Caiena, Guiana Francesa

A capital da Guiana Francesa (fr. Cayenne) é uma cidade pouco interessante: há uma praça com palmeiras e um monumento ao herói local Félix Éboué, a igreja, imóveis em estilo colonial franco-caribenho e um decrépito forte de nome Cépérou. Uma hora é suficiente para dar uma olhada em tudo isto e mais tempo é necessário caso o visitante queira conferir os museus da cidade (no domingo estão fechados).

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A cidade dispõe de uma praia próxima: Rémire-Montjolie, onde cheguei a ir, mas estava chovendo. Nenhuma das três “Guianas” é dotada de praias muito bonitas, há muitos manguezais e rios caudalosos que desaguam no litoral, que turvam as águas das praias. Dizem que Rémire-Montjolie é a praia mais bonita da Guiana Francesa, mas eu gostei bastante da própria praia da cidade de Kourou, onde passei uma tarde relaxando.

A única coisa que eu realmente gostei em Caiena foi do café Les Palmistes – localizado, claro, na Place des Palmistes: é um estabelecimento centanário, colonial, que serve pratos da culinária francesa e guloseimas em geral. Achei gostoso ficar ali tomando um café e observado a desolação da cidade de Caiena em um domingo de manhã.

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Na Guiana Francesa tive minha primeira experiência com o sistema de alojamento proposto pelo Airbnb e posso dizer que gostei da experiência de me alojar na casa de moradores locais. A Guiana Francesa é muito cara (os preços são europeus para cima) e minha decisão de me alojar na casa de alguém se deu primordialmente por isto. Mas tive sorte: deparei-me com  um casal muito simpático de franceses (Jean-Jacques e Alexandra), que além de me darem todas as dicas possíveis sobre a Guiana Francesa, chegaram a me convidar para um jantar preparado pelo próprio dono da casa. Um dos pontos altos da viagem foi a convivência com eles.

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Outra coisa que me agradou foi ter conseguido me comunicar, quase exclusivamente, em francês. Estudei dois anos de francês há muito tempo e cometo erros crassos de gramática, mas especialmente em 2015 estive muito em contato com a língua: fui a quatro regiões da América que falam francês, Québec (Canada), Saint-Martin, St. Barth e Guiana Francesa, de forma que a língua se “reativou” em mim, digamos assim.

Agora está mais fácil que nunca ir à Guiana Francesa: há duas companhias que ligam Belém a Caiena, a Surinam Airways e a Azul e a competição tende a tornar as viagens baratas para lá. A Guiana Francesa é cara – hospedagem em especial – e o aluguel de um carro é essencial pois o transporte público é bastante limitado. Imagino que nem todo mundo curtiria a Guiana Francesa, ali ou bem se busca um contato com a Amazônia (interesse dos turistas que vêm da França) ou bem se busca um contato com a exótica experiência francesa nos trópicos (algo que foi tentado por eles, sem sucesso, também no Rio de Janeiro e no Maranhão), o que era do meu interesse.

A Guiana Francesa é muito parecida com o Brasil em seu ambiente natural, mas muito diferente sob o aspecto cultural, sendo notavelmente mais próxima do Caribe e, em alguns pequenos aspectos, lembra de fato o que é (ao menos “no papel”): a França.

Îles du Salut (Ilhas da Salvação), Guiana Francesa

O passeio que mais gostei de fazer na Guiana Francesa foi às Ilhas da Salvação (fr. Îles du Salut), famosas em razão de terem abrigado uma infame penitenciária por um século (entre 1852 e 1953).

O lugar tornou-se conhecido mundialmente em razão do filme Papillon (1973) que conta a história (um tanto quanto fantasiada) do personagem Papillon (esta palavra significa “borboleta” em francês e se deve a uma tatuagem que Henri Charrière tinha no peito), seu encarceramento na Guiana Francesa e suas fugas e recapturas. Outro personagem do filme é o ainda jovem Dustin Hoffman, que interpreta outro condenado, o estelionatário Louis Dega.

Ao ver o filme, é possível se ter uma noção das barbaridades que eram cometidas pelo Estado Francês com os seus prisioneiros, que eram banidos da França para cumprir pena nos trópicos. Todos os condenados a mais de 8 anos não poderiam mais retornar à França e os condenados a menos tempo deveriam, após soltos, permanecer pelo mesmo período na Guiana antes de retornar à Europa. A ideia francesa era povoar sua possessão sulamericana e, claro, se livrar dos marginais.

A maioria dos prisioneiros, porém, morria pela dureza da viagem, de malnutrição ou pelas doenças tropicais, sem falar na guilhotina.

As ilhas ficam a 14 km da costa de Kourou (é possível vê-las da costa) e são três: a Ilha Royale, a Ilha de São José (fr. Saint-Joseph) e a Ilha do Diabo (Île du Diable) – foto abaixo.  Diariamente saem barcos de passeio para as Ilhas da Salvação que têm este nome em razão de, justamente por estarem fora do continente, eram menos propícias às moléstias tropicais que assolavam a Guiana (malária, febre amarela, etc.).

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Desembarca-se na maior ilha, a Royale, onde há até um hotel com restaurante, um museu, igreja e diversos imóveis ligados à administração penitenciária (abaixo, fotos do hospital, da igreja e suas pinturas e as celas). As ilhas são vulcânicas e não há propriamente uma praia a se aproveitar, embora seja possível o banho de mar.

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No museu, que funciona na confortável casa utilizada pelos diretores, é possível ler o relato da vida dos infelizes que foram parar na Guiana Francesa. Nem era necessário cometer um crime muito sério, por vezes pequenos delitos já importavam no envio do condenado (fr. bagnard) ao inferno que então eram as Îles du Salut.

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Hoje elas são bem mais aprazíveis: gostei de sentar na varanda do bar do hotel para ter esta vista (da Ilha do Diabo) e tomar uma bebida antes de me aventurar a dar a volta na ilha, tomada por coqueirais e floresta tropical.

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A outra parada que se faz é na Ilha São José: ali moram algumas pessoas ligadas ao Exército Francês, o que faz lembrar o fato de que, quando há lançamento de foguetes no Centro Espacial de Kourou, as ilhas são evacuadas pois os foguetes cruzam-nas.

É um passeio muito tranquilo – os catamarãs vão lentamente –, e é recomendável reservar antes, o que pode ser feito inclusive online.

As Ilhas da Salvação me fizeram lembrar um pouco Fernando de Noronha, onde também funcionou uma penitenciária, claro se desconsideradas as praias. Falei sobre isto aqui.

Centro Espacial de Kourou, Guiana Francesa

Kourou (pron. currú) é a segunda cidade da Guiana Francesa (pop. 25 mil) fica a 60 km ao norte de Caiena, também à beira-mar. Tão-logo pousei no Aeroporto de Caiena Félix Éboué (CAY) e aluguei um carro, fui direto para Kourou onde havia agendado uma visita ao Centro Espacial Europeu (fr. Centre Spatial Européan) no dia seguinte.

Não sabia bem o que esperar, mas lá chegando, em um ambiente rodeado pela Floresta Amazônica, esta é a primeira visão:

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O Centro Espacial de Kourou, estabelecido pela França em 1968, é a principal base de lançamento de foguetes da Agência Especial Europeia (fr. Agence Spatiale Européenne) e a escolha do lugar se deveu pelas seguintes razões: Kourou está muito próxima da Linha do Equador (latitude 5ºN), o que, segundo nos disseram, facilita a propulsão dos foguetes. Nisto, o Centro Espacial de Kourou tem vantagens com relação ao Centro Espacial Kennedy (em Cabo Cannaveral, Flórida, EUA) e o Centro Espacial de Baikonur (Cazaquistão, utilizado pela Rússia).

Além disto, Kourou tem a vantagem de situar-se à beira-mar, em um local com baixa densidade populacional.

Daqui partem os foguetes europeus que põem em órbita satélites dos mais variados e o espaço é ainda alugado para o lançamento de satélites também de outros países fora da União Europeia.

Há três modelos de foguetes que partem da Base de Kourou a depender do tipo e da dimensão do satélite a ser posto em órbita. Os mais famosos são os foguetes Ariane e é a sua réplica a primeira visão que o visitante tem ao chegar ao Centro Espacial.

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O passeio no Centro Espacial é feito em inglês ou em francês a bordo de ônibus que percorrem as notáveis distâncias entre as bases de propulsão de foguetes, vai ao centro de controle e termina com uma visita ao Museu Especial. O passeio é gratuito, mas o museu cobra alguns euros para a visita e o prévio agendamento (por e-mail) é essencial.

No total, são 3 horas de informações sobre o programa espacial europeu e sobre como os satélites são trazidos da Europa em enormes navios, a delicada tarefa do transporte, a construção dos foguetes, o acoplamento do satélite ao foguete e todo o processo de subida até que o satélite seja posto onde deve sê-lo no espaço.

Os russos têm um acordo com os europeus para lançamento de foguetes  Soyuz em uma base de lançamentos dentro do Centro Espacial de Kourou por eles ocupada. Há ainda foguetes mais leves chamados de Vega.

São, portanto, três bases de lançamentos e fomos até a base de onde partem os foguetes Soyuz. A base dos Ariane estava fechada pois um foguete havia sido lançado dias antes e por razões de segurança não poderia ser visitada.

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Dentro desta estrutura é montado o foguete e posto o satélite. Há um enorme fosso por onde as chamas decorrentes da ignição se espraiam. Deve ser um espetáculo ver os lançamentos, mas frise-se: durante os lançamentos a base fica, naturalmente, fechada para visitação e também as Ilhas du Salut – outra grande atração turística da Guiana Francesa – são evacuadas.

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Centro de Controle do lançamento de foguetes Ariane. Ali ocorre a famosa contagem regressiva (mas em francês):

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Exemplo de um satélite, que são levados ao espaço com os foguetes Ariane, Soyuz ou Vega a partir da Base Espacial de Kourou:

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Soube que quando de um lançamento, a cidade de Kourou, que fica a alguns quilômetros distante do Centro Espacial, treme como em um terremoto e é possível ver a subida do foguete a partir da cidade que vive, praticamente, em função do Centro Espacial.

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Guiana Francesa – 2015

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Em 2015, esta é a terceira vez que vou à França sem ter ido à Europa: vou à Guiana Francesa, departamento de ultramar francês situado na América do Sul. Antes, em julho, estive nos territórios de ultramar São Martinho e São Bartolomeu.

A Guiana Francesa (fr. Guyane Française) é a única porção continental de todas as Américas ainda sujeita à soberania de um país europeu. Embora seja pequena no contexto da América do Sul, tem 83,5 mil km² (é de longe o maior departamento francês em área), isto é, é maior que a Bélgica, a Holanda e Luxemburgo somados, boa parte deles tomados pela Floresta Amazônica.

Tem apenas 250 mil habitantes, mas com enorme variedade étnica: há desde franceses metropolitanos (brancos), até imigrantes do Laos (hmong), passando por descendentes de africanos, índios e imigrantes do Suriname, do Haiti e do Brasil. Apenas metade da população nasceu na Guiana.

A forte pressão imigratória faz com que a França exija visto de entrada de brasileiros – já que basta atravessar o rio Oiapoque para se atingir, a partir do Amapá, o território francês da Guiana e há graves problemas para a França envolvendo atividade ilegal de garimpeiros brasileiros.

Nenhuma outra parte de toda a República Francesa (incluindo deparamentos de ultramar e coletividades de ultramar) exige visto de entrada de brasileiros, exceto a Guiana Francesa. Quem tem passaporte de algum país da União Europeia, porém, tem livre acesso à GF e mesmo direito de residência de acordo com as regras europeias, plenamente aplicáveis.

Há uma ponte já construída sobre o Rio Oiapoque, ainda não operacional (em razão do atraso brasileiro nas obras de acesso, imigração e alfândega). Esta ponte permitirá o acesso terrestre entre Macapá-AP e Caiena (e, para além, ao Suriname e à República Cooperativista da Guiana). Detalhe: a ponte está pronta desde 2011…

Sendo um departamento de ultramar, a Guiana Francesa goza das mesmas prerrogativas jurídicas de qualquer outra parte da França Metropolitana (trato da organização político-administrativa da República Francesa aqui). A Guiana Francesa usa, portanto, o euro e seu mapa consta de todas as cédulas da moeda europeia. Aliás, por causa disto, a parte norte do Estado do Amapá (e consequentemente o Brasil) também aparece em todas as cédulas de euro!

Which territories are depicted in the box next to the map of Europe on the euro banknotes?

A capital da Guiana Francesa é Caiena (fr. Cayenne) e a segunda maior cidade é Kourou, lugar onde estão duas das maiores atrações da Guiana Francesa: as Îles du Salut e a Estação Espacial Europeia. As primeiras são um paraíso tropical e famosas pelo fato de terem abrigado presídios franceses no passado (ali ocorreu a história do prisioneiro Papillon, eternizada em filme de 1973 que eu assisti em preparação para esta viagem). O Centro Especial é um dos principais locais de lançamentos de satélites de todo mundo, aproveitando-se da proximidade com o Equador (o que facilita a propulsão dos foguetes), a baixa densidade populacional (para caso de acidentes) e a ausência de risco de terremotos e furacões.

A viagem vai ser corrida (mas suficiente, penso, para ver o essencial) e envolve uma escala em Belém-PA, cidade que me agradou muito quando lá estive em nov/2013, também para tomar um voo, rumo ao Suriname. Em Belém, vou buscar avidamente tomar um tacacá na Estação das Docas – um dos melhores lugares que conheço para passar um fim de tarde e início de noite – e também passar os olhos no Teatro da Paz, que passou a integrar uma Tentativa de Patrimônio da Humanidade do Brasil chamada Teatros Amazônicos juntamente com o Teatro Amazonas, em Manaus. Também quero visitar, mais apropriadamente, outra Tentativa de PH existente em Belém: o Mercado Ver-o-Peso.

Vamos então ver como é este pedaço da França que faz fronteira terrestre com o Brasil!