Punta Tombo e Rawson (Província de Chubut, Argentina)

Uma excursão clássica que se adquire em Puerto Madryn é ir ver os golfinhos no Porto de Rawson, passar por Punta Tombo (a maior pingüinera do continente), por Gaiman e retornar a Puerto Madryn, num dia bem cheio de atividades.

Como meu voo de volta era à noite e saindo de Trelew (que fica ao lado de Gaiman), embarquei na excursão com a minha malinha (cada vez viajo com menos coisas) e pedi para que me deixassem, após o fim do tour, em Trelew, onde, após ir ao museu, segui para o Aeroporto: tudo se encaixou perfeitamente.

Rawson é a capital de Chubut, mas é uma pequena cidade sem qualquer atrativo. A partir de seu porto, porém, embarca-se para avistar golfinhos, chamados pelos argentinos de toninas – que são golfinhos negros com uma ampla faixa branca. Eram muitas as toninas e o barco, após localizá-las, fazia ondas de modo que elas precisavam dar salto: o momento exato para tirar as fotos!

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A uma hora de Rawson está Punta Tombo, lugar onde estão centenas de milhares de pinguins-de-magalhães. Estas aves passam o inverno no mar mas na primavera vêm às costas de Chubut para que as fêmeas procriem e ponham os ovos nos ninhos que os machos construíram. O processo de escolha do macho pela fêmea do pinguim-de-magalhães tem muito a ver com a qualidade do ninho construído…

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Na época em que fui, machos e fêmeas revezavam-se na choca dos ovos. Enquanto um vai ao oceano alimentar-se, o outro choca os ovos (normalmente são dois). A partir do fim de novembro nascem os filhotes e a tarefa dos pais passa a ser de buscar alimento no mar e regorgitá-lo no bico dos filhotes para alimentá-los. Em março os filhotes já se sentem seguros para enfrentar o mar (e o inverno que vem pela frente) e em abril todos abandonam Punta Tombo até que o ciclo novamente recomece em setembro.

O passeio em Punta Tombo consiste em andar por plataformas de madeira por entre grandes descampados onde avistam-se incontáveis ninhos de pinguins… Eles andam pra lá e pra cá, entram e saem dos ninhos e vão e voltam da praia. Não se pode molestá-los de forma alguma e, caso algum deles resolva subir na plataforma, deve-se esperar que ele passe para só então prosseguir. Os pinguins bicam!, é bom que se avise.

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Os pinguins costumam formar casais monogâmicos, embora, pelo que disse a guia, há casos de divórcios e traições… Esta espécie é bem pequena: adultos, têm por volta de 45 cm de altura e pesam 3 kg.

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Embora em terra sejam desajeitados, os pinguins são exímios nadadores.

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Punta Tombo foi uma grande curtição! De todos os lugares, porém, teria sido o mais complicado para chegar se não fosse com um tour porque o caminho até este lugar ainda é em estrada de chão. Durante a alta temporada (setembro a fevereiro, sendo a altíssima temporada outubro e novembro) não há dificuldade de se conseguir tours em Puerto Madryn, eles são bem conduzidos e com preço justo.

Em todo o meu tempo em Chubut não senti falta de carro, embora caso quem visite esteja em mais de duas pessoas, talvez seja uma boa ideia alugar um para percorrer a região.

Como vocês devem ter percebido nestes cinco posts sobre a Península Valdés e outros pontos de Chubut, eu adorei esta viagem e voltei tão encantado quanto quando fui aos Glaciares (Província de Santa Cruz) e ao Parque Nacional del Iguazú (Província de Misiones).

Não só a variedade da fauna é surpreendente, mas ela é abundante e fácil de ser vista. Guanacos (aqueles camelídeos patagônicos) tornaram-se, com o tempo, tão comuns que já nem lhes dava bola. Foi um show ver os pinguins, os leões marinhos, os elefantes marinhos, as baleias e as toninas, todos em seu ambiente natural (que é o que mais me agrada) e ocupados em suas atividades de procriação e cuidados com as crias.

Falta apenas mais um Patrimônio Natural da Humanidade a ser visitado na Argentina (os Parques de Ischigualasto e Talampaya, respectivamente nas Províncias de San Juan e La Rioja)… Não vejo a hora!

Na minha opinião, a Argentina fez a coisa certa com relação à Lista da UNESCO: inscreveu, comedidamente, apenas aquilo que tem de melhor.

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Puerto Madryn, Trelew e Gaiman (Província de Chubut, Argentina)

Quase certamente, se a via escolhida fora a aérea, o visitante da Península Valdés chegará ao Aeroporto de Trelew, cidade de 100 mil habitantes, mas o ideal é sair dali o mais rápido possível em direção a Puerto Madryn. Trelew tem apenas uma coisa a ser visitada: o Museu Paleontológico Egidio Feruglio, que reúne de forma interessante fósseis de dinossauros que foram encontrados em várias partes da Argentina. Exibem com orgulho alguns ossos fossilizados que foram encontrados em 2013 em Chubut daquele que foi o maior dinossauro que existiu (e que, em massa, apenas foi suplantado pelo maior animal que já habitou a Terra: a baleia-azul). Trata-se do fêmur de um titanossauro gigante.

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Nos arredores de Trelew está a cidade que seria a “capital” galesa da Província de Chubut: Gaiman, onde abundam casas de chá com a torta negra galesa e construções que lembram a odisseia destas famílias que, em protesto contra o jugo inglês sobre Gales, abandonaram a Grã-Bretanha no séc. XIX e se instalaram nesta remota região do mundo, passando por todo tipo de adversidades.

Diana Spencer, Princesa de Gales que era, visitou Gaiman em 1995 e causou feroz competição entre as casas de chá para ver quem a serviria uma xícara de chá galês com bolo… A escolhida acabou sendo a Ty Te Caerdydd, mas eu achei outras mais pitorescas, como a Ty Cymraeg e a Ty Gwyn. O chá é, ahrnnn, inglês… mas a torta negra de Gales é boa (embora minha mãe faça um bolo parecido muito melhor).

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Perambular por uma hora em Gaiman permite ver edifícios que lembram a influência galesa sobre esta região. Deve-se ressaltar que os galeses não estabeleceram nenhuma outra colônia fora de seu país, sendo esta experiência patagônica única na história deste povo europeu de origem celta, integrados ao Reino Unido. Em 2013 estive no País de Gales, visitando dois PH no norte galês e, quem se interessar, pode buscar por este link na barra lateral.

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Gaiman fica no vale do Rio Chubut, que dá nome à Província. É uma região verde, em grande contraste com o resto de Chubut, que é muito seco.

Puerto Madryn é outra cidade de bom porte (deve ter algo em torno de 80 mil habitantes) e alguns museus e bons restaurantes e é a melhor base para se hospedar na região para quem não tem carro pois é dali que saem boa parte dos tours. Fica à beira-mar (também fui à praia lá), mas a atividade que eu mais curti fazer foi alugar uma bicicleta e seguir, por 20 km em estrada de chão irregular com muitas pedras, até Punta Loma, uma lobería para meu primeiro contato com a fauna local. Foi um exercício muito legal!

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Em Puerto Madryn hospedei-me em um B&B chamado El Patio, simples, pequeno e econômico e com uma proprietária encantadora chamada Carla, que conhece todo mundo e é capaz de encaixar o cliente nos melhores tours e dar as melhores dicas. Prometi a ela que divulgaria a sua pensão entre leitores de língua portuguesa então tá cumprida a promessa!

Península Valdés–PH n.º 181–3.ª parte

Puerto Pirámides é a o único centro populacional de toda a Península Valdés. Lembrou-me a cidadezinha de El Chaltén (na Província de Santa Cruz, mais ao sul) por ser um pequeno agrupamento de casas, hotéis, restaurantes e lojas onde tudo o que o turista precisa pode ser encontrado. Pirámides fica a uma hora e pouco de Puerto Madryn e há uma linha de ônibus que as liga (a volta é às 18:00 e não vendem bilhetes antecipados, por isto, é bom estar no ponto por volta das 17:30 para garantir lugar).

Ao fim do meu tour pela Península pedi para ficar em Pirámides para passar uma noite. Escolhi o Hotel A.C.A. que tem uns janelões com ampla vista para a baía de Puerto Pirámides e, no dia em que estava, fez um calor absolutamente fora dos padrões desta região da Patagônia, o que me motivou ir à praia para tomar sol e um rápido mergulho na água gelada.

Uma atividade legal para se fazer em Pirámides é ir andando até uma colônia de lobos marinhos (lobería, como dizem lá), um trajeto de uns 5 km (no início só subida) por entre as encostas secas e mergulhadas no mais profundo silêncio.

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Eu já havia ido a uma colônia de lobos marinhos em Punta Loma, no primeiro dia logo que cheguei a Puerto Madryn, mas estes aqui estavam mais próximos e faziam muito mais barulho (o que, no silêncio do lugar, ecoava longe).

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Os lobos marinhos (em inglês chamam de leões marinhos porque os machos têm algo parecido com uma juba) vivem em colônias que são, na verdade, haréns nos quais um macho agrupa até 10 fêmeas e todos vão a Valdés com objetivo de procriação. Os machos chegam a pesar 300 kg e as fêmeas 200 kg.

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Eles se parecem com os elefantes-marinhos mas não se confundem: os elefantes são ainda mais corpulentos (alguns podem pesar até 3 toneladas) e não possuem os membros traseiros aptos a lhes locomover. Em outras palavras, trocando em miúdos, os lobos marinhos movem-se com seus membros traseiros enquanto os elefantes marinhos arrastam-se. Abaixo, foto de elefantes marinhos (obtidas na Caleta Valdés, também na península):

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Apenas na Península Valdés é possível ver elefantes-marinhos no continente sulamericano, onde também vão para se reproduzir. Passam, porém, boa parte do tempo no oceano e conseguem mergulhar, em busca de alimento, até 1.000 metros e ficar sem respirar por quase meia hora. Fora de Valdés também encontram-se elefantes marinhos nas Ilhas Geórgia do Sul (britânicas, reivindicadas pela Argentina) e na Antártica.

Se eu pudesse dar apenas um conselho a quem vá à Península Valdés é: leve binóculos! Eles permitem ver detalhes dos animais, que nem sempre estarão muito próximos, até porque tanto elefantes-marinhos quanto lobos-marinhos quanto pinguins podem atacar se forem importunados.

Foto panorâmica de Puerto Pirámides e sua baía:

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Península Valdés–PH n.º 181–2.ª parte

Nada se compara a uma avistagem de baleias! Eu já havia experimentado isto quando, a caminho de Abrolhos, no Sul da Bahia (2004), nas três horas de barco que separam a costa do arquipélago, pude ver umas quantas baleias subindo para respirar, mas não sei a que espécie pertenciam (provavelmente foram baleias-jubarte).
Na Península Valdés têm-se as baleias-francas-austrais, que buscam as águas temperadas e rasas dos golfos formados pela península para darem à luz e cuidarem de suas crias. 

Os barcos saem da praia de Puerto Pirámides e, no meu caso, eu teria preferido que houvesse menos gente, mas como ele foi apinhado (alta temporada), tratei de conseguir ficar bem na ponta, de modo a que pudesse conseguir tirar algumas fotos. É importante não ficar obcecado com as fotos, senão não se aproveita o passeio. As baleias emergem para respirar e afundam rapidamente e ver estes seres de 30 a 40 toneladas a poucos metros é emocionante. Tão-logo o barco avançou no Golfo Nuevo elas começaram a aparecer, invariavelmente com suas crias ao lado. As baleias-francas-austrais têm em média 16 metros de comprimento e pele escura, podendo viver mais de 80 anos.  São logo reconhecidas porque possuem protuberâncias em seu corpo de cor clara, que correspondem a crustáceos que crescem em sua pele como parasitas.

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Em inglês são chamadas de Southern Right Whales (trad. baleias “certas” do Sul) e isto vem do fato de que estas baleias eram consideradas ideais pelos baleeiros por seu temperamento dócil e por preferirem estar próximas da costa, o que facilitava sua caça (e não pesca, já que é um mamífero). Atualmente, com uma série de medidas visando a proteção desta espécie, seu número vem aumentando no Atlântico Sul.

Todos no barco ficaram loucos quando as primeiras baleias despontaram. Um grupo de aposentados argentinos não conseguia cumprir a regra de manter silêncio. As baleias eram muitas e apareciam, de repente, por todos os lados.  O esguicho que elas soltam a partir de um orifício em seu dorso é, na verdade, vapor que se produz com o contraste de temperatura entre o ar que liberam e as frias temperaturas do mar.

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Logo o grupo de aposentados começou com comentários sobre se veríamos alguma cauda de baleia, pois esta foto é a clássica da Península Valdés. Já quase estávamos cansando de tanto ver os lombos da baleias quando uma delas começou a fazer graça, levantando a cauda por demorados segundos quase como que esperando que fizéssemos as fotos.

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Espetacular! Elas ficam super próximas e a impressão que se tem é que não se importam com os barcos. Em dado momento, notei que uma delas passou bem embaixo do barco onde estávamos. Voltamos extasiados a Puerto Pirámides.

O passeio dura em torno de uma hora e meia e na alta temporada o número de baleias no Golfo Nuevo é tão grande que há uma placa na agência que promove o tour pela qual ela garante que o turista vai avistar alguma baleia. Ver a cauda, porém, não é garantido e, menos ainda, presenciar um salto da baleia-franca, o que não chegamos de fato a ver.

Cobram pelo passeio algo em torno de R$ 100 (A$ 560, considerando o câmbio paralelo). Esta atividade faz valer toda a viagem! 

Península Valdés – PH n.º 181 – 1.ª parte

A Argentina tem 4 Patrimônios Naturais da Humanidade (Iguaçu, Ischigualasto/Talampaya, Los Glaciares e a Península Valdés), todos espetaculares. A Península Valdés é uma Reserva Faunística pertencente à Província de Chubut que abriga enorme e variedade quantidade de fauna marinha, terrestre e aves típica da Patagônia, bem como animais que migram temporariamente desde a Antártica e o Oceano Antártico.
A Península tem forma de uma lança que se projeta sobre o Atlântico Sul e cria dois golfos (Golfo Nuevo e Golfo San José), com águas mais mornas do que se supõe encontrar tão ao sul e, assim, é lugar escolhido pelas baleias-francas-austrais para terem suas crias, assim como também o fazem elefantes-marinhos e pinguins-de-magalhães. Fora isto, a península é dominada por guanacos (um dos quatro camelídeos sulamericanos, ao lado das lhamas, vicunhas e alpacas), maras (lebres patagônicas) e outras aves e roedores. Isto sem descuidar das verdadeiras colônias de lobos marinhos (ou leões marinhos, da tradução inglesa sea lions).
A Península é semi-árida em sua maior parte e há pontos completamente desérticos. A vegetação é de arbustos que toleram longas estiagens e é praticamente plana.
Há um único local habitado chamado Puerto Pirámides, com a população local quase toda voltada para o turismo. A maior parte dos turistas faz day trips a partir de Puerto Madryn, mas eu considerei delicioso passar uma noite em Puerto Pirámides para caminhar pelas redondezas no absoluto silêncio patagônico apenas interrompido pelos sons emitidos pelos lobos marinhos e pelas baleias francas, que podem ser avistadas mesmo de terra firme.
Minha ida a este magnífico PH começou saindo de Puerto Madryn com um tour que para logo na entrada do Parque, em um centro de interpretação da fauna local. Os tours quase sempre vão a dois importantes pontos de visualização de animais: Punta Norte (onde há elefantes e lobos marinhos) e Caleta Valdés, onde há pinguins-de-magalhães e mais elefantes-marinhos. No caminho, abundam os guanacos, sozinhos ou em grupo.
Estas excursões podem ser facilmente contratadas em Puerto Madryn e custam em torno de R$ 100 (se o câmbio for o paralelo, ou blue). Se a conversão for na taxa oficial controlada pelo governo argentino, em reais, o valor quase dobra. É muito importante levar um lanche pois as opções de comida no caminho são limitadas. Não se fica muito próximo dos elefantes-marinhos, mas os pinguins chegam bem perto. Para quem nunca viu estes animais em seu habitat, como era o meu caso, é muito legal esta espécie de safari de animais patagônicos. Com o tempo, aprendemos a diferenciar os elefantes-marinhos dos lobos-marinhos.

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