Paisagem Cultural de Paranapiacaba: Vila e Sistema Ferroviário na Serra do Mar, São Paulo

O Estado de São Paulo possui apenas 1 local inscrito na Lista dos Patrimônios da Humanidade e ainda compartilhando com o Estado do Paraná (clique aqui para mais detalhes). Como se não bastasse, é ainda um PH natural no contexto do Estado mais industrializado e populoso do Brasil.

Assim, pareceu-me adequada a inclusão, pelo Brasil, de uma Tentativa de Patrimônio da Humanidade (2014) na categoria cultural e que remete a um fato histórico da maior importância para São Paulo e para o Brasil: a implantação das estradas-de-ferro.

Muitas cidades paulistas, em especial as do oeste do Estado, foram implantadas ao longo das linhas férreas que avançaram no mesmo sentido do Rio Tietê, assim como fizeram, séculos antes, os bandeirantes. Os trens foram fundamentais para o escoamento da produção de café que enriqueceu o Brasil entre a metade do séc. XIX e as duas primeiras décadas do séc. XX e também para levar os imigrantes que povoaram o interior paulista.

A partir da década de 1960, porém, deu-se início no Brasil à política de desmantelamento da rede ferroviária para fins de transporte de passageiros (e mesmo para transporte de carga), dando lugar ao transporte rodoviário, até hoje preponderante no país. 

Mas os trilhos ainda são importantes em SP: a Região Metropolitana da capital conta com uma rede ferroviária com algo em torno de 300 km (metrô + trens metropolitanos) e paulatinamente reativa-se o transporte de carga. Mas isto não é capaz de suplantar, em importância, o passado ferroviário de SP.

As reminiscências deste passado podem ser vistas em estações de trem em muitas cidades. Lembro-me, por exemplo, da de Jaguariúna, que foi readaptada e conta com restaurantes e lojas, sendo um ponto de encontro na cidade. Em Santos, onde as linhas terminavam/começavam há também o que se ver.

Mas o lugar mais interessante é, para mim, a vila de Paranapiacaba, no Município de Santo André. O lugar fica no “alto da serra” (800 metros de altitude), quase na borda da Serra do Mar a partir de onde inicia-se a íngreme descida em direção ao litoral. Moram ali poucas pessoas hoje em dia (por volta de 1.200), mas no passado a vila funcionou como centro do controle operacional e local de residência dos funcionários da companhia de trens São Paulo Railway, que inaugurou a primeira linha férrea do Estado, ligando o Porto de Santos a Jundiaí. As obras se iniciaram em 1860.

Paranapiacaba entrou em decadência junto com o próprio transporte ferroviário, mas isto ajudou a preservá-la. Senti um permanente clima de “passado” lá.

A Companhia de Trens Metropolitanos de São Paulo (CPTM) oferece um passeio turístico até Paranapiacaba e o valor do bilhete (ida e volta) é de R$ 45,00. Este passeio é bastante disputado, quase sempre os bilhetes estão esgotados e é necessário comprar com semanas ou meses de antecedência junto ao guichê do Expresso Turístico situado dentro da Estação da Luz na capital. Não há venda online. Mais informações, aqui.

O trem para Paranapiacaba sai aos domingos, três vezes por mês, a partir da Estação da Luz (Linhas 1, 4, 7 e 11 do Metrô e CPTM) às 8:30 e regressa às 16:30. É a única forma de se chegar a Paranapiacaba exclusivamente de trem. Do contrário, pode-se a qualquer hora ir até a estação do município de Rio Grande da Serra e de lá chegar a Paranapiacaba com ônibus ou, claro, ir de carro.

Para mim, era fundamental ir a Paranapiaca de trem: foi a expansão ferroviária que motivou a própria fundação deste vilarejo, então qualquer outra forma de se chegar lá me pareceria incondizente com a história do lugar e do motivo pelo qual vai-se visitá-lo. A viagem, porém, é lenta (1h30 para 50km) e não há serviço de bordo (algo que poderia ser melhorado!). O trem para apenas uma vez em Santo André para embarque de passageiros.

A paisagem também não ajuda muito: o cenário oscila entre indústrias dos munícipios de São Caetano, Mauá e Santo André e áreas degradadas com ocupação urbana irregular. Apenas após Santo André é que os núcleos populacionais rareiam e a mata atlântica começa a aparecer.  

Uma vez em Paranapiacaba, logo se percebe um fenômeno climático típico desta região: a neblina. A qualquer hora do dia e em qualquer dia do ano (mesmo no verão) Paranapiacaba pode ser envolta pela névoa, espessa a ponto de não se ver muito além de 1 metro de distância. No dia em que passei em Paranapiacaba foram diversos os momentos em que isto ocorreu. Não é o lugar ideal para quem procura sol.

A primeira coisa que se avista ao se chegar no trem a Paranapiacaba é o notável relógio inspirado no Big Ben de Londres, muito adequado a uma vila que, afinal de contas, abrigava uma companhia inglesa de transporte ferroviário.

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O Museu Ferroviário é onde melhor se pode tentar compreender o incrível esforço que foi necessário para a implantação da estrada-de-ferro no contexto da Serra do Mar. Os trens tinham de ser praticamente puxados para que pudessem vencer os 10º de inclinação média do terreno – parece pouco, mas é muito!, basta comparar com os 6º da hoje Rodovia dos Imigrantes. O sistema pelo qual isto se dava era o funicular e nas casas de máquinas estão as gigantescas engrenagens que eram necessárias para a operação.

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Parapiacaba vivia (e de certa forma até hoje vive, em razão do turismo) em função da ferrovia: ali vivia o engenheiro-chefe da São Paulo Railway (no que hoje se chama de Castelinho) e os funcionários da empresa inglesa. As casas foram construídas em padrão muito superior à média do Brasil à época e com planejamento urbano ousado. As casas hoje continuam ocupadas e funcionam como moradia e como pequenos negócios (restaurantes ou lojas).

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Os moradores se divertiam no Clube União Lyra Serrano com atividades tipicamente inglesas: bilhar, sala de jogos e futebol – novidade ainda no Brasil do séc. XIX. Ali está um dos mais antigos campos de futebol do país.

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Paranapiacaba tem uma parte “baixa” (onde estão todos estes lugares que mencionei até agora) e uma parte “alta”, com menos vestígios históricos e com aparência mais “brasileira”, digamos assim. As duas partes são ligadas por uma notável estrutura férrea.

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Em julho acontece em Paranapiacaba o Festival de Inverno e em abril há o Festival do Cambuci, uma fruta típica da Serra do Mar, muito azeda mas que rende boas geleias (eu trouxe várias para casa).

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Achei que o passeio valeu bem a pena. Além dos atrativos históricos, partem de Paranapiacaba diversas trilhas que passam por lugares muito preservados da Serra do Mar (cachoeiras, piscinas naturais), mas este passeio é melhor fazer em época mais quente e é melhor ir de carro para não ficar preso ao horário do trem.

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Kingstown e o Vulcão La Soufrière; São Vicente e Granadinas

Kingstown é a capital de São Vicente e Granadinas. Do alto de seus 32.000 habitantes, consegue ser tumultuada e ter horários de rush, momentos em que há notáveis congestionamentos nas vias de acesso e de saída da cidade. Não é uma cidade bonita, mas tem alguns lugares onde se pode dar uma olhada.

Todos os guias recomendam a visita ao Jardim Botânico de São Vicente, que é tido como o mais antigo das Américas (1762). Eu sempre gosto de ir a Jardins Botânicos (meus preferidos são o Kew Gardens em Londres; e os jardins botânicos de Cingapura e do Rio de Janeiro, os três são Patrimônio da Humanidade). O de São Vicente é bastante mais modesto, mas ali estão vários exemplares de um papagaio que é o animal-símbolo de SVG pois só existe naquela ilha e tem as cores da bandeira nacional (verde, amarelo e azul).

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Catedral Anglicana (à direita), Catedral Católica (à esquerda) em Kingstown:

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As praias da ilha de São Vicente não são notáveis (a ilha é vulcânica e as praias são poucas e de areia escura). O melhor a se fazer lá é, justamente, ir ao Vulcão La Soufrière, no norte da ilha, que com seus 1.235 metros, é o ponto culminante de SVG.

É possível subi-lo sem maiores problemas, mas é recomendável contratar um guia com motorista, não pela dificuldade ou perigo, mas porque é complicado chegar até a sua base, de onde sai a trilha, próximo da cidade de Georgetown. SVG indicou a UNESCO o vulcão La Soufrière como Tentantiva de Patrimônio da Humanidade.

O vulcão encontra-se ativo (nota-se fumaça em sua cratera), mas desde 1979 está quieto. Mas em 1902 este vulcão entrou em erupção e matou 1.680 pessoas, todas elas índios caraíbas, que haviam sido confinados pelos ingleses justamente nesta remota área de São Vicente. Com isto, os caraíbas (um dos principais grupos étnicos pré-colombianos e que deram nome ao Caribe) foram extintos na ilha de São Vicente. Há hoje apenas um assentamento indígena em todo o Caribe, na ilha de Dominica.

Eu adorei subir o La Soufrière! Na medida em que se sobe o tempo muda drasticamente, quase se sente frio acima dos 1.000 metros. O La Soufrière é o quarto vulcão cujo cume eu alcanço e o segundo ponto culminante de um país que eu atinjo (o primeiro foi o Pico do Fogo, em Cabo Verde). Abaixo, na borda da cratera do vulcão.

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Bequia, São Vicente e Granadinas

Bequia foi a última das Granadinas que visitei – em sentido norte é a última deste arquipélago. 

Cheguei até lá com um possante ferry norueguês (que deve ter sido doado a SVG) a partir da Ilha da União, numa viagem que durou uma hora e meia.

A ilha de Bequia (pron. biqüêi) tem um charme que não encontrei em nenhum outro lugar do país, com uma “vibe” estilo Búzios/RJ. Hospedei-me num maravilhoso hotel em estilo casarão colonial cercado por coqueiros. Teria adorado ficar muito mais que um dia, que foi o tempo que tive para curtir Bequia.

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Do hotel bastava uma caminhada pela boardwalk até a praia da Princesa Margareth, ótima para descansar. A praia foi batizada em homenagem à irmã da Rainha Elizabeth II, falecida em 2002, que tinha uma casa em São Vicente e Granadinas, mas não em Bequia e sim em Mustique, ilha vincentina que, até hoje, é exclusiva de ricaços (os ferries públicos nem passam por lá)

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O principal centro urbano de Bequia é a vila de Port Elizabeth, mas eu preferi ficar só no hotel – que tinha um restaurante bom –, tomando rum punchs e a cerveja nacional – Hairoun –, que tem o nome com que os índios caraíbas, precursores dos europeus, chamavam São Vicente.

Considero que Bequia é o lugar mais gostoso de São Vicente e Granadinas, contando com a vantagem de ficar a apenas 1 hora em ferry da capital do país, Kingstown.

Palm Island, Mayreau e Tobago Cays; São Vicente e Granadinas

Embarquei numa excursão em Union Island para visitar outras ilhas granadinas no sul de SVG: Palm Island, Mayreau e Tobago Cays.

A excursão custou salgados US$ 100 mas incluiu quase “pensão completa” e passou por lugares lindos nestas ilhas.

Palm Island é uma ilhota onde praticamente há somente um resort, naquele estilo Ilha da Fantasia (para quem lembra do seriado que passou na TV brasileira na década de ‘80) com diárias a partir de US$ 650/noite. Vendo a praia quase exclusiva do hotel dá para entender porque alguém se dispõe a pagar isto:

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Mayreau, por sua vez, é uma ilha bem pouco conhecida e habitada (pop. 300) e paramos ali para um banho de mar. Em seguida rumamos aos famosos Tobago Cays, descritos em quase todos os livros-guias como o “paraíso” de SVG, lugar onde filmado Piratas do Caribe com Johnny Depp. Quem conversa com os vincentinos (ou vincies) tem a impressão de que a coisa mais importante que já aconteceu neste país foi ter servido de cenário para este filme.

Eu achei as ilhas – que são desabitadas e compõem um parque nacional de SVG – bonitas, mas esperava mais. Em muitos aspectos me lembraram Abrolhos (onde estive em 2004), no sul da Bahia, mas as ilhotas brasileiras são mais remotas ainda e muito mais exclusivas e intocadas. Acho que o excesso de barcos de excursões, além dos barcos alugados por pessoas que velejam pelas Granadinas tirou muito da paz que eu esperava encontrar ali. O principal destaque foi um mergulho com tartarugas que eu adorei.

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De qualquer forma, não é um mar de se desprezar, convenhamos…

Ilha da União, São Vicente e Granadinas

No excêntrico mundo dos viajantes obsessivos há uma tendência de se valorizar a entrada em novos países por meio não-aéreo. O alemão Sacha Grabow (www.greatestglobetrotters.com) chega a dar um “ponto” a mais a quem evita o avião para conhecer um novo país. Recentemente, um inglês conseguiu visitar todos os países do mundo sem usar avião (Graham Hughes).

Aviões são formidáveis, mas aeroportos e seus procedimentos costumam ser mesmo enjoados e no Caribe isto se acentua com o quase monopólio da LIAT, companhia aérea sediada em Antígua e Barbuda, cujos aviões pulam de ilha em ilha todos os dias na região. A LIAT tem uma fama muito ruim e seu apelido é Leave Island Any Time, o que, infelizmente, é verdade. Meu voo de Barbados para Granada atrasou uma hora e meu voo de São Vicente para Barbados atrasou quase quatro horas. Exceto se a bordo de um navio de cruzeiros, quem quer que vá explorar o Caribe terá que encarar a LIAT em algum momento. 

Tudo isto considerado, eu planejei esta viagem de modo a que eu pudesse atravessar de Granada para São Vicente e Granadinas por barco, evitando uma viagem de avião e aproveitando para visitar várias pequenas ilhas. A ideia parecia boa: de Carriacou (GD) até a Ilha da União (SVG) bastam uns 45 minutos para a travessia entre as ilhas que podem ser vistas uma a partir da outra.

As informações na internet sobre esta travessia eram muito escassas e eu preferi combinar com um barqueiro que, aparentemente, era o único que fazia o trajeto de forma legalizada (ao menos é o único mencionado no site oficial de turismo do Governo de São Vicente e Granadinas). Mal eu sabia o que me aguardava.

Troy é o nome do “capitão” e esta é sua “nau”:

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Troy é um dos caras mais enrolados que deve existir em todo o Caribe. Seu horário de saída tinha uma elasticidade de várias horas – o que para meu desgosto me fez perder boa parte de um dia das férias –, mas ao menos ele tomou todas as precauções burocráticas: saí legalmente de Granada após passar no escritório da imigração em Hillsborough e entrei legalmente em São Vicente e Granadinas pois ele leva até o aeroporto em Union Island onde se recebe o carimbo de entrada no país.

Apesar do meu aborrecimento, evitei estar ilegal em São Vicente e Granadinas, o que poderia complicar meu embarque no aeroporto de Kingstown para a volta a Barbados. Atravessar fronteiras dos pequenos países do Caribe, ao contrário do que se pode supor, não é simples, eles exigem as mesmas formalidades dos grandes países do mundo (ou até mais).

Olhando em retrospectiva, hoje acho graça de tudo. Um dos “tripulantes” aproveitava a viagem para pescar na maior tranquilidade do mundo e até que teve sucesso:

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Assim eu cheguei – por mar – a São Vicente e Granadinas, o 23.º país menos visitado do mundo segundo um outro viajante famoso (o norueguês Gunnar Garfors, que foi a pessoa mais jovem a visitar todos os 193 países da ONU, com menos de 38 anos). Garfors em seu blog tem a lista dos 25 países menos visitados do mundo com base em dados fornecidos pela Organização Mundial do Turismo: http://www.garfors.com/2015/07/the-25-least-visited-countries-in-whole.html.

Em 2012 apenas 71 mil pessoas visitaram SVG, mesmo sendo um país pacífico, que se situa no Caribe, de língua inglesa e repleto de praias e atrativos naturais. O grande senão de SVG é a falta de um aeroporto internacional decente, o que impede pousos de voos transcontinentais, problema também enfrentado por Dominica. O novo aeroporto de SVG – que está quase pronto pelo que vi – mudará radicalmente este cenário e SVG passará longe desta lista em pouco tempo.

Por enquanto, SVG continua este país que se pode acessar com um precário barquinho onde sacos de batata, galões de gasolina e grades de refrigerante disputam espaço com os passageiros do capitão Troy. Coletes salva-vidas? Pfff… nem sinal. Hoje eu acho graça, mas no dia eu estava furioso!

A Ilha da União é a ponta sul das Granadinas de SVG. A ilha é notoriamente mais pobre que todas as demais ilhas do Caribe que já visitei até hoje, mas deve encantar quem esteja em busca de um Caribe “autêntico”, pouco tocado pelo turismo. A vista do hotel onde fiquei hospedado em Clifton foi a melhor coisa que me aconteceu neste dia, mas eu seria injusto se eu dissesse que minha visita a SVG foi ruim. As coisas começaram a melhorar no dia seguinte.

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