Palestina passa a ter seu primeiro Patrimônio da Humanidade

 

O Comitê do Patrimônio Mundial acaba de inscrever (às 9:23, de Brasília, do dia 29 de junho) a Igreja da Natividade, em Belém – templo construído sobre o ponto onde, segundo a maior parte da Cristandade, teria nascido Jesus Cristo -, como Patrimônio da Humanidade.

Houve grande percalços para que este agora PH fosse inscrito, a começar pela polemicíssima adesão da Palestina admitida pela UNESCO – e veementemente rejeitada pelos Estados Unidos e por Israel. Os Estados Unidos, em razão da admissão da Palestina como membro efetivo da UNESCO, cortaram todas as ajudas financeiras a esta agência da ONU (22% do orçamento total).

Depois, como a Palestina só ingressou na UNESCO no final de 2011, não havia tempo para a formalização da candidatura da Igreja da Natividade – o cronograma para isto é bastante lento –, mas o pedido foi feito “em caráter de urgência”.

Esta “urgência” foi rejeitada pelo órgão técnico consultivo ICOMOS, mas a tentativa foi submetida à votação mesmo assim.

Os guardiães da Igreja da Natividade – ou seja, as Igrejas Católica Romana, Ortodoxa Grega e Ortodoxa Armênia –, por seus representantes, foram contra a inscrição, temendo o incremento no afluxo de turistas e visitantes, que já é massivo, bem como “interferências externas”.

Apesar de tudo isto, por maioria (13 a favor, 6 contra e 2 abstenções), os 21 membros do Comitê, em votação secreta, inscreveram a Igreja da Natividade como Patrimônio da Humanidade.

Logo após a anunciação do resultado e em meio à comemoração da delegação palestina, Israel protestou dizendo que a UNESCO tomou uma decisão política e não técnica.

De fato, é bastante preocupante esta “politização” dos Patrimônios da Humanidade que, na minha opinião, deveriam ser avaliados sob critérios puramente técnicos e os pareceres dos órgãos técnicos consultivos deveriam ter um grau maior de vinculação.

De qualquer forma, não há dúvida que este fato representa uma grande vitória da Palestina, que busca se afirmar como Estado independente – já foi reconhecido por países como Brasil, Argentina, Venezuela e a maior parte dos países árabes –, embora ainda não seja membro efetivo da ONU (os Estados Unidos já deixaram claro que vetarão qualquer iniciativa neste sentid0).

Eu visitei a Igreja da Natividade em abr/2010. Passa a ser o meu PH n.º 125 e, embora eu já tenha falado sobre este lugar no blog (clique aqui), vou fazer um post específico nos próximos dias.

Israel fecha um dos acessos à Esplanada das Mesquitas em Jerusalém

Todos sabem que o lugar mais sagrado do Judaísmo é o Muro das Lamentações (ou o Muro Ocidental, como é chamado em Israel), que é um pedaço da antiga muralha que protegia o Templo de Jerusalém (ou Templo do Rei Herodes), o coração da nação hebréia, destruído pelos romanos no ano 70 d.C. Ou seja, o muro é o único sinal visível do que sobrou do antigo Templo.

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Hoje ele está lá, na parte judaica da Cidade Velha de Jerusalém, que é Patrimônio da Humanidade

Ocorre que, no local onde existia o Templo de Jerusalém está hoje a Esplanada das Mesquitas, a saber, as Mesquitas de Al-Aqsa (primeira foto) e a Mesquita do Domo do Rochedo (segunda). De acordo com o Islã foi lá onde ocorreu a ascensão do Profeta Maomá aos céus de Alá e isto torna a Esplanada das Mesquitas o terceiro lugar mais significativo para os muçulmanos, depois de Meca e Medina.

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Estes dois lugares importantíssimos para duas grandes religiões monoteístas ficam dramaticamente próximos e são ligados por um acesso consistente em uma estrutura de madeira, chamada de Rampa de Mughrabi, como vocês podem ver na foto. Este, aliás, é o único acesso para os não-muçulmanos e foi por onde eu acessei a Esplanada.

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Como se pode imaginar, esta área é muito sensível, especialmente porque os judeus são proibidos de entrar na Esplanada das Mesquitas, que está sob jurisdição palestina e da Jordânia. Quando o ex-primeiro ministro israelense Ariel Sharon desafiou esta proibição no ano 2000, deu pretexto para enormes revoltas árabes, que inspiraram uma nova intifada (ou guerra santa islâmica).  

A estrutura de madeira eleva-se muito próxima da parte direita do Muro das Lamentações, que é o pequeno trecho reservado às mulheres – homens e mulheres oram separadamente no Muro e as autoridades de Israel há tempos consideram que a rampa é inadequada por ser frágil e sujeita a desabar ou pegar fogo, pondo em risco as mulheres judias logo ali embaixo.

As autoridades israelenses  (que controlam a área do Muro das Lamentações) e as autoridades islâmicas (que comandam a área da Esplanada das Mesquitas)  não conseguem chegar a um acordo sobre como resolver este problema e o governo de Israel declarou, hoje, 12 de dezembro, que o acesso ficará fechado a partir dos próximos dias até que algo seja feito. Isto já provocou ácidas críticas dos palestinos e jordanianos que acusam Israel de tentar “judaicizar” os lugares sagrados do islamismo em Jerusalém.

Espero que este problema se resolva porque, ir a Jerusalém e não ir à Esplanada das Mesquitas seria uma enorme pena. Eu fiquei magnetizado pela beleza dos azulejos da Mesquita do Domo do Rochedo:

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Só muçulmanos podem entrar nesta mesquita, mas vê-la pelo lado de fora já é magnífico. A intenção dos califas que conquistaram Jerusalém no séc. VIII em construir um templo tão maravilhoso foi rivalizar com a Igreja do Santo Sepulcro, local de capital importância para os cristãos, também situada na parte velha de Jerusalém. De fato, a Igreja do Santo Sepulcro, analisada estritamente sob o aspecto da beleza arquitetônica, não consegue competir com a Mesquita do Domo do Rochedo:

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Fonte: http://www.heraldsun.com.au/news/breaking-news/israel-closes-access-ramp-to-mosque/story-e6frf7jx-1226220332136

Viagem à Palestina – 2010 – 2.ª parte

A outra cidade na Cisjordânia (literalmente: do lado de cá do Rio Jordão) já entregue à administração da Autoridade Palestina e que visitei foi Jericó (em hebraico: יריחו).

A ida a Jericó se deu em uma excursão que tomei e no mesmo dia passei antes na Fortaleza de Massada (que é Patrimônio da Humanidade), nas montanhas do Qumran e também ao Mar Morto (especificamente na praia de Kalya). Cada um destes lugares merece um post específico.

Tomar uma excursão foi a decisão que tomei para evitar passar o sábado em Jerusalém. O sábado judaico (shabbat ou שבת ) começa com o pôr-do-sol da sexta-feira e só termina com o pôr-do-sol do sábado e é o dia de descanso. Tudo pára em Israel no shabbat. Tudo. Até os ônibus param de circular, o comércio fecha completamente, etc. Ou seja, era uma “roubada” ficar em Jerusalém no shabbat. Então, embarquei na excursão.

Jericó tem uns 20 mil habitantes e parece ser mais pobre que Belém. Certamente recebe menos turistas, até porque o acesso – que já não é lá muito fácil para Belém – é ainda mais complicado para Jericó. Quem vai com excursões, porém, não tem maiores dificuldades.

Em Jericó eu percebi claramente o funcionamento das instituições palestinas nas partes da Cisjordânia que Israel aceitou devolver aos árabes após os Acordos de Oslo (1994). Abaixo, a foto de uma delegacia de polícia palestina. Nem vestígio da bandeira azul de Israel ou da língua hebraica.

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Também pode-se ver na foto que há um teleférico (doado pela Suíça) em Jericó que leva até o Monte das Tentações, onde, segundo o Evangelho de Mateus (4, 1-4), Jesus foi tentado pelo diabo após um jejum de 40 dias, sugerindo que Ele transformasse uma pedra em pão para matar sua fome. Abaixo, o Monte das Tentações:

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O teleférico leva até uma área onde há um restaurante com uma bela vista do vale onde se situa Jericó – a cidade está a 260 metros abaixo do nível do mar – e lá em cima está um monastério ortodoxo grego que estava fechado à visitação no momento.

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Dois outros lugares são fascinantes em Jericó. O primeiro é Tel es-Sultan, vestígios arqueológicos de civilizações humanas que se fixaram nesta região há nada menos de 10.000 anos, e com isto estou falando de povos anteriores aos hebreus, para quem, também, Jericó tem muita importância pois esta cidade, de acordo com o Livro de Josué, foi conquistada quando da saída dos judeus da escravidão no Egito.

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Outro lugar que gostei muito foi o Palácio de Hirsham, construído no séc. VIII d.C. pelo Califa Hirsham Ibn Abd al-Malik e, segundo os historiadores, era tão suntuoso que foi apelidado de “Versalhes do Oriente Médio”, mas logo foi devastado por um terremoto. 

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Uma coisa curiosa em Jericó é a Árvore de Zaqueu, em alusão ao publicano que teria subido nesta árvore para conseguir ver a Cristo em meio a uma multidão (Lucas 19, 1-10). A árvore fica dentro do pátio de uma igreja ortodoxa grega. Havia uma longa descrição a respeito, mas estava apenas em grego. Fiquei na dúvida sobre se os ortodoxos gregos realmente acreditam que esta árvore é aquela na qual Zaqueu subiu ou se é apenas uma alegoria.

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Claro, eu teria preferido ir sozinho a Jericó, mas tenho que reconhecer que a excursão dinamizou a ida a vários lugares em um mesmo dia em uma região  na qual eu não poderia ir com carro alugado – os carros alugados em Israel não entram em cidades dos territórios palestinos.

Aliás, uma grande curtição é a estrada que, saindo de Jerusalém, “desce” para Jericó e, no caminho, vê-se o marco do nível do mar. O ponto mais baixo de toda a Terra é o Mar Morto, que fica 411 metros abaixo do nível do mar e Jericó está em suas proximidades.

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Viagem à Palestina – 2010 – 1.ª parte

O  assunto do momento é o pedido que o governo da Autoridade Palestina fará à ONU para integrar a organização internacional como membro pleno. Já se sabe de antemão que o pedido será rechaçado porque além dos votos de no mínimo 9 dos 15 membos do Conselho de Segurança da ONU – que não estão garantidos –, seria necessário que nenhum dos membros com poder de veto (as potências vencedoras da II Guerra Mundial) exerça-o e, neste ponto, os Estados Unidos já deixaram claro que não hesitarão em fazê-lo se necessário.

Mesmo assim, a Autoridade Palestina insistirá no pedido, na tentativa de superar o marasmo em que se encontram as negociações com Israel e ganhar prestígio internacional já que sua proposta é apoiada por boa parte da comunidade internacional, inclusive o Brasil.

Então, é um bom momento para rememorar minha ida à Palestina, em abr/2010, especialmente a duas cidades que estão, nos dias atuais, sujeitas ao governo palestino e que são de capital interesse turístico: Belém e Jericó.

Comecemos por Belém (em hebraico: ביתלחם). Fiquei um dia inteiro lá. Saí do meu hotel em Jerusalém e fui até a Porta de Damasco, uma das entradas na Cidade Velha de Jerusalém e onde há uma espécie de feira permanente de árabes que vendem ali de tudo, local de muita movimentação. Da Porta de Damasco saem ônibus que vão até Belém – que fica a míseros 10 kilômetros de Jerusalém.

Como as fronteiras entre Israel e os territórios palestinos são complexas,  o ônibus tem que fazer uma grande volta para chegar a Belém, de forma que a viagem durou muito mais tempo do que eu imaginava. 

De imediato me dirigi à Manger Square (Praça da Manjedoura), onde se situa um dos lugares mais importantes e sagrados do Cristianismo: a Basílica da Natividade, local onde quase todas as igrejas cristãs – inclusive a Católica – reconhecem como o ponto onde Jesus Cristo teria nascido. Muito possivelmente é o mais antigo templo onde o culto cristão manteve-se ininterruptamente, pois foi construída em 326 d.C. por ordem do Imperador romano Constantino.

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Adentra-se na Basílica por uma diminuta porta de pedra, chamada Porta da Humildade, pois há que se curvar a cabeça para ingressar no templo. Isto foi propositalmente idealizado pelos cruzados, ainda na Idade Média, para dificultar possíveis invasões de não-cristãos.

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Por dentro, a Basílica aparenta toda a idade que tem, é escura e permanentemente tomada de peregrinos e turistas durante todo o tempo. O foco principal de todos é a Gruta da Natividade, que fica em uma pequena capela subterrânea que se acessa à direita do altar principal. Enfrentei uma longa fila para ir até o local do nascimento de Cristo, marcado com uma estrela prateada.

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Eu fiquei muito tempo dentro da Basílica já que, embora não seja propriamente um lugar belo e atraente, fiquei fascinado em estar em um lugar cujas paredes testemunharam (e testemunham) por mais de um milênio e meio, gerações e gerações de cristãos indo ao local do nascimento de Cristo. São notáveis os mosaicos e as colunas no interior da Basílica.

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Ao lado, colada na Basílica da Natividade, está a Igreja de Santa Catarina, muito mais nova e onde são celebradas as missas de Natal transmitidas para o mundo todo, com a presença de autoridades palestinas.

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Na Praça da Manjedoura estão ainda o Centro de Informações Turísticas mantido pelo governo palestino e a Mesquita do Califa Omar, que é ignorada pela massa de turistas cristãos, mas que fiz questão de visitar – ainda que sob o olhar desconfiado dos muçulmanos –, pois o Califa Omar, que era parente do Profeta Maomé, quando conquistou a Palestina no ano de 637 d.C., declarou que a Basílica da Natividade sempre seria respeitada e permitido no lugar o culto cristão, mesmo sob domínio islâmico. A promessa do Califa Omar foi mantida. 

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Fui ainda a um simplório museu de cultura palestina que funciona em uma casa, com fotos, trajes típicos e informação sobre a evolução da vida dos árabes que vivem há séculos em Belém. Foi muito engraçado porque a guia turística mal conseguia falar alguma coisa em inglês, mas ficava me acompanhando mesmo assim. Pelo que notei, eu era o primeiro turista a visitar este museu naquele dia.

Também visitei em Belém a Igreja da Gruta do Leite – onde segundo a tradição a Sagrada Família parou para que a Virgem Maria amamentasse o Menino Jesus durante a Fuga para o Egito.

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No almoço, dei sorte de escolher o lugar onde acabei por comer o melhor hommus de toda a viagem: o restaurante Afteem. Hommus é uma espécie de patê de grão-de-bico com tahine (uma pasta oleosa de gergelim), presente em qualquer refeição no Oriente Médio.

A partir da Praça da Manjedoura, estava muito curioso para andar por uma cidade palestina fora da zona estritamente turística, então decidi ir a pé até à Igreja dos Anjos, num lugar chamado Campo dos Pastores, onde, segundo a tradição cristã, os pastores e os Reis Magos viram a Estrela de Belém indicando onde o Messias iria nascer. O lugar fica bem longe, alguns bons quilômetros distante do centro de Belém. Para chegar lá, passei por ruelas da cidade de Belém, vendo os estabelecimentos comerciais e a vida cotidiana dos habitantes da cidade. Fazia calor e eu me perdi várias vezes, mas consegui chegar até a Igreja dos Anjos, contando com o auxílio de vários moradores a quem tive que perguntar o caminho.

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Na volta para Jerusalém, depois de muita caminhada e de alguma confusão, cheguei até o local onde os soldados israelenses fazem a checagem daqueles que saem dos territórios palestinos e entram em território israelense (check-point).  Dali, pode-se ver o muro que os israelenses estão a construir para se separarem dos palestinos.

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O clima no check-point é super tenso, com soldados armados, arame farpado para todo lado, detectores de metais, etc. Como estava na cara que eu era apenas um turista em day-trip em Belém, logo fui liberado e pude pegar um ônibus para voltar para Jerusalém. Pelo que pude entender, funciona assim: quando se sai de Israel para os territórios palestinos, não há controle; mas na via inversa, há.

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A maioria esmagadora dos turistas vai a Belém em excursões saindo de Jerusalém,  mas eu quis ir sozinho para poder visitar com mais tempo e mais à vontade, mas só recomendo ir como eu fui para quem gosta de “emoção”, hehe. Fiquei com muita vontade de passar uma noite em Belém e ir a outras cidades palestinas, como Hebron, mas, devo confessar, fiquei com medo de que as autoridades israelenses considerassem isto suspeito e minha volta a Jerusalém – onde estava a minha mala no hotel – fosse negada. Então voltei no mesmo dia, que, de qualquer forma, foi muito intenso – tanto que me lembro de tudo claramente.

Belém é uma cidade árabe de uns 30 mil habitantes e durante séculos foi de maioria cristã. Neste ponto, se alguém ainda não sabe, cabe esclarecer que nem todo árabe é muçulmano e nem todo muçulmano é árabe. Existem os cristãos árabes, que se concentram em cidades como Belém ou Nazaré, bem como no Líbano e na Síria.

Mas, por uma série de motivos, os cristãos árabes são muito propensos a emigar para o Ocidente e com isto a presença de população cristã residente no Oriente Médio – que remonta à época dos Apóstolos – diminui a cada ano e corre risco de desaparecer. Hoje em dia, os muçulmanos já são maioria mesmo em Belém.

Uma última informação: a Autoridade Palestina quer que a Basílica da Natividade seja o primeiro Patrimônio da Humanidade palestino. Como a Palestina não é reconhecida como país (ou tecnicamente falando: pessoa jurídica de direito internacional) ainda, a UNESCO nem sequer inseriu esta pretensão como uma tentativa, mas é possível que no futuro a Basílica da Natividade seja um PH.

Comento em seguida sobre a ida a Jericó.