Feira Boliviana em São Paulo

Todo domingo acontece, na Praça Kantuta, no Canindé (zona norte de SP) a feira dos bolivianos residentes em São Paulo. Estima-se que o número deles ultrapasse 200 mil, o que corresponderia a 2% de toda a população boliviana. Boa parte destes bolivianos trabalha no setor de confecções e a feira da Praça Kantuta é o ponto de encontro deste contingente que provém de diversas partes da Bolívia.

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Na feira há barracas com comidas típicas da Bolívia (e também do Peru e de Cuba). Achei uma maravilha poder tomar uma autêntica chicha morada (suco de milho negro com abacaxi, canela e cravo) e comer papas a la huancaína e/ou ceviche, tudo isto por menos de R$ 20,00. Também há, à vontade, as salteñas bolivianas, inclusive a de “fricassé”, a que mais gosto.

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Também há barracas que vendem ingredientes andinos, inclusive as amplas variedades de milhos e batatas, desconhecidas dos brasileiros. Eu aproveitei para me reabastecer de chia – que é um produto andino e ali vendido por uma fração do preço que cobram nos supermercados – e também comprei milho negro (na esperança de fazer em casa a chicha morada) e chuño (um tipo de batata bem pequena desidratada segundo a técnica inca e que deve ser reidratada para ser consumida).

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Neste verdadeiro pedaço da Bolívia em São Paulo, os imigrantes também têm à disposição música, barracas com roupas típicas, música, corte de cabelo, futebol, etc. A feira começa por volta das 11:00 e vai até o fim da tarde. É fundamental levar dinheiro vivo, nenhum lugar aceita cartão de crédito ou débito.

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Países Andinos querem inscrever o Sistema Viário Inca como Patrimônio da Humanidade

Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia apresentaram pedido conjunto à UNESCO, para inscrição na Lista do Patrimônio Mundial, do chamado Qhapac Ñan ou Sistema Viário (Vial em espanhol) Inca.

A civilização inca foi capaz de produzir um extenso e bem formado sistema de vias terrestres que conectavam os variados pontos do império (chamado Tawantinsuyu) até a capital Cusco. Mais de 26.000 km de estradas cortavam os mais diversos e desafiadores terrenos ligando cidades e garantindo um eficiente sistema de comunicação e de transporte. Algo notável e, guardadas as devidas proporções, lembra algo parecido que os romanos fizeram na Europa.

O Tawantinsuyu (Império Inca) era dividido, para fins administrativos, em quatro regiões (norte, sul, leste e oeste), conforme mapa abaixo:

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O Qhapac Ñan (o sistema viário dos incas) cobria praticamente todas estas regiões, permitia deslocamentos de povos dentro do império inca e possibilitava que as ordens emanadas de Cusco fossem observadas em todo este extenso território. Pelo Qhapac Ñan bens e víveres de todo tipo chegavam a Cusco, inclusive pescados do Oceano Pacífico que chegavam do litoral até a capital, ainda frescos, mesmo com as centenas de quilômetros de distância e 3.500 metros de desnível.

Caso o Qhapac Ñan venha mesmo a ser inscrito (a deliberação será em 2014), teremos na América do Sul um pulverizado Patrimônio da Humanidade pois muitos são os pontos incluídos no Qhapac Ñam por estes 6 países, inclusive alguns que podem ser facilmente visitados por quem vai a Cusco como Ollantaytambo e Sacsáyhuaman ou mesmo por quem vai a Lima, como Pachacamac.

 

Mais informações: http://whc.unesco.org/en/tentativelists/5547/ e http://www.telesurtv.net/articulos/2013/03/18/camino-del-inca-sera-evaluado-por-la-unesco-para-ser-patrimonio-de-humanidad-3734.html

Minhas impressões sobre Santa Cruz

O Departamento de Santa Cruz e, em especial, a cidade de Santa Cruz de la Sierra, são o que se poderia chamar de “Bolívia-fora-do-clichê”, ou seja, não correspondem bem à idéia pré-concebida que os estrangeiros têm sobre o país vizinho: Lago Titicaca, grandes altitudes, lhamas e as indefectíveis cholas (aquelas senhoras descendentes de indígenas com trajes coloridos, cabelo em traças e chapeuzinho).

Santa Cruz é outra coisa. Boa parte do Departamento é de baixa altitude, com clima tropical úmido. No meio rural – por onde andei bastante – é notável o progresso trazido pelo agrobusiness e, neste aspecto, Santa Cruz aproxima-se do Brasil, em especial do Mato Grosso e do oeste de São Paulo. Muita soja, muito gado e, consequentemente, muitas caminhonetes, das mais variadas.

A cidade de Santa Cruz de la Sierra acabou sendo uma surpresa para mim pela modernidade, embora conviva com graves problemas de infra-estrutura. Dei sorte de passar a noitinha da véspera do feriado de Finados na Praça 24 de Setembro, a principal da cidade, que estava apinhada de pessoas curtindo a noite ao ar livre na praça, algo que já não se vê com frequência no Brasil – e que é uma pena.

Fiquei bastante impressionado com a Catedral de Santa Cruz – a Basílica Menor de São Lourenço – um enorme templo totalmente constituído de tijolinhos. Ao seu redor, na praça, boas opções gastronômicas, cinemas e espaços de arte. Realmente gostoso ficar ali à noite.

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Os habitantes de Santa Cruz se autodenominam cambas em contraposição aos habitantes do altiplano a quem chamam de “collas” (parece que este último nome é considerado pejorativo). Os “cambas”, porém, pelo que pude perceber, têm enorme orgulho de suas origens e a bandeira verde-e-branca (do Departamento de Santa Cruz) é vista em número muitíssimo maior que as bandeiras da própria Bolívia.

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Nas longas viagens terrestes que fiz, conversando com os cambas, pude notar que eles têm pouco apreço pelo indigenismo demagogo de Evo Morales e por todos os lados, inclusive na praça central da capital departamental, estampa-se o pedido de “autonomia”.

Há um significativo número de brasileiros em Santa Cruz, tanto agricultores que para lá foram em busca de terras mais baratas que no Brasil, quanto estudantes, em especial de Medicina, que, também por motivos econômicos, optam por estudar na Bolívia.

Não há dúvidas de que Santa Cruz não estará nas prioridades de um viajante estrangeiro à Bolívia, especialmente porque La Paz, Sucre, Potosí, o Salar do Uyuni, Chacaltaya, etc. são muito mais famosos e estão nos roteiros turísticos clássicos bolivianos.

Mas quem for a Santa Cruz terá o que ver e a UNESCO reconhece ali nada menos que a metade dos 6 patrimônios da humanidade que a Bolívia tem – o Forte de Samaipata, as Missões Jesuíticas dos Chiquitos e o Parque Noel Kempff Mercado. Os outros três são: as cidades de Sucre e Potosí, além de Tihuanacu (ou Tiwanaku), próximo de La Paz.

O menor afluxo de turistas traz a vantagem de menores preços de alojamento e menos “armadilhas” para os viajantes – algo pelo qual a Bolívia é, infelizmente, muito famosa.

Gostei de conhecer o majadito, um prato que se parece com o arroz-de-carreteiro, só que mais ao estilo de um risoto, acompanhado de banana-da-terra e mandioca fritas. Isto me fez lembrar que em São Paulo – onde há uma gigantesca comunidade de bolivianos – acontece uma feira semanal desta comunidade, com venda de produtos, inclusive os pratos típicos.

Qualquer fim-de-semana destes eu vou até esta feira e conto aqui.

Vinho boliviano?

Foi a pergunta que me fiz quando vi uma seção do Aeroporto Viru Viru (em Santa Cruz de la Sierra) com vinhos produzidos na Bolívia. Imaginar vinho por estas latitudes tropicais já nem é novidade, basta lembrar que estão produzindo vinhos praticamente na Linha do Equador, na região de Petrolina em Pernambuco. Mas não deixa de ser curioso.

Comprei uma garrafa após recomendação da vendedora do free shop. No rótulo consta Vino de Altura com procedência do Departamento de Tarija, no sul do país, divisa com a Província de Salta na Argentina, onde há vinhedos com alguma tradição.

As vinhas de Tarija são plantadas entre 1.900 e 2.100 metros de altitude e possivelmente são as mais altas de todo o mundo. Deve ser um grande desafio produzir vinhos em condições tão incomuns. Há umas quatro vinícolas que atuam em Tarija e a garrafa que eu trouxe veio da Campos de Solana, um corte de cabernet sauvignon, merlot e malbec, 2009.  Agora resta saber se é bom.

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Missões Jesuíticas dos Chiquitos – PH n.º 94 – 2.ª parte (San Xavier)

A segunda igreja das missões jesuíticas dos chiquitos que visitei foi a de San Xavier, que fica na cidade de mesmo nome, a 80 km de Concepción na rota de volta a Santa Cruz de la Sierra.

San Xavier foi a primeira missão dos jesuítas em toda a Chiquitânia, construída em 1691, tendo sido a igreja erguida por volta de 1750 pelo padre suíço Martin Schmidt. Também aqui trabalhou na restauração o arquiteto Hans Roth – igualmente suíço -, com integral apoio do Bispo Eduardo Bösl. Penso que não é coincidência o fato de terem sido jesuítas suíços os que implantaram as missões e ser suíço o arquiteto que as revitalizou, dando a conhecer ao mundo estas preciosidades.

Por fora, vê-se que a igreja é menor que a catedral de Concepción e segue o mesmo modelo, inclusive com o campanário afastado do templo, à direita. Apenas uma das 6 igrejas que compõem o PH tem fachada que foge a este modelo, que é a de San José de Chiquitos, cuja fachada é em pedra.

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Para visitação, a entrada se dá pelo Museu, que tem basicamente fotos. Também há um grande pátio e o campanário fica dentro dele – ao contrário do de Concepción, que fica na rua.

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O interior de San Xavier, porém, é uma surpresa: aqui todos os elementos da igreja foram pintados no estilo chiquitano, inclusive o teto e as colunas retorcidas. O efeito é muito bonito e me lembrou a Mesquita de Córdoba (transformada em Catedral), na Espanha.

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San Xavier se diferencia por ter um batistério dentro da igreja, lugar onde está, também, o certificado conferido pela UNESCO quando da inscrição na Lista.

O tempo todo na igreja de San Xavier estive sozinho, embora tenha ouvido algumas pessoas treinando com flautas. O altar principal é mais modesto que o de Concepción, mas tem uma bela imagem de São Francisco Xavier, o grande missionário jesuíta do séc. XVI.

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Fiquei com pena, claro, de não ter conseguido às demais igrejas. As três outras que ficam próximas a San Ignacio seguem o padrão das duas que visitei, embora um detalhe ou outro possa ser diferente. A de San José de Chiquitos fica bem distante de onde eu estava.

Quem quiser fazer o circuito completo eu aconselho o seguinte: é bom ter à disposição uma semana. Começa-se indo de Santa Cruz a San José, de trem (aquele famoso trem da morte…), de forma a fazer o circuito no sentido anti-horário, que é o que melhor funciona. Dali, ir subindo e visitando as outras 5 igrejas, ficando San Xavier por último e retornando a Santa Cruz. Os horários de ônibus ou trufis só na hora se consegue saber. A pessoa deve estar preparada para ficar um dia inteiro em povoados onde há para visitar apenas a igreja – visita que demora, no máximo, uma hora. Coloco um mapa para ilustrar.

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Se houver bastante coragem, é o caso de se alugar um carro em Santa Cruz. Mas a estrada entre Santa Cruz e San José de Chiquitos já foi chamada de uma das piores do mundo e o único trecho em que há asfalto garantido é entre Santa Cruz e Concepción, mesmo assim é uma pista muito simples e, considerando a forma suicida como os bolivianos dirigem, eu consideraria bastante perigoso. Não há sinal de celular fora das cidades e não haveria a quem chamar em caso de necessidade de socorro. Eu nem cogitei de alugar carro, ainda mais sozinho.

Acima de San Ignacio de Velasco há um Parque Nacional da Bolívia que é Patrimônio da Humanidade – Parque Nacional Noel Kempff Mercado –, colado na fronteira com o Brasil. Pelo que li, é local de rara beleza natural.