Algumas peculiaridades e dicas sobre Cuba

ACESSO A PARTIR DOS ESTADOS UNIDOS

Com o restabelecimento de relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba, a partir de meados de 2016, foram retomados os voos diretos entre os dois países, algo que deixou de existir por décadas, em razão do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos. Até então, os cidadãos norte-americanos estavam sujeitos a penalidades caso fossem a Cuba (embora, na prática, estas penalidades raramente fossem aplicadas). De qualquer forma, era necessário ir ao Canadá ou ao México para dali tomar voos em direção a Cuba.

O turismo não é nenhuma novidade em Cuba – canadenses, europeus e latinoamericanos têm visitado o país, em especial após o implemento, ainda na época de Fidel Castro, de medidas visando justamente atrair turistas – e seus dólares. A novidade é que agora visita-se Cuba diretamente desde os Estados Unidos. Embarquei num destes voos.

Ao menos no Aeroporto John F. Kennedy (JFK) em Nova York, o check-in para voos a Cuba é feito em um lugar específico. Ali vendem-se os vistos de entrada no país (50 dólares) e o viajante preenche um formulário esclarecendo os motivos da visita a Cuba. Ou seja, embora seja absolutamente lícito ir a Cuba, ainda há idiossincrasias na relação entre os dois países, o que sujeita os americanos (e os que estão em solo americano) a regras especiais. O visto para quem parte de aeroportos em outros países custa menos e não há que se justificar nada. 

MOEDA EM CUBA

Uma vez no Aeroporto de Havana (HAV), a primeira missão é conseguir pesos conversibles, também chamados de CUC, para pagar o táxi (não há transporte público do aeroporto para o centro da cidade). Ao contrário do que ocorre em todos os outros países do Caribe, os dólares norte-americanos (USD) não são moeda corrente em Cuba – pior, sofrem uma taxação específica de 10% em todos as transações cambiais. O CUC é atrelado ao USD, porém. 1 CUC vale 1 USD, mas se for trocar 1 USD por CUC, consegue-se, no máximo, 90 centavos de CUC.

O CUC foi criado em 1994, já no contexto das medidas do governo cubano visando atrair turistas após o colapso da União Soviética, sua grande parceira comercial até 1990. Ele convive com o  peso cubano (CUP), que vale 25 vezes menos que o CUC, mas é a moeda com a qual são pagos os funcionários públicos de Cuba e é a mais corrente no dia-a-dia dos cubanos não ligados ao setor turístico.

Para trocar em miúdos: o CUC é a moeda dos turistas, até porque o CUC é o “dólar”, só que travestido de peso conversible; ao passo que o CUP é a moeda de sempre dos cubanos. As duas moedas convivem harmonicamente, porém, e nada impede que turistas usem CUP e cubanos usem o CUC.

Para o turista, levar moedas fortes que não o dólar (especialmente euro ou libra esterlina) é mais negócio, pois foge-se da taxa de 10% que incide apenas sobre o USD. Eu suponho que esta medida teve o objetivo de desestimular a circulação do papel moeda americano em Cuba, pois isto faria um estrago e tanto no discurso “anti-imperialista” do regime cubano. Funcionou bem. Umas das curiosidades tanto do CUP quanto do CUC é a existência de uma cédula de 3 pesos!

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O câmbio é feito nos bancos ou nas CADECA (casas de câmbio) e o passaporte será sempre exigido. É bom preparar-se para filas.

O uso de cartão de crédito é bastante menos disseminado que no resto do mundo, cobra-se comissão de 3% sobre as transações e cartões de crédito norte-americanos tendem a não funcionar lá. Ou seja, Cuba é um cash country.

SEGURANÇA

Uma das coisas que eu mais apreciei em Cuba foi a sensação de segurança que se tem, mesmo em Havana. Cidades com o mesmo porte na América Latina requerem, quase sempre, mais cuidado por parte dos visitantes. Em Havana eu me senti completamente seguro, a qualquer hora do dia e da noite e em qualquer parte da cidade (ao menos nas partes de interesse dos turistas). Pode ser que não seja sempre assim, mas minha experiência foi esta.

ACESSO À INTERNET

Este é um inconveniente. O Estado Cubano, por meio da agência ETECSA, tem o monopólio do serviço de acesso à internet no país, a rede é censurada e, pelo que li, é ilegal ter internet em casa. Em janeiro de 2017, em Havana, as coisas funcionaram assim comigo: para conseguir acesso, é necessário entrar na fila (e esta fila pode ser gigantesca) na ETECSA (situada na turística Calle Obispo), comprar um cartão, raspá-lo e, depois, dirigir-se a algum dos pontos de wi-fi na cidade (há na Praça de Armas e também em Vedado) e ali conectar-se, junto com um monte de gente, do lado de fora dos prédios. A conexão é lenta. É como voltar 20 anos no tempo.

Outra opção, mais prática me pareceu – mas talvez mais cara – é ir a um grande hotel e comprar ali mesmo um cartão e ali mesmo usar o wi-fi. No Hotel Sevilla o cartão de 1 hora era vendido por 4,50 CUC. Como tempo é que há de mais precioso em uma viagem, eu sugiro fazer isto.

HOSPEDAGEM

O sistema de acomodação que hoje conhecemos pelo Airbnb já era praticado há muito tempo em Cuba: ser hospedado em casas particulares é algo corrente no país e representa o ganha-pão de significativa porção de famílias. Em lugares como Viñales, eu fiquei com a impressão de que todas as casas da cidade disponibilizavam quartos para visitantes.

O Airbnb (que é uma empresa norte-americana) apenas começou a atuar no país recentemente e, pelo que pude ver, oferece as mesmas casas mas a um custo maior. Eu, como decidi a viagem de última hora, acabei pagando o preço do Airbnb, mas talvez tivesse pagado menos acaso tivesse buscado sites próprios de hospedagem domiciliar em Cuba. O Airbnb, pelo menos, é um intermediário que pode ajudar – e ser responsabilizado – em casos de problemas.

Minha experiência em Cuba (foi a terceira vez que me hospedo via Airbnb) foi menos marcante que na Guiana Francesa e no Líbano. Os anfitriões me consideravam apenas um ocupante do quarto, nada de conversa, nada de amenidades. O quarto, porém, tinha o que eu mais exijo: era imaculadamente limpo, tinha ar condicionado potente e banheiro renovado. Ok, então.

DESLOCAMENTOS EM HAVANA

Minha viagem a Cuba teve por foco apenas Havana. As praias não me interessavam muito e eu não tive tempo (embora tenha interesse para uma segunda viagem) de ir rumo ao leste do país. Então apenas posso falar de Havana. Dica: andar à pé. Havana é uma delícia para se caminhar, em especial no Centro Histórico. A cidade é toda plana e a caminhada permite ver os detalhes da arquitetura e da vida na cidade – é o mais interessante.

Claro, há os táxis, alguns carros novos, outros estilosos modelos americanos da década de 1950– mas ultrapoluentes! – e os Lada caindo aos pedaços. Há uma forte tendência de o turista ser explorado pelos taxistas (cobram, por exemplo, inaceitáveis 5 CUC por uma viagem entre o Centro Histórico e o Vedado), então eu só tomei táxis em Havana quando isto foi absolutamente necessário.

Sem contar que a cidade é à beira-mar e tem um calçadão ótimo (El Malecón) que vai desde o Centro Histórico até o moderno bairro de Vedado.

A partir de Havana é possível fazer day trips e os mais comuns são para o oeste (Viñales) e para a praia de Varadero (a leste). Também existe a possibilidade de ir a Cayo Largo del Sur – uma paradisíaca ilha ao sul da ilha de Cuba –, mas é um passeio caro e sem sentido para se fazer em um dia (envolve ida e volta de avião).

O passeio para Viñales pode ser contratado em agências no Vedado (como a Cubatur). Custa por volta de 65 CUC e inclui almoço. É um tour daqueles bem plastificados, mas permite dar uma olhada na região produtora de tabaco. O ideal é ir e ficar lá uns dias, mas o daytrip permite ter uma noção do lugar.

ALIMENTAÇÃO

Cuba sofre com desabastecimento de produtos básicos, basta ir a um supermercado no país para ficar de boca aberta com as prateleiras vazias. Isto se reflete nos restaurantes do país: há pouca variedade e as opções costumam ser muito abaixo do que se espera. O corrente é engolir fast food ruim. Há algumas padarias (na Calle Obispo tem uma boa) que quebram o galho e alguns restaurantes com bom preço e comida razoável (na própria Obispo eu me salvava no restaurante La Caribeña), mas não esperem experiências gastronômicas em Cuba, o que é uma pena. Até mesmo os drinks típicos do país (mojito, daiquirí, etc.) tendem a ser mais bem feitos em São Paulo ou Nova York do que em Havana…

NO GERAL, Cuba é fascinante. Tendo já conhecido boa parte da América, eu me surpreendi positivamente com Cuba e suas peculiaridades. A hospitalidade latina é bem sentida e a viagem a Cuba trouxe, para mim, aquela sensação de estar presenciando o desenrolar da História, com os avanços e retrocessos, concessões e restrições de um país que optou por um caminho singular no Hemisfério Ocidental. Normalmente, eu viajo para conhecer um país e não mais voltar (o mundo, ao contrário do que dizem, é grande e todo ele me interessa), mas a experiência em Cuba foi tão marcante, que eu toparia voltar.

Os 10+PH e os Países Completados

DEZ PAÍSES EM QUE MAIS VISITEI PATRIMÔNIOS DA HUMANIDADE

1 – Brasil: 19

2 – Reino Unido Reino Unido: 18

3 – Flag of Spain.svg Espanha: 14

3 – México: 14

5 – Portugal: 11

6 – Flag of Australia.svg Austrália: 10

7 – Bélgica: 9

7 – Japan Japão: 9

9 – Alemanha: 6

9 – Croácia: 6

9 – clip_image002[42] Itália: 6

9 – Peru: 6

PAÍSES EM QUE VISITEI TODOS OS PATRIMÔNIOS DA HUMANIDADE (PAÍSES COMPLETADOS)

1 –  Líbano (5/5) – 2016

2 – Guatemala (3/3)- 1993

3 – Vaticano Vaticano/Santa Sé (2/2) – 2003

4 – Flag_of_Cambodia_svg Camboja (2/2) – 2014

5 –Flag_of_Nicaragua_svg Nicarágua (2/2) – 2015

6 – República Dominicana República Dominicana (1/1) – 1993

7 – Paraguai (1/1) – 2011

8 – Luxemburgo (1/1) – 2012

9 – Flag of Belize Belize (1/1) – 2014

10 – Cabo Verde Cabo Verde (1/1) – 2014

11 – 22px-Flag_of_Singapore_svg Cingapura (1/1) – 2014

12 – São Cristóvão e Nevis São Cristóvão e Névis (1/1) – 2015

13 – Bandeira de {{{nome_pt}}} Barbados (1/1) – 2016

Matsuri de Saijō (Hiroshima)

Minha estadia em Hiroshima coincidiu com um dos principais festivais da região: o matsuri (festival) da pequena cidade de Saijō, cidade a meia hora de trem da estação de trens de Hiroshima. A Prefeitura de Hiroshima é uma grande produtora de saquê. O matsuri era, justamente, a festividade pela colheita do arroz (que ocorre no outono), ingrediente básico da produção da principal bebida alcoólica do Japão.

As barraquinhas de comida se espalhavam pela rua principal da cidade, havia inclusive uma de comida brasileira, na qual os japoneses podiam provar os misteriosos pastéis de carne e queijo e a exótica coxinha. O que valeu mesmo foi ter provado um takoyaki (bolinho de polvo) negro, com a tinta do próprio animal.

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Mas a animação estava no recinto onde ocorria a degustação de centenas de tipos de saquês, vindo de todas as partes do Japão, desde a setentrional Hokkaido até o meridional Kyushu. O participante, após pagar a quantia de ¥ 1.600 (R$ 50,00) recebia uma tacinha para ir degustando os saquês nas diferentes barracas, sempre dentro daquela organização afiada que caracteriza tudo no Japão. Além disto, recebia uma brochura com todos os saquês que estavam sendo oferecidos. Para mim, impossível ler a brochura e, então, minha tática era: eu chegava ao balcão escolhendo a região do saquê que gostaria de provar e pedia: おすすめ おねがいします! (Osusume, onegaishimasu! Sugestão, por favor!), ao que se seguia a pergunta: あまぇ? からえ? (Amae? Karae? Doce ou seco?) e estava tudo resolvido!

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Um cartaz na entrada advertia que o saquê não mais seria servido acaso se notasse que o participante já estivesse embriagado, mas esta regra claramente não foi respeitada (ou a percepção de embriaguez no Japão seja distinta da que eu tenho)…. Eu mesmo saí bastante, digamos, abalado, do matsuri.  

O saquê é bebida fermentada (não destilada), com teor alcoólico similar ao vinho. Mas de tacinha em tacinha faz o seu estrago… Na volta, cheguei a dormir e deixar a passar o trem na parada em Hiroshima e quase fui parar em Yamaguchi, muitos quilômetros à frente.

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O saquê é bebida que eu gosto, embora não a aprecie como os vinhos. Mas em Saijō pude perceber que, no Japão, o saquê atinge um grau de refinamento e sofisticação que possivelmente o iguale no trato a que é dado ao vinho na França ou na Itália.

Fui reconhecido por Yukari, que trabalha no hotel Reino Inn, onde eu estava hospedado e juntei-me à sua turma para dar prosseguimento à degustação de saquê. Foi muito divertido!

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Uma coisa que me chamou a atenção no matsuri foi a extrema preocupação dos japoneses com o lixo e o destinado que é dado a ele. Isto se percebe já no primeiro instante no Japão, mas num festival como este foi espantoso ver que a cidade continuava limpa e reciclando seu lixo, de acordo com suas diferentes modalidades. Abaixo, a foto da “Estação do Lixo”:

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O chão continuou, durante toda a festa, impoluto. Por que não conseguimos ser assim no Brasil? Não estou nem falando de reciclar o lixo produzido a qualquer momento (estágio do Japão), estou falando na extrema falta de educação e respeito de jogar lixo no chão!

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Foi muito legal ter tido esta experiência no Japão!

O Desafio dos 193

Na minha última ida aos Estados Unidos comprei o livro Chasing 193: The Quest to Visit Every Country in the World (trad. Perseguindo 193: A questão de se visitar todos os países do Mundo).

A obra consiste em se formular perguntas a um seleto grupo de vinte e poucos viajantes que atingiram o objetivo (ou estão próximos) de visitar todos os 193 países integrantes das Nações Unidas.

São pessoas com os mais diversos perfis – há desde empresário do setor de alarmes até bibliotecário –, mas têm em comum algumas características que achei curiosas: a maioria é solteira, têm uma curiosidade insaciável, estão dispostos a correr riscos consideráveis e a montar roteiros de viagens bastante eficientes. A maioria também fez uso de programas de milhagens e sacrificou enormes somas de dinheiro e de tempo no projeto.

Além da óbvia motivação, estes dois fatores realmente são indispensáveis: dinheiro e tempo. E são inversamente proporcionais: isto é, quem tem muito tempo consegue fazer viagens mais econômicas do que quem tem menos tempo. E quem gasta mais consegue fazer viagens mais rápidas e eficientes pois consegue comprar passagens mais ajustadas e gasta menos tempo em trajetos terrestres.

As porções mais fáceis da Terra são, naturalmente, a Europa, a América e o Extremo Oriente. As regiões mais desafiadoras são, em geral, a África, o Oriente Médio e a Oceania, mas cada país deve ser individualmente considerado: vistos, turbulências políticas e religiosas, guerras, conflitos separatistas, dificuldade de acesso, tudo isto influencia o objetivo de se atingir todos os países do mundo.

Há até pouco tempo, a Síria e suas maravilhas históricas eram um destino relativamente fácil. Hoje é impensável ir à Síria para ver o que sobrou de seu patrimônio cultural. O Irã, ao contrário, é um país cada vez mais aberto ao turismo. Até mesmo à Coreia do Norte é possível ir, desde que com uma excursão contratada na China e estando sujeito à estrita vigilância do Governo de Kim Jong-Un durante toda a viagem.

Há o desafio logístico: alguns países da Oceania (Tuvalu, Nauru, Ilhas Marshall) são alcançados apenas via aérea e com vôos caros algumas vezes na semana e sempre sujeitos a cancelamentos e outros aborrecimentos.

Algumas das perguntas que tornem o livro interessante são: quais foram suas maiores dificuldades?; o que você acha que perdeu em sua vida por passar tanto tempo fora viajando?; qual é o pior e o melhor lugar onde você passou uma noite?; onde você se sentiu mais fora de sua zona de conforto?

Eu me sinto muito atraído por este projeto de vida, embora não o tenha como foco exclusivo, até porque costumo voltar a países já visitados e também não desprezo regiões do planeta que não contam para os fins do 193-ONU (como os vários territórios que visitei no Caribe). Além disto, eu teria que reunir um ânimo extra para topar ir a países muito “problemáticos” da África (como Nigéria, Chade, República Centroafricana e Guiné Equatorial)  e da Oceania, sem contar os lugares mais perigosos da Terra hoje em razão do terrorismo islâmico (Síria, Iraque e Afeganistão). Isto sem falar, claro, no tempo e no dinheiro… Falo mais sobre isto aqui.

Segundo estimativas de entusiastas do assunto, apenas umas 100 pessoas até hoje conseguiram visitar todos os 193 países da ONU.

O “alfabeto” tailandês

Durante meses eu tentei decifrar o alfabeto tailandês. Para mim é um grande barato descobrir que som faz uma determinada letra e como estas letras se combinam para formar sons de palavras (mesmo que eu não entenda o significado da palavra). Se isto iria ajudar ou não na Tailândia, era algo que eu estava pagando para ver.

Já no meu primeiro dia em Chiang Mai, perdido, consegui entender que o wat (templo) onde eu estava não era o wat que eu procurava lendo a placa em tailandês na entrada. Neste mesmo dia, dentro de um outro templo, tornei-me o centro das atenções de um grupo de monges budistas que me viram tentando ler umas coisas escritas em tailandês. Em Nakhon Si Thammarat consegui pegar o ônibus certo apenas lendo a placa กระบี่ e volta e meia algum tailandês puxava assunto comigo espantado por ver um farang (estrangeiro) lendo estas letras. 

É bom que se diga que, a rigor, a escrita tailandesa não é um alfabeto. Nas escritas fonéticas (isto é, quando um símbolo representa um som) o alfabeto é a escrita na qual consoantes e vogais têm o mesmo status e são símbolos autônomos. É o caso do alfabeto latino, do cirílico, do grego, do georgiano, armênio, etc.

Ocorre que também há escritas fonéticas em que as vogais são omitidas ou são opcionais ou é de se presumir o som vocálico a partir da leitura da consoante. A isto se chama um abjad e é o sistema, por exemplo, do árabe e do hebraico. No caso do hebraico, até há símbolos que representam as vogais, mas elas são usadas apenas por crianças (niqqud). Com o tempo, espera-se que o leitor da língua hebraica consiga ler as palavras sem a maioria das vogais. A palavra “SEFER” (livro, em hebraico) é escrita assim: ספר, isto é “SFR” (lembrando que o hebraico escreve-se da direita para a esquerda), cabendo ao leitor presumir as vogais entre as consoantes. Isto é um abjad e não um alfabeto.

Há ainda a escrita silabárica, na qual um símbolo tem o som não de um fonema mas de uma sílaba (compreendida enquanto uma consoante + uma vogal). Os dois “alfabetos” fonéticos da língua japonesa (há, ainda, a escrita logográfica ou pictográfica, na qual os símbolos transmitem “ideias” e não necessariamente sons), hiragana e katakana são silabários: portanto para escrever “kimono” usam-se três símbolos: ki + mo + no (きもの). Acaso as sílabas fossem ka + ma + na, seriam usados símbolos completamente diferentes.

Por fim, e aqui se enquadra o tailandês, há a escrita abugida. Nela, o elemento principal é a consoante e as vogais vão sendo acopladas de forma secundária às consoantes. Às vezes, em uma abugida, as vogais acabam sendo omitidas também. São abugidas, além da escrita tailandesa, os diversos alfabetos brâmicos (usados nas línguas da Índia), a escrita amárica (usada na Etiópia) e o coreano.

Portanto, a primeira coisa a se aprender no tailandês são as consoantes. Elas são 44, muito além do necessário para os sons consonantais do tailandês (isto tem uma razão histórica) e isto faz com que, por exemplo, haja nada menos que 6 letras para representar o som “t” aspirado (‘th’, como em time do inglês e não como o ‘t’ de tempo em português): ฑ, ฒ, ฐ, ท, ถ e ธ.

Também há 4 letras para o som “s” (como em sapato) e 5 para o “kh” (o som “k” aspirado como em can do inglês), etc.

Daí que chega-se à primeira e óbvia conclusão: na melhor das hipóteses, alguém que estude apenas a escrita tailandesa e não a língua tailandesa jamais conseguirá ter competência ativa para escrever corretamente palavras em tailandês. Isto porque não é possível saber qual letra escolher para representar o som, pois são plurais as possibilidades. O máximo que se pode almejar, estudando apenas o alfabeto, é a aptidão passiva para ler a abugida tailandesa: Isto é, ao ver ทะ eu sei que o som será “tha”, mas se me pedirem para escrever uma palavra cujo som seja “tha”, eu tenho apenas uma chance em seis de acertar…

Portanto, para se conseguir apenas esta competência passiva, o ideal é agrupar as letras que fazem o mesmo som e estudá-las em conjunto. Assim, aprender que o som de “l” pode ser obtido pelas letrase , ao passo que o som de “h” (aspirado, como em inglês) é representado porou, etc.

As vogais… bem, as vogais são 28 e dividem-se entre as longas e as curtas: é o som “a” alongado e é o som “a” curto. As vogais jamais podem ser escritas como eu fiz aqui, isoladas. Tratando-se de uma abugida, elas precisam estar conectadas a uma consoante.

Algo estarrecedor no tailandês é que as vogais podem vir depois da consoante, embaixo da consoante, em cima da consoante, na frente na consoante (!) ou gravitar em torno da consoante (mais de um símbolo vocálico para produzir um único som vocálico). A própria palavra: THAI escreve-se ไทย, isto é, AI-T-I, sendo que a vogal (ditongo) “ai” vem na frente da consoante “th” à qual é acoplada. É árduo aprender as vogais em tailandês porque, por exemplo, é necessário combinar vários símbolos vocálicos para formar um único som. Eu aprendi apenas os mais fáceis e úteis como o som “a” que pode vir em cima ou na frente, o som “e” que vem antes da consoante, o som “i” que normalmente vai em cima, o som “o” que pode vir antes, depois (ou nem vir) e o som “u” que vai embaixo da consoante.

Tudo isto que eu já disse não é nem o início da dificuldade da abugida tailandesa: as consoantes podem mudar de sons dependendo de sua localização, na palavra: exemplo, o “r” vira “n” se vier escrito na final da palavra, etc. Além disto, o tailandês é uma língua tonal e há sinais (diacríticos) indicativos do tom que aquela sílaba deve ter: ascendente, descendente, etc. Errar o tom significa não se fazer compreender, simples assim.

Mais ainda, vários sons da língua tailandesa não correspondem exatamente aos sons que, tipicamente (ao menos nas línguas da Europa Ocidental) são representados pelo alfabeto latino: assim pode ser “g” ou “k”, mas a bem da verdade é um som entre “g” e “k”… E como se não bastasse, os tailandeses não são lá muito propensos as separar as palavras, isto é, é comum escrevertudojuntoassimdessejeito.

Há quem considere que a abugida tailandesa é o mais complexo sistema escrito fonético do mundo (não há termo de comparação, porém, com o sistema logográfico), ao passo que a escrita coreana é considerada a mais fácil (eu tenho a tendência a concordar com isto, o “alfabeto” coreano é tão fácil que pode ser aprendido em algumas horas).

Não é minha intenção aqui “ensinar” a escrita tailandesa, até porque eu mal a conheço. Mas, uma vez obtida a tábua com as consoantes e as vogais do tailandês, é possível com algum esforço ir compreendendo e memorizando os sons que fazem, de tal modo que, eu garanto!, vai-se conseguir ler alguma coisa na Tailândia e a sensação de “conquista” valerá todo o esforço.

Por exemplo, eu queria visitar um templo em Ayutthaya e acabei chegando lá “entendendo” os sons desta placa abaixo: Luang Pho Lokayasutha (Phranan). O que significa isto eu não faço a menor ideia: mas cheguei ao Wat Lokayasutharam…

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Não que seja fundamental aprender o alfabeto tailandês para “se virar” na Tailândia. Longe disto. Mas saber, ainda que rudimentos, do alfabeto tailandês aumenta a qualidade da viagem à Tailândia.

Se alguém tiver o mesmo interesse que eu tive, minha sugestão é: para começar assistir a alguns tutoriais no YouTube e, para treinar, pode-se acompanhar as legendas de videoclips de músicas em tailandês, em especial, as “sad songs” (cantadas de forma mais devagar) que os tailandeses tanto amam…

https://www.youtube.com/watch?v=NbWe8rHvAlQ

É impossível não valer a pena aprender mais um alfabeto, mesmo que seja por hobby.