Patrimônios da Humanidade ligados a Oscar Niemeyer

Oscar Niemeyer (1907-2012) foi um arquiteto modernista de primeira grandeza e é reverenciado em todo o mundo por seu legado e sua contribuição à arquitetura mundial no séc. XX (que ele presenciou praticamente inteiro).

Obviamente, a primeira referência que se tem de Niemeyer é Brasília, projetada por ele e por Lúcio Costa, no megaempreendimento obstinadamente perseguido por Jucelino Kubitschek, então presidente do país.

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A marca de Niemeyer se fez sentir também em Diamantina (MG), em especial no Hotel Tijuco (foto abaixo) e uma escola pública. Niemeyer, que já era conhecido de Kubitschek, foi por ele convidado a realizar obras em sua cidade natal.

Na França, foi inscrita (em 2005) a cidade litorânea de Le Havre, sob o título Le Havre, cidade reconstruída por Auguste Perret. Le Havre foi devastada durante a II Guerra Mundial, mas já em 1945 começaram os trabalhos de reconstrução e a cidade foi remodelada por arquitetos modernistas, em especial por Auguste Perret, mas Niemeyer deu sua contribuição, projetando o centro cultural chamado Le Volcan:

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Na Costa Amalfitana (PH situado na Campania, Itália e inscrito em 1997 como Costiera Amalfitana) também há obra de Niemeyer, o Auditorium Ravello, que, no entanto, não é unanimidade, muita gente o considera grotesco e despropositado para este famoso trecho do litoral italiano.

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Deve haver outros PH com obras de Oscar Niemeyer, mas os que eu consegui identificar são estes. De qualquer forma, a marca de Niemeyer no Brasil (e mesmo em muitas cidades mundo afora) é profunda e indelével.

Como imaginar São Paulo sem o Memorial da América Latina, sem os prédios projetados por Niemeyer no Parque do Ibirapuera ou sem o Edifício Copan (foto)?

Como imaginar Belo  Horizonte sem o Conjunto Arquitetônico da Pampulha, Curitiba sem o apelidado “Museu do Olho” ou Niterói (foto) sem o Museu de Arte Moderna? O Brasil sem sua capital?

Niemeyer, falecido na invejável idade de 104 anos (quase 105), está entre os mais notáveis, profícuos e influentes brasileiros de todos os tempos.

Strasbourg – Grande Île – PH n.º 108

Falei bastante (clique aqui), ainda durante a viagem, sobre Estrasburgo – cidade de que gostei muito. Agora é hora de falar especificamente sobre o Patrimônio da Humanidade lá reconhecido em 1988. A área delimitada pela UNESCO corresponde a uma ilha formada por dois braços do Rio Ill, bem no centro da cidade.

De acordo com a UNESCO, “a Grande Ilha (fr. Île) de Estrasburgo é um extraordinário exemplo de um conglomerado urbano característico da Europa Central e um conjunto único de arquitetura doméstica dos séculos XV e XVI no Vale do Rio Reno. [A Grande Ilha] representa o vetor no sentido leste do movimento artístico gótico”.

A bem da verdade, a grande atração deste Patrimônio da Humanidade é, sem dúvida alguma, a deslumbrante Cathédrale de Notre Dame de Strasbourg.

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De todas as catedrais desta viagem à Europa no inverno 2011/12, posso afirmar que é a de Estrasburgo a que reúne o mais significativo conjunto de atributos estéticos, artísticos, históricos e arquitetônicos. E eu não estou sozinho nesta avaliação: ninguém menos que Goethe considerava esta catedral como a catedral gótica por excelência.

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Tive a chance de vê-la tanto durante a noite, quanto durante a manhã e à tarde. Não é fácil se cansar de admirá-la por fora ou por dentro. Primeiro porque, por fora, a tonalidade avermelhada, às vezes mais para o marrom, às vezes chegando quase ao rosa, produz um efeito estético muito mais agradável que as negras pedras da Catedral de Colônia.

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A fachada rivaliza de igual para igual com uma magnífica rosácea e os pórticos frontais são detalhadamente esculpidos e com tanta “informação” que quase se poderia dizer que ali estão escritos os Evangelhos na forma de esculturas em pedra. Destaque para as estátuas das Virgens Sábias (com rostos serenos e confiantes) em confronto com as Virgens Tolas (com expressões faciais que me fizeram rir). A metáfora (ou “parábola”) das Virgens é contada no Evangelho de Mateus 25, 1-13.

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A praça onde se situa a Catedral de Notre Dame de Strasbourg é bem mais simpática que a de Colônia (para continuarmos a comparação entre dois gigantes templos góticos). É que como Colônia foi arrasada na II Guerra Mundial, em seu entorno estão prédios modernos e uma estação de trens. Em Estrasburgo estão casas típicas da Alsácia, região francesa da qual é capital. Outra notória diferença (e esta pesa em favor da Catedral de Colônia) é que a de Estrasburgo tem apenas uma torre.

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Dentro, estão todos os elementos que compõem uma catedral gótica, majestosamente decorados e harmônicos. Vou me deter apenas nas peculiaridades que mais me chamaram a atenção.

No lado direito do altar central está o importantíssimo Pilar do Julgamento Final (ou Pilar dos Anjos) que marcou profundamente a história de outras catedrais góticas e neogóticas pois a partir dele os pilares das catedrais passaram a ser importantes elementos de decoração, deixando de ter apenas função estrutural. No topo, a figura de Cristo, o Juiz; abaixo, os Anjos soando trompetas e; ainda mais abaixo, os quatro Evangelistas.

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Todo mundo busca ver, bem ao lado do Pilar, o Relógio Astronômico que, pontualmente ao meio dia e meia, aciona mecanicamente uma série de “personagens” como um galo batendo asas, um corvo, e, principalmente, a “procissão” dos 12 Apóstolos perante Cristo. O relógio e seus fartos ornamentos visam explicitamente a levar à reflexão, por parte de quem os vê, sobre a brevidade da vida e sobre a inexorabilidade da passagem do tempo. Imperdível! Mas os ingressos para este “espetáculo” são pagos (bem baratos) e limitados, é melhor comprar algum tempo antes.

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Ao lado da Catedral está um museu que abriga peças originais da catedral (mantendo-as a salvo das intempéries) como alguns vitrais e estátuas, além de grande acervo de arte da Alsácia (telas, tapeçaria, prataria, etc.). Mas quem quiser ver bem a fundo a cultura desta região da França com cara de Alemanha não deve perder o próprio Musée Alsacien, a algumas quadras dali.

Uma parte bem turística de Estrasburgo é a Petite France com prédios históricos às margens do Rio Ill, saem boas fotos ali se o sol estiver favorável.

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Há muito mais o que ver em Estrasburgo, inclusive muitas igrejas importantes tanto católicas quanto protestantes. Por isto, dois dias são bem preenchidos em Estrasburgo. Se o tempo for mais curto, a única coisa que não se pode perder de jeito nenhum é a Catedral de Notre Dame.

Place Stanislas, Place de la Carrière e Place d’Alliance em Nancy, França – PH n.º 107

Nancy é a capital da região francesa da Lorena (fr. Lorraine). Eu apenas parei aqui na viagem de trem entre a Cidade de Luxemburgo e Estrasburgo para visitar as três praças situadas no centro da cidade e que compõem um Patrimônio da Humanidade reconhecido em 1983.

A Praça Estanislau é muito suntuosa. A alguma distância já se visualizam os portões em ferro decorados com detalhes dourados e estilo rococó. Quando finalmente se alcança a Place Stanislas é difícil não se admirar: são 125 por 106 metros (um grande espaço público interditado ao trânsito) com belos prédios circundantes, um Arco do Triunfo e uma imponente estátua do Duque Estanislau de Lorena.

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Tudo aqui se deve a ele: Stanisław Leszczyński, que foi rei da Polônia em períodos intermitentes e que recebeu de seu genro, o Rei Luís XV da França, o Ducado de Lorena em 1737. De posse de seu Ducado, Stanisław resolveu embelezar a capital Nancy, interligando a parte antiga da cidade com a nova por meio de praças, nas quais seriam construídos prédios públicos como o Hôtel de Ville e o Hôtel du Governement.

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Para isto, contratou o arquiteto real Emmanuel Héré de Corny e o resultado foram estas três praças, embora apenas a Praça Estanislau seja extraordinária. O Arc de Triomphe que separa a Place Stanislas da Place de la Carrière foi batizado em homenagem a Héré.

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Depois de dar uma volta, vale a pena sentar e pedir um café para ficar admirando a Praça Estanislau, embora o tempo necessário para desfrutar o café talvez seja suficiente para seguir viagem. Não há tanto assim o que ver. De qualquer forma, fiquei bastante impressionado com o extremo zelo com que a praça é cuidada.

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As duas outras praças que compõem o PH estão praticamente coladas na Place Stanislas, mas de forma alguma concorrem com ela. A Place de la Carrière tem uma passarela de árvores e um prédio público francês ao fundo. Estava apinhada de carros estacionados e o que merece menção são seus portões, no mesmo modelo dos da praça principal.

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A Place de l’Alliance é bem menor e circundada por prédios (residenciais, eu acho). Há um monumento em seu centro e, não fosse isto, seria apenas uma pracinha de bairro. Havia muito excremento de cachorro na Place de l’Alliance, um perigo para caminhar!

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Este PH pode ser visitado de forma bem rápida. Para mim, valeu perceber a marca indelével que alguns governantes acabam por imprimir em suas cidades. Assim como César Augusto transformou Roma a partir de uma cidade de tijolos em uma cidade de mármore, Stanisław Leszczyński deu uma cara de capital imperial a Nancy, até então uma acanhada cidade do leste da França.

Estrasburgo – Alsácia – República Francesa

Estrasburgo fica numa região da França (Alsácia) que oscilou entre este país e a Alemanha durante séculos. Então, a Alsácia é uma parte germanizada da França e, se fosse da Alemanha (como foi durante vários períodos) seria sua parte afrancesada. A arquitetura do centro histórico lembra até mais a Alemanha.

Estrasburgo completa o circuito de cidades que hospedam instituições da União Européia. Uma das sedes do parlamento está aqui (foto), bem como a Corte Européia dos Direitos Humanos. Assim como em Luxemburgo e Bruxelas existe uma espécie de “bairro europeu”, que abriga tais instituições.

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Além disto, também está em Estrasburgo o Conselho da Europa, uma instituição que precedeu a União Européia e que ainda existe, com mais membros (por exemplo, Turquia, Ucrânia, Rússia e até a Suíça) mas sem poderes legislativos, ao contrário da UE que os tem.

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O coração de Estrasburgo, sua parte antiga, é chamada de Grande Île, porque, de fato, é uma ilha formada no Rio Ill. Toda a Grande Île é patrimônio da humanidade, com dois grandes destaques: a Catedral de Estrasburgo e a Petite France. Eu pensei que, depois da Catedral de Colônia, nenhuma outra igreja me surpreenderia nesta viagem. Mas eu estava muito errado: já em Trier fiquei maravilhado com as duas igrejas tombadas pela UNESCO e, aqui em Estrasburgo, é impossível não ficar admirado com a colossal catedral gótica, que conta com o diferencial de ter uma bela cor avermelhada por fora. Não bastasse toda a maravilha gótica que é, a Catedral ainda ostenta, no seu interior, um “relógio astronômico” e, ao meio dia e meia, todos os dias, ele aciona um mecanismo pelo qual desfilam os 12 apóstolos perante Cristo. Formidável!

Fiquei muito tempo na Catedral de Estrasburgo, que ainda conta com um museu (Musée de l’Œvre Notre Dame) que é imperdível pois contém várias peças originais da catedral como vitrais e esculturas. Fui ainda ao Museu da Alsácia e à chamada Petite France.

As catedrais do período gótico sempre me tocam. São construções que, hoje, nenhum país, nenhuma empresa toparia fazer. Eram projetos que demoravam séculos para terminar e as pessoas sabiam disso. A Catedral de Colônia, por exemplo, demorou mais de 600 anos para ficar pronta. Mesmo assim, gerações e gerações de operários dedicaram suas vidas ao projeto. As pessoas passavam a vida toda trabalhando para concluir apenas um pedacinho da catedral. Mesmo assim, continuavam, sem desanimar. Estas empreitadas não cabem mais nos tempos modernos, porque hoje os resultados de qualquer projeto devem ser imediatos ou quase. Sempre penso nisto quando vou a uma catedral gótica na Europa. 

Gostei bastante de Estrasburgo, um dos pontos altos da viagem. Embora no início do dia tenha caído uma garoa fria, à tarde fez sol e foi gostoso ficar andando. É uma cidade bem turística e a decoração de Natal ainda embeleza a cidade. Strasbourg é muito famosa por seu Noël (Natal). Realmente vale a pena!

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Um “stop” na França: Nancy

No meu caminho para a Suíça, planejei visitar duas cidades do extremo-leste da França, respectivamente Nancy (na região de Lorena; fr. Lorraine) e Estrasburgo (fr. Strasbourg, na região da Alsácia; fr. Alsace).

É a primeira vez que eu visito alguma coisa na França fora de Paris, cidade que visitei em 1997 e 2004.

Saí de Luxemburgo com destino a Estrasburgo. No caminho, a cidade de Nancy, onde parei para visitar suas três praças que são patrimônio da humanidade. A principal delas, Place Stanislas realmente merece o título. As duas outras são bem menos bonitas. Em uma hora é possível visitar com calma as três, já que ficam praticamente coladas.

O passeio em Nancy fiz todo arrastando minha mala (que tem rodinhas…), porque na estação de trem não tem onde deixar a bagagem. Achei estranho porque é normal que haja, mas parece que na França, por razões de segurança, este serviço não é mais oferecido.

Almocei em um bistrô na própria Praça Estanislau, uma sopa cremosa de funghi e alho que estava muito boa e canard (pato, viu, não canário!). Na França não tem como não se permitir comer melhor e esta refeição não achei cara, considerando a qualidade.

Agora estou esperando o trem para terminar a viagem. Em Strasbourg também há um Patrimônio da Humanidade, mas que engloba bastante mais do que estas três praças de Nancy. Mas valeu dar uma paradinha aqui!