Patrimônio da Humanidade, certamente, é a Biblioteca Joanina (abaixo foto da entrada, internamente, as fotos são proibidas, por isto coloquei fotos extraídas da wikipedia):

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D. João V foi quem mandou construí-la no séc. XVIII (daí o nome). Foi no longo reinado de João V que as formidáveis jazidas de ouro e diamantes foram descobertas em Minas Gerais, o que permitiu ao monarca construir não só esta magnífica biblioteca, mas ainda o Palácio de Mafra (que é Tentativa de Patrimônio da Humanidade e que também visitei em 2012) e a Capela de São João Baptista, na Igreja de São Roque em Lisboa, dentre outros.

A visita à Biblioteca Joanina tem horários restritos, é necessariamente guiada e em pequenos grupos. Não é exagero: lá estão 300 mil livros guardados entre madeiras exóticas meticulosamente entalhadas com detalhes em ouro.

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Também é possível visitar outras partes da Universidade, como a Capela de São Miguel e a Sala Grande dos Actos (ou Sala dos Capelos), onde ocorrem os principais eventos acadêmicos.

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Foi um enorme prazer ter visitado Coimbra. Na época, eu já sabia que a candidatura desta Universidade a integrar a Lista do Patrimônio Mundial era forte, mas independente disto, a cidade merece ser visitada, não só pela Universidade, mas também pelas duas catedrais da cidade: a Sé Velha (foto abaixo), edifício românico notável e a Sé Nova. A UNESCO inscreveu, ainda, o Jardim Botânico, mas em razão do tempo ruim que fazia no dia, não pudemos visitá-lo.

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Novos Patrimônios da Humanidade em Portugal?

Divulgou-se que Portugal, aparentemente, cumpriu o prazo-limite de 1.º de fevereiro que a UNESCO estabelece para a apresentação de toda a documentação relativa às tentativas de PH que os países queiram ver apreciada para eventual inscrição.

Assim, após a inclusão de um determinado lugar na Lista de Tentativas, se o país quiser realmente que ele seja apreciado para fins de inscrição, deve, até o prazo de 1.º de fevereiro do ano anterior à sessão do Comitê, apresentar um dossiê completo atendendo a todas as exigências da UNESCO.

Ao que tudo indica, portanto, em 2014, o Comitê do Patrimônio Mundial analisará a inscrição da Serra da Arrábida, próxima de Lisboa, como Patrimônio Misto (cultural + natural) da Humanidade.

Quando em 2012 estivemos em Portugal, passamos por uma praia nesta região, que, embora seja atlântica, lembra muito os cenários mediterrâneos. Até me arrisquei, junto com meu irmão, a entrar na praia, mas a água esta muito fria.

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Para 2013 está confirmada a apreciação da tentativa de inscrição da Universidade de Coimbra e as chances são muito boas, diria que seria uma grande surpresa se ela não entrasse. Na foto, a entrada da espetacular Biblioteca Joanina:

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Na viagem a Portugal, também passamos por Coimbra e gostei muito, tanto da Universidade, que é bastante interessante, quanto das igrejas da cidade e apreciei muito ter ido a uma apresentação de fado. Uma breve descrição sobre a visita a Coimbra pode ser vista aqui. Acaso a inscrição realmente ocorra, em julho (a reunião do Comitê será em Phnom Penh, no Camboja), farei um post mais detalhado.

Se Portugal, nos próximos dois anos, vier a inscrever estes dois lugares, alcançará o impressionante número de 16 Patrimônios da Humanidade, um feito notável para um país pequeno como aquele.

Já o Brasil, que tem 19 PH, pelo que pude me informar, não conseguiu cumprir o prazo para apresentação do dossiê relativo a Paraty em 2012, então não será possível apreciar a tentativa em 2013. Não tenho notícia se para 2014 as autoridades responsáveis foram capazes de fazê-lo.

A notícia sobre a tentativa de inscrição da Arrábida está aqui:

http://www.ptjornal.com/2013020113782/geral/sociedade/sera-a-arrabida-eleita-patrimonio-da-humanidade-a-unesco-decide.html

Patrimônios da Humanidade em Portugal

Portugal é bem aquinhoado de Patrimônios da Humanidade: apesar de ser um pequeno país, ostenta 13 lugares inscritos na Lista da UNESCO.

Dez deles ficam na parte continental, concentrados entre o centro e o norte do país. Não há nenhum PH no Algarve, embora esta seja uma das regiões mais turísticas de Portugal – especialmente por causa de suas praias. No continente, todos os PH são culturais e, à exceção das gravuras rupestres do Côa e dos vinhedos do Alto Douro, são ligados a igrejas e centros históricos de cidades.

As igrejas tombadas são o Monastério dos Jerônimos, o Convento de Cristo em Tomar e os Mosteiros de Alcobaça e Batalha. Os núcleos urbanos históricos do Porto, Guimarães e Évora completam a lista continental, além da paisagem cultural de Sintra.

Não poderia ser diferente, pois Portugal tem uma fascinante história. Já muito cedo conquistou sua independência e lutou bravamente para defendê-la e recuperá-la em face de vizinhos poderosos e muito maiores. Apesar de suas modestas dimensões (e pequena população), lançou-se aos mares e “descobriu” meio mundo, conquistando partes importantes da América, África e Ásia. Os recursos obtidos com estas terras conquistadas permitiram a construção de templos e centros urbanos que hoje são Patrimônios da Humanidade.

Ficamos bastante satisfeitos por termos conseguido visitar todos os 10 PH que se situam em Portugal continental e nos pareceu que algumas tentativas de inscrição merecem alcançar a Lista, como a Universidade de Coimbra (Portugal tentará inscrevê-la em 2013).

Não foi possível visitar as Fortificações de Elvas, no Alentejo, que é a tentativa de inscrição em 2012 – nos próximos dias a UNESCO deliberará sobre isto. O parecer técnico do ICOMOS foi no sentido de que Portugal precisa mandar maiores informações para justificar esta tentativa, mas o Comitê do Patrimônio Mundial pode, ainda assim, inscrever este sítio histórico. Logo teremos a resposta.

Os três PH restantes da República Portuguesa se situam nos arquipélagos no Atlântico e a visita a eles ficará para o futuro.

Nos Açores (arquipélago no Altântico com 250 mil habitantes), o Centro Histórico de Angra do Heroísmo e a Paisagem Cultural dos Vinhedos da Ilha do Pico são Patrimônios da Humanidade.

Já a Ilha da Madeira (pop. 267 mil) tem o único PH natural de Portugal: a Laurissilva – uma espécie de floresta úmida subtropical.

Com este post, encerro a análise que começou ainda em abril sobre Portugal e seu acervo histórico-cultural, no contexto de nossa viagem a este país. Foi um enorme prazer ir a Portugal e entrar em contato com sua cultura, sua história e sua culinária. Não descarto voltar!

Centro Histórico de Évora – PH n.º 123

Nos tempos romanos, Évora era uma importante cidade na Península Ibérica, quando era chamada Ebora Liberalitas Julia. Na Idade Média era um efeverscente centro acadêmico, cultural e político: até reis já se instalaram lá. Ocorre que, a partir de então, Évora iniciou um longo e duradouro processo de decadência – hoje tem menos habitantes que na própria Idade Média – e isto, de certa forma, ajudou a preservar seu centro histórico, fenômeno este que também ocorreu em algumas cidades brasileiras como Diamantina e Goiás (ambas são PH).

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Passear pelas vielas da cidade, com as casas pintadas de branco com detalhes predominantemente amarelos – um tanto quanto parecidas com o centro-sul da Espanha -, já é um grande prazer. E as atrações se sucedem: do período romano o principal marco é o Templo Romano. Possivelmente dedicado ao culto da deusa Diana, é notavelmente conservado, considerando que foi construído entre os séc. II e III. A explicação para que suas colunas hoje estejam tão impressionantes como estão é que, na Idade Média, alguém aproveitou-se da estrutura deixada pelos romanos e emparedou as colunas, até que foram redescobertas no séc. XIX.

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O teatro fica próximo de dois lugares indispensáveis: o Museu de Évora e a Catedral. O Museu – embora seja falho na descrição dos objetos expostos –, tem um bom acervo de arte romana, medieval e até islâmica, lembrando que esta região portuguesa permaneceu sob domínio árabe durante muito mais tempo que o norte do país. A Catedral da Sé (séc. XII) tem torres assimétricas e interior gótico. Nela foram abençoadas, em 1497, as bandeiras da nau de Vasco da Gama antes de sua viagem às Índias. 

Um lugar famoso em Évora é a Igreja de São Francisco (séc. XV) por causa da Capela dos Ossos. Já na entrada um assustador aviso: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”. Em outros lugares da Europa há estas capelas feitas com ossos de milhares de pessoas – no caso da igreja em Évora são os restos mortais de 5.000 monges que ali viveram. É o que se chama de memento mori, ou a “lembrança da morte”. Antes da Capela dos Ossos em Évora eu já tinha ido a uma outra capela, mais bem “decorada”, digamos assim, com ossos em Kutná Hora, na República Tcheca.

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Também merece menção o Aqueduto da Água da Prata, do séc. XVI, que com seus 8,5 km vem de longe e perfura os limites do centro histórico. Este aqueduto é mencionado nos Lusíadas de Camões. Nós andamos bastante para tentar subir e caminhar um pouco pelo aqueduto mas não conseguimos encontrar um ponto de acesso.

Para não deixar Évora escapar do nosso roteiro, foi necessário dar uma grande volta desde o norte de Portugal, passando por estradas do leste do país. Mas Évora pode ser alcançada por quem está embasado em Lisboa e muita gente opta por um day-trip a partir da capital. Nós ficamos ali dois dias inteiros e não nos pareceu excessivo.

Sítios de Arte Pré-Histórica do Vale do Côa e Siega Verde– PH n.º 122

Este Patrimônio da Humanidade é compartilhado entre Portugal e Espanha. Visitamos apenas a parte portuguesa que se situa no vale do Rio Côa. A cidade-base para a visita ao Parque Arqueológico é Vila Nova de Foz Côa e, a partir dela, vai-se às áreas abertas para visitação pública dos sítios arqueológicos que são três: Canada do Inferno, Ribeira de Piscos e Penascosa.

A visita a estes sítios arqueológicos não é livre. Depende-se de passeios guiados, com rígido controle do número de visitantes por dia. O escritório de turismo do parque organiza os passeios (custo de € 10 por sítio por pessoa) e, mesmo na “baixa temporada”, nós não conseguimos vaga para visitação justamente no sábado em que estávamos em Vila Nova.

Para quem não consegue os passeios do escritório de turismo do parque, resta conseguir algum guia privado que tem autorização para conduzir passeios (custo de € 12,50 por pessoa). Esta alternativa nos permitiu ir ao sítio de Penascosa, embora eu tenha ficado um pouco frustrado com a qualidade das informações que nos foram passadas pelo guia. Penso que deve ser muito melhor ir com o escritório de turismo, então quem se dispuser a ir, melhor reservar antes.

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Segundo a UNESCO, “a excepcional concentração de gravuras rupestres, principalmente da era paleolítica (22.000 a 10.000 a.C.) é o mais relevante exemplo de atividade artística humana nesta modalidade que se encontra no mundo”. De fato, estamos falando de gravuras (diferentemente da Serra da Capivara, onde predominam as pinturas) antiquíssimas, produzidas por seres humanos ainda em estágio muito  primitivo e que viviam da caça.

Os animais, aliás, são o grande tema das gravuras. Podem ser identificados cavalos, veados, íbex, auroque, peixes e, possivelmente, assim como na Serra da Capivara, a função de terem estes pessoas se ocupado em produzir as gravuras era para fins didáticos e de registro. Não foram encontradas figuras de animais domésticos, como galinhas ou ovelhas, que não existiam, à época na Pensínsula Ibérica.

Este ponto da península, no qual há um microclima excepcionalmente quente, foi adequado à vida humana naquela época em que a Era Glacial cobriu boa parte da Europa com neve durante quase todos os meses do ano.

As gravuras não são fáceis de serem compreendidas, especialmente porque em muitos casos elas estão sobrepostas. Segundo a UNESCO, a existência de desenhos de vários animais sobrepostos pode ter sido feita para dar a impressão de movimento das manadas ou algo assim, como nesta pedra abaixo:

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Quando o animal está representado isoladamente é mais fácil visualizar:

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Vejam se conseguem ver um cervídeo gravado na pedra abaixo:

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Aqui está nítido: 

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Próximo a Vila Nova de Foz Côa foi montado um museu para informar a respeito das descobertas arqueológicas que ocorreram neste nordeste de Portugal (assim como na Espanha, logo ali ao lado). Lá há um painel luminoso que mostra os locais de arte rupestre pré-histórica que foram considerados Patrimônios da Humanidade, incluindo a Serra da Capivara no Brasil:

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Os achados arqueológicos aqui são bem recentes (década de 1990) e ocorreram no contexto das obras para construção de uma barragem no Rio Côa que iria, naturalmente, fazer submergir as gravuras pré-históricas. A história já foi bem relatada neste blog pelo Sr. Saheki:

Na semana passada, assisti à reportagem da NHK sobre esse PH que foi descoberto por acaso no início da década de 90, quando decidiram construir uma barragem nesse local. Foi feita a peaquisa sobre os locais a serem submersos e descobriram esse sítio arqueológico. O governo, porém, por interesse econômoco, escondeu esse fato e proseguiu a construção da barragem. A imprensa, com seu faro aguçado, descobriu e publicou como “A barragem de segredo”. Quem organizou o movimento para proteção do sítio foram os alunos do colégio local e conseguiram em 3 semanas mais de 110 mil abaixo-assinados com ajuda de outros colégios do todo território.
Esse entusiasmo dos jovens moveu o governo e resultou em desistência de construção da barragem nesse local e em 1998 esse sítio arqueológico com mais de 7000 desenhos gravados nas pedras por extensão de 17 km fez parte do Patrimônio da Humanidade.

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Abaixo, o Rio Côa, em cujas margens estão as gravuras tombadas como Patrimônio da Humanidade:

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